Três olhares

A primeira vez que aconteceu eu tinha apenas oito anos. Trovão adoeceu e ficou deitado no cantinho de parede o tempo todo, ao longo de vários dias. “Tá morrendo”, as velhas diziam quando batiam o olho no animal. Naquela época não se procurava ajuda veterinária nessas situações. O cachorro morria porque chegava a hora, e a gente entregava o amigo pra morte – com pesar, mas, acima de tudo, gratidão. Era mais triste que hoje, quando se tem a chance de fazer o que for possível pra salvar o bichinho. Estava lá, em cima dos trapos que chamávamos cama, quase cheirando a parede que ao longo de treze anos esteve ao seu lado. Ele suspirava às vezes, tentava andar, mas caía deitado. Lembro-me de ter torcido para que ele se fosse logo de uma vez e chorei uma madrugada inteira porque deixei esse pensamento me ocorrer. Ele estava velho, eu novo. Tudo era velho ao meu redor, na verdade. Meus pais, a porcelana da minha avó, o reboco da parede da sala, que estava aberto como uma ferida mortal numa casa moribunda. Vez ou outra eu ia até o reboco e cutucava a terra da parede, que caía fina nos meus pés. Eu não conseguia ver, mas aquilo era sangue, e eu um torturador. No dia em que Trovão morreu eu havia aberto mais uns três centímetros na parede com uma colher. De alguma forma eu sentia que era o dia… Acho que fiquei tenso. Sentei do lado dele e só fiquei ali parado, olhando. Foi quando aconteceu. Ele me olhou de volta. A barriguinha subia e descia rápida, denunciando algum nervosismo, mas os olhos estavam tranquilos. Aquele olhar… Meu Trovão morreu sem estrondo, num silêncio de paz. Pude vê-lo indo embora lá no fundo da pupila, perdendo-se lá dentro. Nos últimos segundos ele me olhou com um amor que eu não pude decifrar. Ele soube me dizer o que era preciso, mas eu não soube responder no mesmo idioma, então chorei. Conheci o olhar do adeus, do obrigado, do até logo, e isso doeu.

A segunda vez aconteceu em uma situação totalmente oposta. O nascimento da minha primeira filha. Lá vem o tempo mais uma vez, fazendo chacota de como somos ínfimos… Pulei algumas linhas e já se foram vinte anos. Lara nasceu numa quinta-feira, às 22h 45min. A primeira vez que a vi de olhos bem abertos foi no apartamento do hospital e já havíamos sido apresentados. Aquela pessoinha empacotada abriu os olhos e me fitou sem maiores agitações ou qualquer sombra de choro. Apenas me olhou, profundamente, e parecia também estar me declamando algum poema angelical. Pela segunda vez na vida um simples olhar silencioso me fez chorar e eu sequer compreendia o porquê. Procurei os laços que havia entre Trovão e ela e tudo que me chegou à mente foi fragilidade, pureza. Procurei também as diferenças e pude pensar em morte e vida. O que havia em comum nesses dois olhares que me arrebataram para um estado divino de diálogo e contemplação? Eu não sabia responder, mas queria que acontecesse novamente. Naqueles momentos de olhares de alma, eu podia entender minha própria essência, podia ser tão profundo quanto eterno.

Até que aconteceu a terceira vez. Hoje. Há poucos minutos. Deixe-me convidar o tempo aqui novamente, porque já estou nos meus setenta e dois anos. Um velho, que, como todo velho, já não se surpreende com a vida e nem descobre mais nada de si. Peguei-me olhando um quadro no museu. Óleo sobre tela, século XIV. A tinta estava rachada sobre o tecido e os contornos haviam perdido contraste, embora tenham ganhado a elegância da textura quebradiça sobre as pinceladas cuidadosas. Tratava-se de um homem sentado numa cadeira luxuosa (um trono?), com seres celestiais ao seu redor. Talvez algum rei.   Ele tinha anjos sobre a cabeça e a luz divina lhe abraçava. Ele tinha ouro e comida, como se via na mesa farta do canto da tela. Ele tinha saúde e poder. Mulheres. De toda forma, ele não ria. Só me observava, cá fora da tela, como se dissesse “me deixa ser você”. Quando eu acho que entendi o que aqueles dois olhares significaram, chega a arte e me sacode novamente… Chorei. Sim, com um olhar sobre tela, de pincelada rachada, feita há séculos atrás.

Não era vida ou morte, nem fragilidade ou inocência. Não era tristeza ou alegria, futuro ou passado, nem tampouco bom ou ruim. Não era a língua dos anjos ou um idioma que eu não conhecesse. Era tão somente aquilo que somos todos, filhos da beleza na busca do transcendental. Era, talvez uma olhadela no sentimento puro e materializado, ou um rasgo descuidado no tecido da realidade. Aqueles três olhares foram, de certa forma, como olhar pela fechadura, contemplando outro mundo lá fora. Um mundo que não se toca. Um outro lugar, ao qual pertencemos, construído sobre essência, sentimento e beleza, e não sobre as ilusões de tudo que passa, morre e envelhece.

Namastê, Spinoza

O que sou é trapo velho e poeira baixa. Um corpo, recluso em si, agarrado às próprias pernas no canto mais escuro das paredes. Deixo fluir alguma vida na seiva que me corre vermelha, deixo o fôlego entrar e sair devagar. O corpo envelhece aos poucos, na lamúria do tempo que passa e caçoa de mim. Eu não sei mais se sou este corpo quebradiço e estático, ou algo ali dentro que ainda se revolve, como homem imenso catando espaço no cobertor minúsculo. Há Deus aqui – aqui dentro –, porque esse ser que me habita, certamente, não sou apenas eu.

A pele se pendura em mim, nos meus ossos, e já sinto que ela me é um manto solene. Não é mais minha parte externa como já fora um dia, é algo além dos meus limites. Movimentos curtos me evocam, exorcizam-me para alguma ação tola e sem propósito. Sou solavancos de espírito em um corpo que não me cabe mais. Não nos cabe. Eu e Deus, que aqui, na sala ampla do meu peito, conversamos com olhares. Longas conversas, eu digo, pois o Todo Poderoso tem todo o tempo para falar, como teve para assistir.

Quanto mais Ele fala, menos eu me pronuncio. Sumo, aos poucos e lentamente, enquanto Ele estica as pernas no divã. Ele cresce aqui dentro, eu me aperto. Começou me falando dos meus erros em vida, de como fui cruel na infância e estúpido aos vinte. Cada falha apontada, cada erro. Não, Ele não falava por mal. Ria de como fui mortal, pequeno nas perspectivas, mas insistia em dizer que o tempo das fronteiras muradas estava acabando. Contou-me, então, que quando os muros caíssem, iríamos correr os mundos. Havia muita água para nos carregar, muito ar para nos fazer subir. Luz! Havia luz por todo lado e o que quer que ela tocasse, poderíamos também. Faltava apenas cair o muro. Muro de pele e osso, de velhice conquistada e beleza perdida.

Ele é parte de tudo e me convida para também sê-lo. Eu, fragmento desprezível que me vejo ser, talvez não seja tão pouco. Talvez eu seja Ele na juventude da eternidade, descobrindo os quarteirões longe de casa, botando o pé na rua. A casca ressecada e quebradiça que mostro a todos não passaria de crisálida frágil, ou patíbulo nefasto – e isto não respondo, porque não ainda não a superei.

Ele cresce ainda. Deixa a sala e adentra meus quartos, meu fígado, meu cérebro. Onde Ele está, na mansão oca que hoje sou? Não posso saber. Ele é todos os meus recantos e nenhum ao mesmo tempo. Eu mesmo não sei em que parte de mim estou escondido, porque tudo aqui dentro é dEle. Não me pergunte se isso é bom ou ruim, pois já disse que não sei. A única resposta que me chega à essência, agora, é que sou Eu parte dele, como ele parte de tudo.

Luísa

A bolsa estourou por volta das seis horas da manhã. Minha esposa não conseguia esconder de mim aquele olhar de felicidade e medo e eu não conseguia demonstrar outra coisa que não pavor. A equipe já estava a postos. A pequena piscina de plástico estava montada na sala. O dia não poderia ter amanhecido mais lindo, disso eu lembro; com um céu azul e limpo – sem uma nuvem sequer. O sol caía pelas janelas como que acariciando-nos e as árvores lá fora farfalhavam nos seus cochichos matinais. Era uma casa de campo, longe de tudo e todos, porque foi isso que escolhemos para o parto. Esse era um momento só nosso e a pequena Luísa merecia essas boas-vindas.

A casa dos meus avós era quase toda de madeira, num estilo incomum para nossa região, e tinha até uma lareira que nunca foi acesa. Havia uma memória europeia naquele lugar que eu relutei em aceitar na adolescência, porque não fazia sentido para meu orgulho nacional. Depois de uns anos gostei. A idade sempre nos faz aceitar o que a juventude repudiou. Acabou sendo minha grande parte na herança, um lugar onde eu conhecia o que era a paz ao menos uma vez por mês, quando fugia da cidade. Árvores e mato, era tudo que havia ao redor. Os sons vinham dos pássaros e dos insetos (esses sim, um grande motivo de minha fúria constante por ali). Estar naquela casa, no meio de tanto verde, de certo me rejuvenescia. Eu gostava de sair com pés descalços pelos arredores, sentir as pedrinhas, a umidade, os grãos frios. Minha mulher gritou.

A equipe tinha cinco pessoas, a piscina dois metros quadrados. Toda a paz daquele lugar, de repente, havia desaparecido. Ela entrou nua na água e as contrações estavam vindo. O sol já não estava tão gentil. As árvores espiavam curiosas e quietas. Onde haviam se metido os malditos passarinhos?! Duas enfermeiras da equipe sorriam e diziam palavras tranquilizadoras, o resto de nós estava concentrado no momento, imersos naquela tensão costumeira dos partos. “Segura minha mão”, minha esposa falou. Segurei.

Do lado de fora, a mata me chamava. A paz estava lá fora, escondida na parte escura do bosque, naquele cantinho onde o sol nem chegava e um córrego surgia sempre que a chuva passava por ali. Que vontade de fugir! “Segura minha mão”. Eu ainda estava ali.

Foram horas! E eu pensei que partos eram como nos filmes e se resolviam em dez, quinze minutos. “Luísa está chegando!”, comemorava a enfermeira feliz, mas meu peito não se abria para recebê-la. Minha esposa estava sofrendo, embora houvesse no semblante dela algum tipo de realização que eu não compartilhava. Havia dor, mas ela estava vivendo uma experiência que eu nunca compreenderei. Luísa para mim era brutal, estava rasgando-a, egoísta na sua inocência de quem não sabe onde está nem o que faz. Eu não podia estar sentindo aquilo, porque minha filha não era a prioridade das minhas compaixões. “Eu preciso tomar um ar”, confessei. Creio que eu estava pálido, porque todos concordaram. “Amor, volte logo, eu preciso de você aqui”, minha esposa sussurrou. Concordei.

A porta da casa abriu para mim como um portal para outro mundo. Joguei os sapatos na varanda e saí, apressado, para o cantinho escuro. Terra entrando nos dedos, pedras me açoitando o calcanhar, vento ainda frio e sol quente me empurrando para a mata. A mata! A mata! Eu precisava dela como uma droga, uma fuga de mim mesmo e daquilo tudo. Era meu deus verde e esparso, silencioso como todos os deuses, esperando minhas preces para que me devolvesse as energias. Cheguei no meu recanto de sombras. O córrego não estava lá, mas havia deixado o rastro de suas águas tímidas. Respirei fundo.

Procurei dentro de mim o que estava errado, mas não achei. Não havia motivo. Foi quando me deixei aberto. Enfiei as mãos na terra, ouvi os pássaros que cantavam ao longe. Os insetos, até, aceitei-os sobre meu braço e pernas. Fui me enterrando e virando pedra, fui sendo mata. Onde estava o problema, se não dentro de mim? Luísa talvez estivesse me chamando para fora, para expandir-me além do meu corpo. Eu poderia ser maior que eu? Daria conta de ser mais do que eu já havia aprendido a ser? Eu podia ser horizonte quando estava naquela casa, no meio da natureza. Eu era a história de meus pais e avós, era mundo, era toda forma de vida, mas com um bebê no colo, quem eu seria? Deixaria de ser tudo isso ou eu mesmo, e seria ela. Ainda menor, ainda mais frágil, embora fosse também maior que o universo e o tempo. Quanto paradoxo! E eu não sabia entendê-lo, teorizá-lo, colocá-lo dentro das minhas regras e justificativas. Esse terrível medo de mudar…

No meio do som delicado dos pássaros, ouvi. Luísa chorou. Entendi que viemos para cá por minha causa. Eu precisava também ser parido pai e nascer da terra, das plantas, do córrego. Também chorei. Fomos ninados, então, pelas mães emocionadas, e, enfim, foram cortados nossos cordões umbilicais.

O pátio vazio

Tudo pronto para a apresentação de dança do colégio. O mês de junho trazia consigo as memórias de uma infância que eu havia esquecido. Senti o cheiro da pamonha feita em casa, na panela velha e gigantesca que minha avó guardava no quartinho dos fundos e que, raramente, era trazida à tona. Não me deixem devanear, o cheiro me veio só na memória, como um resquício da idade pouca que já não tenho mais. Lá, no pátio, o cheiro vinha mesmo era da mesinha de café para os pais e dos fogos de artifício que estavam sendo estourados para anunciar o início das quadrilhas. Pólvora, café e terra molhada. A chuva de junho havia passado para dar a benção aos moleques paramentados e a festa iria começar em alguns instantes.

Dei-me conta de três ou quatro crianças correndo no pátio vazio. Ora em círculos, ora em trajetórias malucas, elas corriam às gargalhadas. “Por que criança insiste em correr sem motivo?”, eu pensei. Era uma constante. Crianças e pátios não davam em outra coisa que não uma correria louca e feliz, como se fossem perseguidos e gostassem disso. Tive vontade de dizer para os pais retirarem os pequenos da algazarra, porque a festa iria começar, mas me peguei pensando que não… A festa já havia começado. Era aquilo mesmo, sem música ou coreografia. Era só correr e rir.

Quando foi que perdemos essa vontade desvairada de correr e sorrir sem motivo? Em que momento, me pergunto, deixamos de lado a vontade de expandir, de crescer, e assumimos o lado oposto, de diminuir, de se esconder? Começo a lembrar que eu também já fui assim. Nos tempos da pamonha, do quintal, da casa da avó. Fecho os olhos para lembrar, para me sentir de novo ali, naquela felicidade de quem não sabe o que é problema, de quem nem percebeu que se morre ou se sofre na vida. Se não sabemos da morte, somos imortais, eu penso… A ignorância embebida de ingenuidade é uma dádiva.

Eu já corri sem motivo pelo prazer do vento no rosto. Já senti que chuva não era sinônimo de lençol e cama, mas sim de banho e festa. Eu era o próprio sol, posso dizer, debaixo de qualquer tempestade. Escavo-me, mergulho em mim e no meu tempo passado. Lá nas profundezas abissais e escuras de um eu mórbido há de se encontrar ainda um baú brilhoso cheio desses pequenos tesouros. Contemplo-me naqueles dias.

Não procuro responsáveis por tanta mudança, afinal, somos todos a soma de pequenas coisas, transmutados em monstros gigantes de pedra ou no grotesco acúmulo de fragmentos desimportantes. Pequenas partes que nos pesam no final das contas. Está aí o segredo disso tudo: o peso.

Deixei as crianças correrem. Sorri com elas. Não havia nada a ser carregado ainda, não havia desculpas para não correr. O passarinho de ossos leves voa, enquanto nossos ossos fortes nos prendem ao chão. Deixem que elas nos ensinem como deve ser. Chegará o dia em que aprenderemos com elas e não elas conosco: como ser voo e não rastejo, ser sorriso e não choro, como ser vento no rosto e não pátio vazio.

Trinta e poucos

A festa surpresa estava marcada para começar às 20h. A família já tinha chamado os amigos mais próximos e todos se aglomeraram na sala escura, ao redor da mesa com alguns ornamentos discretos. A idade dele exigia que houvesse certa moderação. Os pais eram os únicos sentadinhos no sofá, porque já passavam dos setenta e cinco e estavam cansados demais para esperar de pé. “Ele chegou!”, sussurrou a prima que abanava o ar com as mãos ansiosas pedindo que diminuíssem o barulho. Silêncio total. O sobrinho tossiu sem querer e o irmão logo tapou-lhe a boca. Era aquele minuto tenso de expectativa quando se trama na surdina. A chave rodou na fechadura e logo a maçaneta mexeu.

No minuto anterior, entretanto, ele vinha pensando nos seus trinta e poucos. Que dia comum aquele… Era como se a juventude celebrasse os anos com uma voracidade de quem tem fome de festa! Por outro lado, com o passar do tempo os aniversários tinham ficado mais contidos e discretos. Não fazia mais sentido comemorar o tempo, numa desproporção de benfeitorias com quem tantos desagrados tinha trazido. Sim, vieram nesses anos a experiência, a placidez, toda uma soma de calmarias da alma que a juventude não permitia ter, no entanto outras coisas mais importantes foram arrancadas.  Ele já não sentia o coração bater forte nas pequenas coisas, não se apaixonava por ninguém, nem mesmo conseguia criar novos amigos. Fechou-se por puro comodismo, uma conformidade com o que já se tem. Perdera em alguma das décadas passadas aquela adrenalina de viver com intensidade cada emoção, cada descoberta. O “eu te amo” virou “bom dia” – e como foi difícil dizê-lo na primeira vez! – o sexo virou rotina – e o coração já não pulava pela boca nos primeiros toques da noite. Naquele segundo que antecedeu a porta aberta ele pensou na vida como estava, em como havia se tornado simples demais. Marasmo de horários e compromissos, de pessoas desvendadas e emoções conhecidas. Não que fosse ruim, era apenas menos do que já fora um dia.

Quero me ater ainda nesse tal segundo que antecedeu a festa, dizendo que também pensou na família e nos amigos de uma forma tão contemplativa que julgava tê-los colocado num palco italiano, assistindo quieto seus movimentos coreografados ao longo dos últimos anos. Estavam todos onde ele supunha que estariam, desde quando projetou seus caminhos há muito tempo atrás. O irmão casou e se formou. Tem um filho lindo que parece com ele, mas tem o gênio totalmente oposto. Os pais estão velhinhos, embora ainda companheiros um do outro, esperando que o primeiro se vá para que o outro siga logo depois. Tios, primos, amigos e amigas… Todos cumprindo o roteiro.

Tudo isso o fez parar. A chave rodou, sim, na fechadura; a maçaneta virou, mas a porta não abriu. Ele deu meia-volta e foi até o carro. Largou a casa aberta para quem quisesse entrar e pegou a estrada. Havia magia na BR escura e isso era algo que ele precisava intensamente. Tudo agora era racional demais. Foi pra outra cidade, como quem lembra de um compromisso inadiável, e talvez fosse mesmo isso: um compromisso com o que nem ele sabia o que era, com o não planejado. Lá haveria um rumo novo – tedioso ou não – quem pode dizer? Haveria possiblidades que ele não sabia quais eram.

Então pensou que talvez tivesse, por impulso, encontrado o erro na sua jornada de trinta e poucos. Ele simplesmente domou a vida. Logo ela, que é como cavalo selvagem, que corre pelo prazer do vento na crina, que se revolta quando tentam montá-la. Por alguns momentos, naquela estrada, ele foi cavalo selvagem. A juventude subiu-lhe à superfície da alma, como que sem fôlego, puxando o ar que há muito não tinha. Era curioso notar que ela ainda estava ali.

Em sua casa, todos ficaram sem saber o que celebrar. Eis a grande surpresa da noite. O bolo, a música engatilhada, os balões e as bebidas perderam o sentido. Por que a festa deveria acontecer sem ele? O que haveria para comemorar?

O segredo dela

Ela tem um segredo de infância. Perceba em seus olhos pequenos, que dançam no vácuo de um horizonte imaginário. Está ali nas lacunas de um sorriso discreto. Um câncer que se esconde por trás da timidez. Quando a noite chega, com suas luzes gotejadas naqueles postes melancólicos da rua, ela simplesmente abre a janela do quarto e cata um resto de céu no meio dos prédios. Fica sonhando com o segredo ou com nunca tê-lo tido? Só se sabe que vaga, perambula por entre esferas de devaneios como se a vida não bastasse. Digo isso não com um tom de quem ama a vida, mas sim de quem a tem por fardo. Eu noto nos olhos dela que existe ali, nas curvas mais internas da alma, uma amizade com a morte distante. Trata-a como uma amiga que virá um dia, cujo aceno miúdo, há quilômetros de distância, traz consigo um anúncio bom e tranquilo.

Uma pessoa ímpar, ela é. Não é das que se lamentam ou choram sem motivo. Simplesmente vive, passando pelos anos rumo ao nada, sentindo o que lhe trouxerem para sentir. Não busca o novo, não mergulha de cabeça. Molha apenas o calcanhar nas águas, como um Aquiles invertido, mas nunca mergulha no que quer que seja. Sim, tenho vontade de acalentá-la, perguntar que memória a afeta tanto, saber que segredo é esse, mas não ouso romper-lhe a bolha. Sei que ela não diria. Esse tal segredo, amigos, é como uma serpente criada cheia de mimos. Um demônio encantador que lhe roubou a vida, mas que, ao mesmo tempo, desperta nela uma paixão incomum. Não a julgo. Afinal, temos todos nossos pequenos fardos amados, nossos medos preciosos.

Lá vai ela pela ladeira, num passo arrastado de quem segue e para. Moça, sente cá na minha sala e pode falar o que a incomoda. Não sou de dar conselhos, eu garanto, e tudo que eu disser pode ser jogado fora. Escuto. Apenas ouço tudo que lhe diz respeito, as confissões de sua língua aprisionada, e faço isso por um lado para vê-la bem, e por outro para matar minha curiosidade. Qual é o segredo?

Ela nunca falará. Também jamais perguntarei. Ficamos eu e ela, tropeçando um no outro, colidindo olhares descuidados, imaginando uma conversa. Ela é o meu segredo, penso. Minha vontade de desbravar almas, como nunca desbravaram a minha. Um navegador inavegável que sou, sedento das águas turbulentas daquela mulher de vazios. Digo para mim mesmo que a entendo em cada não vontade de viver, porque também já estive lá. Ou estou. Moça, sente cá um segundo e escute meus segredos. Talvez sejamos uma coisa só.

A puta e a besta

Ela chegou nua e coberta de sangue. Um ser vermelho e viscoso dos pés à cabeça, com os olhos inchados de tanto chorar. Indefesa. Era tão frágil que não temia ser devorada pela criatura que habitava a caverna, pois sabia, no seu íntimo, que até a morte já seria uma vantagem. Não havia nada a perder.

Entrou na escuridão e avistou a besta deitada. Era enorme como o salão rochoso. A escuridão do submundo, aliada a algumas frestas banhadas pela lua, fazia com que seu corpo imenso fosse apenas sombra com alguns contornos suaves, enquanto os olhos brilhavam redondos. Estavam encarando-a com estranheza. O focinho farejou o sangue no corpo da visita e ele parecia anunciar uma refeição pronta para ser devorada. Levantou-se devagar. A dama ensanguentada e a besta, cara-a-cara, fitando um ao outro no frio da noite. Havia corpos recém-dilacerados por todo lado, havia esqueletos antigos. O cheiro da gruta era tão fétido quanto o dos pelos do animal atroz.

A mulher estendeu a mão lentamente. Sussurrou alguns chiados e não deixou que seus olhos largassem os da besta. Aproximou-se arrastando os pés, como quem dá um passo para o abismo. Estava entregue ao que fosse seu fim, dedicada a tocar o inimigo que logo lhe devoraria o braço. A besta, entretanto, acalmou-se. Havia comido demais, talvez, apenas voltou a se deitar e se deixou ser tocada. Os carinhos vieram tímidos. Os toques estavam sempre cheios de temor.

Todo o medo e o respeito pela besta, contudo, passou na mesma medida em que se passaram os dias e os meses, os anos. Aquele grande amontoado de pelos e dentes, sangue e fúria, agora obedecia aos desmandos da hóspede vermelha. Não era mais vermelha por estar coberta de sangue, mas o era porque vestia então uma túnica da mesma cor. Estava ali o segredo descoberto já nos primeiros dias: a besta respeitava o sangue, honrava-o como honrava a paz dos mortos. Tudo que a mulher precisava fazer para domar o animal era estar de vermelho.

Fez da caverna sua morada. Tomou espaço da besta quando a domesticou. No seu âmago, a mulher sentia que esse era seu propósito: domá-la, e assumiu para si que aquela caverna era seu reino, que aquele animal era seus súditos. Veja bem, uma rainha auto coroada, sob o sangue falso dos mantos vermelhos, controlando a mais feroz das criaturas.

Infelizmente, todo poder corrompe, como é fácil observar aqui. A dama em sangue vendeu-se aos louros da conquista. Montou a besta e saiu da caverna, aterrorizando todos pelo medo da morte. Liberou novamente a besta para a carnificina total, levou-a a campos de ceifa, sorriu ao vê-la caçar. Dominou o mundo dessa forma, controlando o pior da Terra.

Rainha? Não… Embora nascida pura e nua, fruto do sangue de muitos, perdeu seu propósito de domar a besta e fez de si a maior das feras viventes. Prostitui-se pelo poder, pela mentira, pelo ouro. No fim das contas, era puta, vivendo a mentira de um domínio que nunca teve. Um dia o vento soprou o manto, de uma forma que jamais sopraria o sangue. A besta então a mordeu como o faria a qualquer outro. Não houve hesitação, não houve piedade. A besta devorou , no final das contas, aquela que deveria ser sua princesa encantada.