Atlas caído

Perdão pela falha, mas eu não suporto carregar o mundo. Tenho a idade me enervando as pernas, o cansaço de quem já andou demais. Curvo-me sem perceber. Sou arco sem corda, cuja flecha já foi há muito disparada, cuja aljava escondeu-se bem longe, em outro tempo, outro lugar.

Minha vontade é de te carregar nas costas, como a um corpo que já morreu e merece seu descanso na cova distante. Minha vontade é te ter pele a pele comigo, mas infelizmente não sou capaz. Um mundo pesado, eu diria, sobre as costas de quem não aguenta erguer-se corretamente. Olhe você para mim agora e veja que estou caindo. A cada passo, a cada fôlego, já encaro o chão com um olhar de quem o deseja.

Guarde contigo a longa caminhada. Nossa jornada até aqui. Foram séculos infindos de passos que dei no vazio, sem um rumo certo quando achei que iríamos a algum lugar. Foram os anos da juventude, quando as pernas eram fortes e as costas suportavam você. Você que é meu mundo, mas não me deixa entrar.

Tudo isso, na verdade, é tão curioso quanto desolador. Você, meu mundo, tem suas praias e planícies, suas relvas e florestas, montanhas. Você tem aí dentro meus lugares favoritos, a ânsia dos meus últimos dias regada a toda a paz que preciso. Logo eu, que te trouxe nas costas até aqui, estou parado à sua porta. Um inquilino proibido por ser grande demais. Sim, eu sou maior que você e talvez esta seja minha bênção tanto quanto minha maldição. Sou amaldiçoado por não disfrutar de você por inteiro, por não te ver com toda a majestade e imponência que você deve ter; mas sou também abençoado por saber que posso te deixar aqui como quem larga um fardo e segue em frente, errático pela estrada que já me guiava desde antes de você chegar.

De tanto carregar o mundo nas costas, deixei de ser eu para ser o seu pilar sustentador. Quem sou eu agora, sem você? Um pilar que nada sustenta, uma peça pela metade? Talvez um velho corcunda e cansado, cheio de memórias de uma caminhada heroica e vazia. Talvez um deus vagante, com as costas dilaceradas, em pleno processo de recriação.

Sou sozinho, sem mundo, sem tudo, na busca infinita do que carregar comigo.

 

 

Imagem: Atlante (1646), por Giovanni Francesco Barbieri detto (Guercino).

O nariz vermelho

O picadeiro estava iluminado com uma luz quase comum, sem foco. Neste pequeno circo, a magia estava mais na nossa mente que nas parafernálias de palco. O cheiro de pipoca dançou nas nossas narinas, que também percebeu a terra do chão, a ferrugem dos bancos velhos, a noite. Antes da grande apresentação, um farfalhar da lona velha e rasgada: era a lua de espreita pela fenda maior. Curiosos, ela e nós, seguimos esperando.

A música alegre começou. Alguém virou o poste de luz de forma desajeitada, quase derrubando-o. As crianças riram com aquela ânsia de riso por qualquer razão. Pediam por ele. O palhaço.

Sapatos largos e caricatos, fazendo curva. Suspensórios, camisa de botão com desenhos infantis. Peruca, maquiagem, luvas, gravata. Ele era todo circo e o circo era ele. Ninguém percebeu que esquecera o nariz vermelho. Crianças riram novamente e ele não fez nenhum esforço para isso. Um movimento cartoonesco e as gargalhadas vinham como uma lufada de vento sacudindo a lona. Então ele parou.

Olhou para nós e deixou apagar seu riso e o brilho no olhar. A música cessou. O silêncio das crianças incomodava mais que a figura colorida inerte sob a luz âmbar. Tirou do bolso uma toalha e limpou o rosto devagar, embora com certa rispidez. Jogou fora a peruca. Chutou os sapatos. O que estava acontecendo ali? Ninguém o deteve. Seria parte do show? Ninguém também se levantou da plateia.

Desceu os suspensórios. Abriu a camisa de botão. Agora pude ver que os desenhos infantis eram nuvens e carneirinhos. Desceu as calças. Não tinha graça. Não houve quem quisesse rir do palhaço nu. Estava lá de pé, tão homem quanto nós que o víamos sem reação. Tinha braços e pernas com pelos iguais a mim. Éramos tão iguais naquele momento…

Alguém sussurrou que o viu chorando. Outro, ao fundo, perguntou se ele estava louco. A verdade é que o palhaço era, ali, um homem nu sob o holofote. Seria palhaço ainda? A lua saiu da sua fenda no teto e a lona farfalhou rápida em resposta. Ele continuava parado, tão natural com sua nudez quanto um bebê recém-nascido.

A pureza do palhaço não era a nossa. Ele podia estar bem naquela situação, mas nós estávamos cada vez mais constrangidos, apesar de o choque nos deixar presos nos bancos velhos enferrujados. Alguém tossiu. Sempre tossem.

“O nariz!”, murmuraram nos bastidores, “o nariz!!”. Então jogaram-lhe a bolinha vermelha. O palhaço pegou-a no ar e esticou o fino elástico por trás da cabeça. Agora sim, tinha a cara de palhaço! O riso veio tímido, a começar pelas crianças, claro. Depois os adolescentes. Depois nós. Rimos todos. As peripécias e malabares continuaram normalmente, ao som de nossas gargalhadas. O curioso, no entanto, é que lá no palco ele também ria aos montes olhando para nós. O palhaço nu achou em nós alguma graça também e, dessa forma, estávamos nos entretendo mutuamente. Pena que ele tinha o nariz vermelho, nós não.

 

Imagem: Palhaços, 1957 – Cândido Portinari.

 

Asséptico

Eu vi que levaram o moribundo para o hospital hoje cedo. Lá as paredes são brancas e os tecidos têm tons pastéis. Tudo é limpo. Lá ele pode ser dopado e dormir o tempo todo, sem sofrer diante de nós, sem nos fazer ouvir sua dor.

Vi que limparam a cracolândia. Tiraram o lixo da rua, para que eu não visse mais aquela pobreza e degradação. Aquele amontoado de preto, cinza e marrom, com pernas e braços, em mantas rasgadas. A rua agora tem canteiros com mudinhas promissoras e lixeiras laranjas, que contrastam com o asfalto.

Grafitaram os muros da favela, pra deixar mais atrativo vendo de fora. A arte liberta, afinal. Passaram também um muro gigantesco na frente da comunidade, separando-a da pista. Ele ainda é cinza, mas a prefeitura já anunciou que em breve terá as cores do partido e um espaço 3mx2m para exposições periódicas de obras em lambe-lambe. A primeira é de um nova-iorquino, inclusive. Críticas ao capitalismo, o que reflete bem a necessidade de expressão dos pobres moradores ali por trás.

Vi também que não há violência, nem nu, nem sexo na programação da TV. Agora todos falam “caramba” e o caralho está na boca suja do cinema. Cinema é daquele povo rico metido a alternativo, TV é pra gente como a gente. De bem. Direita.

Eu vi que o mundo já foi um lugar ruim, mas hoje tudo se resolve aos trancos e barrancos. Demora, mas estamos indo bem. Onde já se viu, por exemplo, velar um parente na sala de casa? Quanto mau agouro e falta de higiene… E não precisa ir muito longe! Foi há algumas décadas atrás. Minha vó chegava a abrir a porta de casa e chamar os pedintes para comer à mesa. Depois ficava lá a cadeira manchada.

O mundo já foi mais sujo. Agora, ainda bem, tudo é mais limpo. Hoje meu mundo não vê morte e desmaia com sangue, conhece a miséria pela TV e não a encara na calçada. Hoje eu ajudo os Médicos sem Fronteira na Zâmbia por apenas um real ao dia, e chamo a polícia se a fronteira bate na minha porta pedindo as sobras do almoço. Hoje, o mundo é endireitado pro caminho certo, graças a Deus.

Três olhares

A primeira vez que aconteceu eu tinha apenas oito anos. Trovão adoeceu e ficou deitado no cantinho de parede o tempo todo, ao longo de vários dias. “Tá morrendo”, as velhas diziam quando batiam o olho no animal. Naquela época não se procurava ajuda veterinária nessas situações. O cachorro morria porque chegava a hora, e a gente entregava o amigo pra morte – com pesar, mas, acima de tudo, gratidão. Era mais triste que hoje, quando se tem a chance de fazer o que for possível pra salvar o bichinho. Estava lá, em cima dos trapos que chamávamos cama, quase cheirando a parede que ao longo de treze anos esteve ao seu lado. Ele suspirava às vezes, tentava andar, mas caía deitado. Lembro-me de ter torcido para que ele se fosse logo de uma vez e chorei uma madrugada inteira porque deixei esse pensamento me ocorrer. Ele estava velho, eu novo. Tudo era velho ao meu redor, na verdade. Meus pais, a porcelana da minha avó, o reboco da parede da sala, que estava aberto como uma ferida mortal numa casa moribunda. Vez ou outra eu ia até o reboco e cutucava a terra da parede, que caía fina nos meus pés. Eu não conseguia ver, mas aquilo era sangue, e eu um torturador. No dia em que Trovão morreu eu havia aberto mais uns três centímetros na parede com uma colher. De alguma forma eu sentia que era o dia… Acho que fiquei tenso. Sentei do lado dele e só fiquei ali parado, olhando. Foi quando aconteceu. Ele me olhou de volta. A barriguinha subia e descia rápida, denunciando algum nervosismo, mas os olhos estavam tranquilos. Aquele olhar… Meu Trovão morreu sem estrondo, num silêncio de paz. Pude vê-lo indo embora lá no fundo da pupila, perdendo-se lá dentro. Nos últimos segundos ele me olhou com um amor que eu não pude decifrar. Ele soube me dizer o que era preciso, mas eu não soube responder no mesmo idioma, então chorei. Conheci o olhar do adeus, do obrigado, do até logo, e isso doeu.

A segunda vez aconteceu em uma situação totalmente oposta. O nascimento da minha primeira filha. Lá vem o tempo mais uma vez, fazendo chacota de como somos ínfimos… Pulei algumas linhas e já se foram vinte anos. Lara nasceu numa quinta-feira, às 22h 45min. A primeira vez que a vi de olhos bem abertos foi no apartamento do hospital e já havíamos sido apresentados. Aquela pessoinha empacotada abriu os olhos e me fitou sem maiores agitações ou qualquer sombra de choro. Apenas me olhou, profundamente, e parecia também estar me declamando algum poema angelical. Pela segunda vez na vida um simples olhar silencioso me fez chorar e eu sequer compreendia o porquê. Procurei os laços que havia entre Trovão e ela e tudo que me chegou à mente foi fragilidade, pureza. Procurei também as diferenças e pude pensar em morte e vida. O que havia em comum nesses dois olhares que me arrebataram para um estado divino de diálogo e contemplação? Eu não sabia responder, mas queria que acontecesse novamente. Naqueles momentos de olhares de alma, eu podia entender minha própria essência, podia ser tão profundo quanto eterno.

Até que aconteceu a terceira vez. Hoje. Há poucos minutos. Deixe-me convidar o tempo aqui novamente, porque já estou nos meus setenta e dois anos. Um velho, que, como todo velho, já não se surpreende com a vida e nem descobre mais nada de si. Peguei-me olhando um quadro no museu. Óleo sobre tela, século XIV. A tinta estava rachada sobre o tecido e os contornos haviam perdido contraste, embora tenham ganhado a elegância da textura quebradiça sobre as pinceladas cuidadosas. Tratava-se de um homem sentado numa cadeira luxuosa (um trono?), com seres celestiais ao seu redor. Talvez algum rei.   Ele tinha anjos sobre a cabeça e a luz divina lhe abraçava. Ele tinha ouro e comida, como se via na mesa farta do canto da tela. Ele tinha saúde e poder. Mulheres. De toda forma, ele não ria. Só me observava, cá fora da tela, como se dissesse “me deixa ser você”. Quando eu acho que entendi o que aqueles dois olhares significaram, chega a arte e me sacode novamente… Chorei. Sim, com um olhar sobre tela, de pincelada rachada, feita há séculos atrás.

Não era vida ou morte, nem fragilidade ou inocência. Não era tristeza ou alegria, futuro ou passado, nem tampouco bom ou ruim. Não era a língua dos anjos ou um idioma que eu não conhecesse. Era tão somente aquilo que somos todos, filhos da beleza na busca do transcendental. Era, talvez uma olhadela no sentimento puro e materializado, ou um rasgo descuidado no tecido da realidade. Aqueles três olhares foram, de certa forma, como olhar pela fechadura, contemplando outro mundo lá fora. Um mundo que não se toca. Um outro lugar, ao qual pertencemos, construído sobre essência, sentimento e beleza, e não sobre as ilusões de tudo que passa, morre e envelhece.

Namastê, Spinoza

O que sou é trapo velho e poeira baixa. Um corpo, recluso em si, agarrado às próprias pernas no canto mais escuro das paredes. Deixo fluir alguma vida na seiva que me corre vermelha, deixo o fôlego entrar e sair devagar. O corpo envelhece aos poucos, na lamúria do tempo que passa e caçoa de mim. Eu não sei mais se sou este corpo quebradiço e estático, ou algo ali dentro que ainda se revolve, como homem imenso catando espaço no cobertor minúsculo. Há Deus aqui – aqui dentro –, porque esse ser que me habita, certamente, não sou apenas eu.

A pele se pendura em mim, nos meus ossos, e já sinto que ela me é um manto solene. Não é mais minha parte externa como já fora um dia, é algo além dos meus limites. Movimentos curtos me evocam, exorcizam-me para alguma ação tola e sem propósito. Sou solavancos de espírito em um corpo que não me cabe mais. Não nos cabe. Eu e Deus, que aqui, na sala ampla do meu peito, conversamos com olhares. Longas conversas, eu digo, pois o Todo Poderoso tem todo o tempo para falar, como teve para assistir.

Quanto mais Ele fala, menos eu me pronuncio. Sumo, aos poucos e lentamente, enquanto Ele estica as pernas no divã. Ele cresce aqui dentro, eu me aperto. Começou me falando dos meus erros em vida, de como fui cruel na infância e estúpido aos vinte. Cada falha apontada, cada erro. Não, Ele não falava por mal. Ria de como fui mortal, pequeno nas perspectivas, mas insistia em dizer que o tempo das fronteiras muradas estava acabando. Contou-me, então, que quando os muros caíssem, iríamos correr os mundos. Havia muita água para nos carregar, muito ar para nos fazer subir. Luz! Havia luz por todo lado e o que quer que ela tocasse, poderíamos também. Faltava apenas cair o muro. Muro de pele e osso, de velhice conquistada e beleza perdida.

Ele é parte de tudo e me convida para também sê-lo. Eu, fragmento desprezível que me vejo ser, talvez não seja tão pouco. Talvez eu seja Ele na juventude da eternidade, descobrindo os quarteirões longe de casa, botando o pé na rua. A casca ressecada e quebradiça que mostro a todos não passaria de crisálida frágil, ou patíbulo nefasto – e isto não respondo, porque não ainda não a superei.

Ele cresce ainda. Deixa a sala e adentra meus quartos, meu fígado, meu cérebro. Onde Ele está, na mansão oca que hoje sou? Não posso saber. Ele é todos os meus recantos e nenhum ao mesmo tempo. Eu mesmo não sei em que parte de mim estou escondido, porque tudo aqui dentro é dEle. Não me pergunte se isso é bom ou ruim, pois já disse que não sei. A única resposta que me chega à essência, agora, é que sou Eu parte dele, como ele parte de tudo.

Luísa

A bolsa estourou por volta das seis horas da manhã. Minha esposa não conseguia esconder de mim aquele olhar de felicidade e medo e eu não conseguia demonstrar outra coisa que não pavor. A equipe já estava a postos. A pequena piscina de plástico estava montada na sala. O dia não poderia ter amanhecido mais lindo, disso eu lembro; com um céu azul e limpo – sem uma nuvem sequer. O sol caía pelas janelas como que acariciando-nos e as árvores lá fora farfalhavam nos seus cochichos matinais. Era uma casa de campo, longe de tudo e todos, porque foi isso que escolhemos para o parto. Esse era um momento só nosso e a pequena Luísa merecia essas boas-vindas.

A casa dos meus avós era quase toda de madeira, num estilo incomum para nossa região, e tinha até uma lareira que nunca foi acesa. Havia uma memória europeia naquele lugar que eu relutei em aceitar na adolescência, porque não fazia sentido para meu orgulho nacional. Depois de uns anos gostei. A idade sempre nos faz aceitar o que a juventude repudiou. Acabou sendo minha grande parte na herança, um lugar onde eu conhecia o que era a paz ao menos uma vez por mês, quando fugia da cidade. Árvores e mato, era tudo que havia ao redor. Os sons vinham dos pássaros e dos insetos (esses sim, um grande motivo de minha fúria constante por ali). Estar naquela casa, no meio de tanto verde, de certo me rejuvenescia. Eu gostava de sair com pés descalços pelos arredores, sentir as pedrinhas, a umidade, os grãos frios. Minha mulher gritou.

A equipe tinha cinco pessoas, a piscina dois metros quadrados. Toda a paz daquele lugar, de repente, havia desaparecido. Ela entrou nua na água e as contrações estavam vindo. O sol já não estava tão gentil. As árvores espiavam curiosas e quietas. Onde haviam se metido os malditos passarinhos?! Duas enfermeiras da equipe sorriam e diziam palavras tranquilizadoras, o resto de nós estava concentrado no momento, imersos naquela tensão costumeira dos partos. “Segura minha mão”, minha esposa falou. Segurei.

Do lado de fora, a mata me chamava. A paz estava lá fora, escondida na parte escura do bosque, naquele cantinho onde o sol nem chegava e um córrego surgia sempre que a chuva passava por ali. Que vontade de fugir! “Segura minha mão”. Eu ainda estava ali.

Foram horas! E eu pensei que partos eram como nos filmes e se resolviam em dez, quinze minutos. “Luísa está chegando!”, comemorava a enfermeira feliz, mas meu peito não se abria para recebê-la. Minha esposa estava sofrendo, embora houvesse no semblante dela algum tipo de realização que eu não compartilhava. Havia dor, mas ela estava vivendo uma experiência que eu nunca compreenderei. Luísa para mim era brutal, estava rasgando-a, egoísta na sua inocência de quem não sabe onde está nem o que faz. Eu não podia estar sentindo aquilo, porque minha filha não era a prioridade das minhas compaixões. “Eu preciso tomar um ar”, confessei. Creio que eu estava pálido, porque todos concordaram. “Amor, volte logo, eu preciso de você aqui”, minha esposa sussurrou. Concordei.

A porta da casa abriu para mim como um portal para outro mundo. Joguei os sapatos na varanda e saí, apressado, para o cantinho escuro. Terra entrando nos dedos, pedras me açoitando o calcanhar, vento ainda frio e sol quente me empurrando para a mata. A mata! A mata! Eu precisava dela como uma droga, uma fuga de mim mesmo e daquilo tudo. Era meu deus verde e esparso, silencioso como todos os deuses, esperando minhas preces para que me devolvesse as energias. Cheguei no meu recanto de sombras. O córrego não estava lá, mas havia deixado o rastro de suas águas tímidas. Respirei fundo.

Procurei dentro de mim o que estava errado, mas não achei. Não havia motivo. Foi quando me deixei aberto. Enfiei as mãos na terra, ouvi os pássaros que cantavam ao longe. Os insetos, até, aceitei-os sobre meu braço e pernas. Fui me enterrando e virando pedra, fui sendo mata. Onde estava o problema, se não dentro de mim? Luísa talvez estivesse me chamando para fora, para expandir-me além do meu corpo. Eu poderia ser maior que eu? Daria conta de ser mais do que eu já havia aprendido a ser? Eu podia ser horizonte quando estava naquela casa, no meio da natureza. Eu era a história de meus pais e avós, era mundo, era toda forma de vida, mas com um bebê no colo, quem eu seria? Deixaria de ser tudo isso ou eu mesmo, e seria ela. Ainda menor, ainda mais frágil, embora fosse também maior que o universo e o tempo. Quanto paradoxo! E eu não sabia entendê-lo, teorizá-lo, colocá-lo dentro das minhas regras e justificativas. Esse terrível medo de mudar…

No meio do som delicado dos pássaros, ouvi. Luísa chorou. Entendi que viemos para cá por minha causa. Eu precisava também ser parido pai e nascer da terra, das plantas, do córrego. Também chorei. Fomos ninados, então, pelas mães emocionadas, e, enfim, foram cortados nossos cordões umbilicais.

O pátio vazio

Tudo pronto para a apresentação de dança do colégio. O mês de junho trazia consigo as memórias de uma infância que eu havia esquecido. Senti o cheiro da pamonha feita em casa, na panela velha e gigantesca que minha avó guardava no quartinho dos fundos e que, raramente, era trazida à tona. Não me deixem devanear, o cheiro me veio só na memória, como um resquício da idade pouca que já não tenho mais. Lá, no pátio, o cheiro vinha mesmo era da mesinha de café para os pais e dos fogos de artifício que estavam sendo estourados para anunciar o início das quadrilhas. Pólvora, café e terra molhada. A chuva de junho havia passado para dar a benção aos moleques paramentados e a festa iria começar em alguns instantes.

Dei-me conta de três ou quatro crianças correndo no pátio vazio. Ora em círculos, ora em trajetórias malucas, elas corriam às gargalhadas. “Por que criança insiste em correr sem motivo?”, eu pensei. Era uma constante. Crianças e pátios não davam em outra coisa que não uma correria louca e feliz, como se fossem perseguidos e gostassem disso. Tive vontade de dizer para os pais retirarem os pequenos da algazarra, porque a festa iria começar, mas me peguei pensando que não… A festa já havia começado. Era aquilo mesmo, sem música ou coreografia. Era só correr e rir.

Quando foi que perdemos essa vontade desvairada de correr e sorrir sem motivo? Em que momento, me pergunto, deixamos de lado a vontade de expandir, de crescer, e assumimos o lado oposto, de diminuir, de se esconder? Começo a lembrar que eu também já fui assim. Nos tempos da pamonha, do quintal, da casa da avó. Fecho os olhos para lembrar, para me sentir de novo ali, naquela felicidade de quem não sabe o que é problema, de quem nem percebeu que se morre ou se sofre na vida. Se não sabemos da morte, somos imortais, eu penso… A ignorância embebida de ingenuidade é uma dádiva.

Eu já corri sem motivo pelo prazer do vento no rosto. Já senti que chuva não era sinônimo de lençol e cama, mas sim de banho e festa. Eu era o próprio sol, posso dizer, debaixo de qualquer tempestade. Escavo-me, mergulho em mim e no meu tempo passado. Lá nas profundezas abissais e escuras de um eu mórbido há de se encontrar ainda um baú brilhoso cheio desses pequenos tesouros. Contemplo-me naqueles dias.

Não procuro responsáveis por tanta mudança, afinal, somos todos a soma de pequenas coisas, transmutados em monstros gigantes de pedra ou no grotesco acúmulo de fragmentos desimportantes. Pequenas partes que nos pesam no final das contas. Está aí o segredo disso tudo: o peso.

Deixei as crianças correrem. Sorri com elas. Não havia nada a ser carregado ainda, não havia desculpas para não correr. O passarinho de ossos leves voa, enquanto nossos ossos fortes nos prendem ao chão. Deixem que elas nos ensinem como deve ser. Chegará o dia em que aprenderemos com elas e não elas conosco: como ser voo e não rastejo, ser sorriso e não choro, como ser vento no rosto e não pátio vazio.