O lado de lá do mundo

Pela janela de vidros limpos, o horizonte é um convite. Enxergo-o pairando entre os soluços da serra e os saltos dos prédios. Tímido. Está ali nas brechas entre montes e concretos, como uma criança que esconde o corpo, mas espia descuidada, revelando o olhar sorridente.  Vejo-o aberto ao que está além. Um caminho cheio de ventanias e sol, distante de meu claustro. Onde começa a viagem para o lado de lá do mundo?

Enquanto esta torre me protege, também me limita. Entendo, vagarosamente, que há tristeza na segurança, pois estar seguro é privar-se do inesperado; e sinto-me em abstinência daquilo que não posso controlar. A torre faz alguém em mim gritar um “basta!”, deixando-me ansioso por contiguidade de almas. É preciso deixar algo fluir, ser o que tem que ser. Abandonar todo e qualquer controle. Mas controle sobre o quê?

Mecanizado. Sistemático. A torre me fez seguir uma cartilha sem autor, sem lógica, em desacordo com minha própria essência. A   janela de vidro impecável, entretanto, parece me dizer que chegou o momento de romper o padrão, a lei, o fardo.

Da minha prisão de seguranças máximas, eclode minha liberdade sufocada. Que me receba bem o vasto horizonte a céu aberto! Deixo livre tudo que controlei um dia. Deixo tudo apenas ser, e recebo os louros e açoites de viver com o que vier. Que tudo seja vendaval e sol, rumo a algum lugar onde eu seja pássaro desbravador.

Presente

Eis que a raiva e a revolta viraram tristeza. Já fui de enfrentar o mundo, mas hoje apenas me compadeço dele. Como seriam bem-vindos os gritos de protesto! Mas tudo que me chega à boca, nesse instante, são murmúrios de um choro preso. Essa sensação, de que não adianta lutar, talvez seja a forma mais cruel de condenação. Existe na minha garganta uma passeata branca e inexpressiva, um silêncio do quê dizer, porque tudo já foi dito.

Meus ideais, de tão limpos e claros, foram postos à margem da revolução dos imundos.  Tudo que vejo agora é a sombra da besta que se ergue das ruas, das mansões, das urnas. Minha fé foi metralhada e padece em seus últimos suspiros… Olho em volta, como uma Madalena imaculada, sob as miras das pedras que não mereço. É injusta a justiça, é cruel meu julgamento.

Tenho em mim um silêncio doente. Uma voz cheia de intenções, numa boca que não se move mais. Falta-me aquele brilho de outrora, a gana de combater o bom combate. Tudo é mentira e maldade, é tudo vantagem e guerra.

Como todo moribundo, prezo pelo descanso. Espero. Preciso, sim, desse momento de desilusão. Preciso me sentir à beira do abismo, como se não houvesse mais o próximo passo. Preciso sentir a dor dos injustiçados. Preciso perder a batalha. Preciso sentir. E então voltar com as cicatrizes, rumo a uma nova luta.

Estou calado, porque é necessário o luto por esse eu que sangra. Estou quieto, porque estou sarando as feridas. Fraco, para juntar novas forças.

Eles podem matar minha voz incômoda, mas minhas ideias correm pelo ar e se enraízam em outras bocas. Eles podem me matar na emboscada, mas eu ainda estarei presente. Em um novo levante, em um novo tempo, ressurgido com mais fome de luta. Deixem-me, por enquanto, velando um eu derrotado, que, em breve, estarei marchando de novo, de pé no fronte de batalha.

Silêncio de mil palavras

Minha boca não abriu. Não disse. Não protestou ou justificou. Calou-se. Nas outras vezes, quando a resposta ainda vinha, ela batia nas paredes com força e morria no chão, agonizando depois do choque. Responder, ou não, dava no mesmo. Os únicos resultados eram sofrimento e perda de tempo, então, retrucar deixou de fazer sentido.

Ela fala alto, como de costume. O dedo em riste e os olhos fumegando. O motivo? Talvez a toalha na cama, ou as dívidas de jogo. São muitas possibilidades para um mesmo fim. Não tiro sua razão, como ela me tira a justificativa. Escuto. Dois ouvidos bem ativos e uma boca selada me contemplam nesse momento. Em algum lugar de mim, ouço a voz que me chama de covarde. Aquele ser demoníaco que todos carregamos logo abaixo do pulmão, que vez por outra nos acende uma fogueira no peito. Foi bem o que ele fez. Ateou-me fogo por dentro, mas minha boca não abriu. As chamas me consumiam, mas calei. Abrir a boca, naquele instante, seria baforar as labaredas que nos consumiriam ainda mais.

Diante do meu silêncio, ela parou. Ainda estava furiosa, claro, e queria me ver também da mesma forma. Chutou minha caixa de papéis, que já estava tímida na quina do quarto. A conta de luz pousou no chão, enquanto eu engolia a fumaça das minhas chamas secretas. Olhamos um para o outro.

Ela era a fúria que eu odiava, eu era o silêncio que lhe causava repulsa. Dois estranhos.

Quando ela me perguntou se eu não ia falar nada, consegui abrir a boca. Língua, dentes, lábios, prontos para vomitar um texto de mil palavras, mas tudo que me saiu pela garganta foi um fôlego trôpego, uma expiração de cansaço. Cansado. Era exatamente isso que traduzia minha redação não lida.

Nesses momentos, quando tudo que poderia ser dito soa repetitivo, o próprio corpo cansa. Não quer falar, não aceita debater. Apenas cala, como quem diz “chega”. Olhei nos olhos dela e esperei que me lesse, porque já tínhamos intimidade para isso. O que eu falei estava no ar, pairando invisível, dançando entre as cortinas, ondulando entre a louça no escorredor de pratos e os lençóis na cama mal forrada. Estava tudo ali, no nosso lugar, no nosso espaço, nela. Minhas palavras estavam escritas na pele daquela desconhecida, uma tatuagem cursiva, delicada, com pedidos de paz e declarações de amor.

Apenas saí de casa e deixei ali as palavras. Até hoje são sua companhia, e a acusam de toda a culpa do fim, embora eu as reprima por tamanha responsabilidade. Erramos os dois.

Hoje sigo em silêncio, porque as palavras deixei com ela. Estou indisposto para falar novamente, para ouvir de novo. Sigo feliz no zumbido calmo de quem não tem o que replicar, de quem só canta e assobia a solidão bem-vinda que a liberdade traz.

Fascínio pelas ruínas

Ele tem a alma estilhaçada. São cacos de um eu que flutuam na superfície de seu nome, como um quebra-cabeça que não se junta mais, porque existem, entre uma peça e outra, pequenos fragmentos que voaram para longe. Um jovem implodido, sufocado pela poeira que lhe desceu a garganta.

Seus dias passam como numa guerra de um homem só. Ele contra o mundo, contra todos, em um caos que precede a ordem que nunca chega. Há um fascínio de minha parte, quando enxergo sua luta silenciosa e os demônios revolvendo-se sob a sua pele. Tem uma beleza nessa catástrofe de gente, nessas ruínas ambulantes, e sinto-me culpado por admirá-la.

Ele tem traços suaves, um rosto bonito que não deseja sê-lo. Prefere a olheira e a sujeira, como se a beleza lhe fosse um fardo insuportável. Ele quer a violência em todas as suas nuances. Agride, cospe, bate, grita! Ele é a revolta encarnada e desconhece o que chamamos de afeto. Se tocado, ele treme. Afasta-se como que por um choque. Não quer apego, nem carícias, muito menos palavras bonitas. O que ele quer?

Penso que quer morrer de uma vez, mas não tem coragem de fazê-lo. Talvez ele queira alguém que simplesmente insista, como aqueles que quebraram a marretadas o muro de 1989. Guerra fria. Ele contra quem? Alguém. Deus. Ele mesmo. Está o tempo todo falando de morte e pancada. Quando escolhe alguém para passar a noite, transa como quem pune. Satisfaz seu gozo e sai do quarto.

As drogas lhe são parceiras nas madrugadas. O cigarro, a maconha, a coca, o doce, a bala. A bala… Anseia por bala. No peito do outro, ou no seu. Ele dança com a morte como quem propõe em noivado a puta mais conhecida da cidade. Acredita nela como fonte de vida, sabendo que ela apenas é capaz de tirá-la. Quão fascinante ele é… E eu lhe ofereço uma espécie de devoção.

Estou venerando Shiva. Ele é Shiva renascida, posso supor. Tanta beleza e juventude seladas num frasco de carne e ossos que flutua nas águas de um esgoto fétido. Começo a achar que o encanto que ele me causa tem alguma raiz aqui mesmo em mim. Ele é um eu que sufoquei com minhas próprias mãos. Um eu que me chamou ao caos, nos anos em que também fui jovem e belo.

Ele é meus demônios em outra curva da minha vida. Lá na estrada que nunca visitei, nas calçadas que nunca dobrei. Aceno de longe. Ele me vê e teme qualquer aproximação. Talvez eu seja os demônios que ele mesmo já matou um dia. A curva da estrada que ele nunca dobrará. A calçada em que ele nunca porá os pés. Somos espelhos do que poderíamos ter sido. Siameses cortados à faca crua, num corte duro e sangrento que nos jogou para lados opostos.

Os pássaros sobre o muro

Quando me dei conta, estava tomando meu café da manhã todos os dias de frente para o muro. Uma parede velha, de tijolos aparentes e alguns buracos. Nada de especial. Separava a calçada de um terreno baldio cheio de tralhas e deixava a rua mais apresentável, sem falar no favor que fazia ao não deixar aquele lugar aberto a todo tipo de ocupação como uma boca de fumo ou desova de cadáveres. O muro me fazia sentir segurança.

Percebi que eu estava sentando, todas as manhãs, na varandinha de minha casa, enquanto fazia o desjejum. Lá tenho uma pequena mesa de madeira para apoiar meus chás e cafés e o cheiro da rua que chega manso às seis da manhã é sempre um convite para um bom dia que segue. Meu lugar, minha mesa, meu café… E o muro.

O que havia de tão especial naquela parede eu não sei. De certa maneira, encarar o muro me despertava para pensar na vida e filosofar aqui com minha própria alma, porque é assim que acontece na minha cabeça: retiro dramas existenciais da caixinha de palitos de dentes e o sentido da vida se torna claro quando vejo insetos carregando comida velha. Logo eu, acostumado a saber que devaneios me afloraram as imagens mais banais, estava ali, parado, em choque por perceber que estava namorando um muro velho e sem qualquer motivo.

Foi então que eles chegaram. No primeiro dia não me pareceram querer ficar, mas foram ficando, ficando e ficaram. Um pássaro com um mal gosto de cor que só vendo. Meio castanho, meio cinza. Bico pequeno e canto irritante. Dois, três, quatro. Fizeram um ninho em alguns poucos dias e eu os observei chegar a cada vôo rápido, trazendo consigo algum tipo de graveto sob a mira dos olhos miúdos. Eram uma família, nos moldes que eles deveriam entender, e para eles eu talvez fosse Deus, olhando tudo acontecer e permitindo o movimento.

O muro tinha, então, um propósito. Não se tratava mais de separar o terreno baldio, mas de amparar o ninho de pássaros feiosos. Era um muro feio também, não podia reclamar. Só daí veio a beleza, quando os dois elementos horrendos se juntaram em uma composição perfeita de cores e traços.

Tomei um gole de café. Sorri. Ora, ora… O muro estava esperando os pássaros para ser completo, e eu esperando sua plenitude para entendê-lo. Fomos vazios um do outro nesse meio tempo, esperando algum sentido ou beleza, alguma filosofia ou lição. Entretanto, agora vejo que o muro cairá em breve. Tem aqui e acolá algumas rachaduras, como também algumas pedras quase soltas, e um temporal está se espreguiçando no céu logo acima. Em pouco tempo terá ido o muro e os pássaros na correnteza que brotará do asfalto, mas até lá, deixo a pintura intacta e contemplo. Eu, como Deus que sou, reservo-me a apreciar o que se fez belo, pelo tempo que durar.

Vagante

Morreu no trânsito, em 1984. O choque foi tão grande que ele voou pelo vidro estilhaçado e borrou de vermelho o asfalto fervilhante do meio-dia. O sangue secou em poucos minutos, deixando sobre a rua uma mancha escura que ainda insistia em anunciar o acidente pelos dois dias seguintes. A culpa não foi dele, pelo que fora constatado na perícia, mas isso não importava mais. Perícias e culpas são confortos banais para quem fica do lado de cá, querendo resposta para o famoso “por quê?”.

Curioso é que não se deu conta de que havia morrido. Pelo menos não nos primeiros meses. Continuou indo trabalhar, correndo no calçadão às seis da manhã, dormindo no seu lado da cama. A esposa estava taciturna, era verdade, e já não colocava seu prato na mesa, mas ela tinha esses períodos de antipatia cuja lógica ele já havia desistido de encontrar no primeiro ano de casamento. A grande revelação veio em um happy hour de sexta-feira. Estava no bar de Corisco, o velho flamenguista da rua da ladeira que cobrava uma fortuna pela toscana e uma miséria pelo chopp. Pai dos bêbados. Os amigos estavam comentando algo sobre a notícia dada com requintes de crueldade pelo garçom. “Sague por todo lado”, dizia o homem de meia-idade, colocando os copos cheios sobre a mesa, “tão falando em trinta e três facadas”. Ele ia se pronunciar. Abriu a boca para dizer que era um absurdo o grau de violência daquela cidade, mas foi interrompido pelo colega que já havia dado um gole duradouro na sua cerveja. “Ficou pior que o Célio?”.

A boca ficou aberta no ar. O som não saiu, porque as ideias decidiram se reorganizar antes das palavras virem.

“Pior que o Célio”, confirmou o garçom, “mas com tanto sangue quanto”. Todos beberam em silêncio. “Trinta e três facadas é bastante coisa”, alguém murmurou pondo fim à colocação infeliz. Corisco gritou alguma coisa sobre o flamengo, lá da cozinha. Algumas pessoas riram e brindaram, outras soltaram uma vaia tímida e afrontosa. Futebol virou o assunto da mesa.

Célio se levantou da mesa percebendo que não tinha mesmo os pés. Estava flutuando há meses e não se dera conta. Foi para casa lembrando de alguns detalhes recentes, juntando as peças. Agora fazia sentido aquela ocasião e aquela outra. Não teve medo, ou raiva. Foi como se tivesse lido o final ruim de um livro bom. Talvez a melhor sensação tenha sido a de conclusão. Sentiu, pela primeira vez na vida, aquele sentimento de que havia um ponto final em tudo, mas ao mesmo tempo tudo continuava. Deu-se conta, já em frente ao portão da sua casa, que não fazia sentido voltar pra lá. Onde estava a luz, o túnel, os anjinhos e os guias espirituais que o levariam para uma terra de jardins e banquetes? Pior que isso, onde estavam as outras almas? Numa cidade dessas, com tanta morte, não tem mais ninguém vagando por aí querendo um papo cabeça sobre a eternidade? Ninguém.

Todos vivos. Todos falantes. Todos indo e vindo. Sofriam, tanto quanto sorriam. Sentiam de tudo um pouco, para o bem e para o mal. Ele estava só. Morto e invisível, com apenas um idioma que sequer sabia se outros poderiam entender. Nem uma alma morta por perto.

Demorou meses para perceber que estava assim. Vagando sozinho e transparente, falando com ninguém enquanto falava com todo mundo. Morreu voando pelo vidro do carro e pintou de vermelho o asfalto, mas não se deu conta de que para todos, ali mesmo, na rua, já estava morto. Estava, então, vivo para toda a eternidade, catando a passagem para um recomeço.

No meio disso tudo e de tantas perguntas que poderia ter consigo, carregou apenas uma: “quando foi que eu morri?”. As possibilidades foram até a infância. Por um segundo considerou já ter nascido morto. Quando?

Continuou vagando e falando sozinho. Deixou a casa para trás.

Transcendental

Deixem que eu abra as portas da minha mente e contemple o que há além. Não nasci para caber em mim, para ver somente o que meus olhos viram, para sentir o que meu corpo já sentiu. Transcendente por natureza, sei que existe um espaço maior a ser explorado e que não diz respeito ao mundo que me rodeia. Tenho ânsia de ir para lá. Rápido. Hoje. Agora.

Permitam que minha mente se abra para todas as possibilidades e que minha pele aflore outras peles, porque não quero uma vida que cabe num corpo só. Quero mergulhar no que é ser outros, vestindo-me de vários eus que nem eu conheço. Deixem que eu seja múltiplo e mude sempre, sempre novo, sempre jovem, na alvorada do que ninguém viu, desbravando o que todos temem conhecer. Sou pioneiro de qualquer coisa, por sede constante de ir aonde ninguém foi.

Os sons que ouço podem ser de instrumentos que não existem, porque cítaras, flautas ou atabaques não traduzem o ritmo dos meus rituais mais íntimos. Estou sempre ao redor da fogueira, regando-me dos contos tribais, dos medos primitivos, bebendo na fonte do que é ser humano. Estou, a todo tempo, fazendo lutar o velho sábio e o xamã desnudo.

Os toques que sinto me atravessam a pele, perfuram a carne. Transpassam os ossos como uma brisa gelada que intenta carregar-me para longe, mas só conseguem fazer minha alma ulular na vontade de ir embora. Oscilo em mim, como em marolas de alma na maré baixa que sou.

Deixem que esse meu ser dúbio, metade razão, metade imaginário, seja sempre dois! Ou três, ou vários. Não os quero juntos, colados, como se fossem predestinados a ser uma coisa só. Quero-me partido, entre a lógica e a magia, contando os contos de ciborgues e super-heróis enquanto anoto Durkheim e Deleuze. Permitam-me ser meio louco e infantil, até que a mente se decida ser apenas isso, no ocaso da vida.

Há dor e sofrimento no que conhecemos demais. Há angústia na ciência, porque regras são limites. Deixem que eu seja, em parte, livre, nesse paradoxo que nos resume enquanto espécie. Então o serei em todos os corpos não criados, nos tempos que não vivi, nos multiversos que desconheço e com as habilidades que não possuo. Expandido para além de mim, além das portas que deixei abertas para aqueles que virão depois.