Namastê, Spinoza

O que sou é trapo velho e poeira baixa. Um corpo, recluso em si, agarrado às próprias pernas no canto mais escuro das paredes. Deixo fluir alguma vida na seiva que me corre vermelha, deixo o fôlego entrar e sair devagar. O corpo envelhece aos poucos, na lamúria do tempo que passa e caçoa de mim. Eu não sei mais se sou este corpo quebradiço e estático, ou algo ali dentro que ainda se revolve, como homem imenso catando espaço no cobertor minúsculo. Há Deus aqui – aqui dentro –, porque esse ser que me habita, certamente, não sou apenas eu.

A pele se pendura em mim, nos meus ossos, e já sinto que ela me é um manto solene. Não é mais minha parte externa como já fora um dia, é algo além dos meus limites. Movimentos curtos me evocam, exorcizam-me para alguma ação tola e sem propósito. Sou solavancos de espírito em um corpo que não me cabe mais. Não nos cabe. Eu e Deus, que aqui, na sala ampla do meu peito, conversamos com olhares. Longas conversas, eu digo, pois o Todo Poderoso tem todo o tempo para falar, como teve para assistir.

Quanto mais Ele fala, menos eu me pronuncio. Sumo, aos poucos e lentamente, enquanto Ele estica as pernas no divã. Ele cresce aqui dentro, eu me aperto. Começou me falando dos meus erros em vida, de como fui cruel na infância e estúpido aos vinte. Cada falha apontada, cada erro. Não, Ele não falava por mal. Ria de como fui mortal, pequeno nas perspectivas, mas insistia em dizer que o tempo das fronteiras muradas estava acabando. Contou-me, então, que quando os muros caíssem, iríamos correr os mundos. Havia muita água para nos carregar, muito ar para nos fazer subir. Luz! Havia luz por todo lado e o que quer que ela tocasse, poderíamos também. Faltava apenas cair o muro. Muro de pele e osso, de velhice conquistada e beleza perdida.

Ele é parte de tudo e me convida para também sê-lo. Eu, fragmento desprezível que me vejo ser, talvez não seja tão pouco. Talvez eu seja Ele na juventude da eternidade, descobrindo os quarteirões longe de casa, botando o pé na rua. A casca ressecada e quebradiça que mostro a todos não passaria de crisálida frágil, ou patíbulo nefasto – e isto não respondo, porque não ainda não a superei.

Ele cresce ainda. Deixa a sala e adentra meus quartos, meu fígado, meu cérebro. Onde Ele está, na mansão oca que hoje sou? Não posso saber. Ele é todos os meus recantos e nenhum ao mesmo tempo. Eu mesmo não sei em que parte de mim estou escondido, porque tudo aqui dentro é dEle. Não me pergunte se isso é bom ou ruim, pois já disse que não sei. A única resposta que me chega à essência, agora, é que sou Eu parte dele, como ele parte de tudo.

Luísa

A bolsa estourou por volta das seis horas da manhã. Minha esposa não conseguia esconder de mim aquele olhar de felicidade e medo e eu não conseguia demonstrar outra coisa que não pavor. A equipe já estava a postos. A pequena piscina de plástico estava montada na sala. O dia não poderia ter amanhecido mais lindo, disso eu lembro; com um céu azul e limpo – sem uma nuvem sequer. O sol caía pelas janelas como que acariciando-nos e as árvores lá fora farfalhavam nos seus cochichos matinais. Era uma casa de campo, longe de tudo e todos, porque foi isso que escolhemos para o parto. Esse era um momento só nosso e a pequena Luísa merecia essas boas-vindas.

A casa dos meus avós era quase toda de madeira, num estilo incomum para nossa região, e tinha até uma lareira que nunca foi acesa. Havia uma memória europeia naquele lugar que eu relutei em aceitar na adolescência, porque não fazia sentido para meu orgulho nacional. Depois de uns anos gostei. A idade sempre nos faz aceitar o que a juventude repudiou. Acabou sendo minha grande parte na herança, um lugar onde eu conhecia o que era a paz ao menos uma vez por mês, quando fugia da cidade. Árvores e mato, era tudo que havia ao redor. Os sons vinham dos pássaros e dos insetos (esses sim, um grande motivo de minha fúria constante por ali). Estar naquela casa, no meio de tanto verde, de certo me rejuvenescia. Eu gostava de sair com pés descalços pelos arredores, sentir as pedrinhas, a umidade, os grãos frios. Minha mulher gritou.

A equipe tinha cinco pessoas, a piscina dois metros quadrados. Toda a paz daquele lugar, de repente, havia desaparecido. Ela entrou nua na água e as contrações estavam vindo. O sol já não estava tão gentil. As árvores espiavam curiosas e quietas. Onde haviam se metido os malditos passarinhos?! Duas enfermeiras da equipe sorriam e diziam palavras tranquilizadoras, o resto de nós estava concentrado no momento, imersos naquela tensão costumeira dos partos. “Segura minha mão”, minha esposa falou. Segurei.

Do lado de fora, a mata me chamava. A paz estava lá fora, escondida na parte escura do bosque, naquele cantinho onde o sol nem chegava e um córrego surgia sempre que a chuva passava por ali. Que vontade de fugir! “Segura minha mão”. Eu ainda estava ali.

Foram horas! E eu pensei que partos eram como nos filmes e se resolviam em dez, quinze minutos. “Luísa está chegando!”, comemorava a enfermeira feliz, mas meu peito não se abria para recebê-la. Minha esposa estava sofrendo, embora houvesse no semblante dela algum tipo de realização que eu não compartilhava. Havia dor, mas ela estava vivendo uma experiência que eu nunca compreenderei. Luísa para mim era brutal, estava rasgando-a, egoísta na sua inocência de quem não sabe onde está nem o que faz. Eu não podia estar sentindo aquilo, porque minha filha não era a prioridade das minhas compaixões. “Eu preciso tomar um ar”, confessei. Creio que eu estava pálido, porque todos concordaram. “Amor, volte logo, eu preciso de você aqui”, minha esposa sussurrou. Concordei.

A porta da casa abriu para mim como um portal para outro mundo. Joguei os sapatos na varanda e saí, apressado, para o cantinho escuro. Terra entrando nos dedos, pedras me açoitando o calcanhar, vento ainda frio e sol quente me empurrando para a mata. A mata! A mata! Eu precisava dela como uma droga, uma fuga de mim mesmo e daquilo tudo. Era meu deus verde e esparso, silencioso como todos os deuses, esperando minhas preces para que me devolvesse as energias. Cheguei no meu recanto de sombras. O córrego não estava lá, mas havia deixado o rastro de suas águas tímidas. Respirei fundo.

Procurei dentro de mim o que estava errado, mas não achei. Não havia motivo. Foi quando me deixei aberto. Enfiei as mãos na terra, ouvi os pássaros que cantavam ao longe. Os insetos, até, aceitei-os sobre meu braço e pernas. Fui me enterrando e virando pedra, fui sendo mata. Onde estava o problema, se não dentro de mim? Luísa talvez estivesse me chamando para fora, para expandir-me além do meu corpo. Eu poderia ser maior que eu? Daria conta de ser mais do que eu já havia aprendido a ser? Eu podia ser horizonte quando estava naquela casa, no meio da natureza. Eu era a história de meus pais e avós, era mundo, era toda forma de vida, mas com um bebê no colo, quem eu seria? Deixaria de ser tudo isso ou eu mesmo, e seria ela. Ainda menor, ainda mais frágil, embora fosse também maior que o universo e o tempo. Quanto paradoxo! E eu não sabia entendê-lo, teorizá-lo, colocá-lo dentro das minhas regras e justificativas. Esse terrível medo de mudar…

No meio do som delicado dos pássaros, ouvi. Luísa chorou. Entendi que viemos para cá por minha causa. Eu precisava também ser parido pai e nascer da terra, das plantas, do córrego. Também chorei. Fomos ninados, então, pelas mães emocionadas, e, enfim, foram cortados nossos cordões umbilicais.

O pátio vazio

Tudo pronto para a apresentação de dança do colégio. O mês de junho trazia consigo as memórias de uma infância que eu havia esquecido. Senti o cheiro da pamonha feita em casa, na panela velha e gigantesca que minha avó guardava no quartinho dos fundos e que, raramente, era trazida à tona. Não me deixem devanear, o cheiro me veio só na memória, como um resquício da idade pouca que já não tenho mais. Lá, no pátio, o cheiro vinha mesmo era da mesinha de café para os pais e dos fogos de artifício que estavam sendo estourados para anunciar o início das quadrilhas. Pólvora, café e terra molhada. A chuva de junho havia passado para dar a benção aos moleques paramentados e a festa iria começar em alguns instantes.

Dei-me conta de três ou quatro crianças correndo no pátio vazio. Ora em círculos, ora em trajetórias malucas, elas corriam às gargalhadas. “Por que criança insiste em correr sem motivo?”, eu pensei. Era uma constante. Crianças e pátios não davam em outra coisa que não uma correria louca e feliz, como se fossem perseguidos e gostassem disso. Tive vontade de dizer para os pais retirarem os pequenos da algazarra, porque a festa iria começar, mas me peguei pensando que não… A festa já havia começado. Era aquilo mesmo, sem música ou coreografia. Era só correr e rir.

Quando foi que perdemos essa vontade desvairada de correr e sorrir sem motivo? Em que momento, me pergunto, deixamos de lado a vontade de expandir, de crescer, e assumimos o lado oposto, de diminuir, de se esconder? Começo a lembrar que eu também já fui assim. Nos tempos da pamonha, do quintal, da casa da avó. Fecho os olhos para lembrar, para me sentir de novo ali, naquela felicidade de quem não sabe o que é problema, de quem nem percebeu que se morre ou se sofre na vida. Se não sabemos da morte, somos imortais, eu penso… A ignorância embebida de ingenuidade é uma dádiva.

Eu já corri sem motivo pelo prazer do vento no rosto. Já senti que chuva não era sinônimo de lençol e cama, mas sim de banho e festa. Eu era o próprio sol, posso dizer, debaixo de qualquer tempestade. Escavo-me, mergulho em mim e no meu tempo passado. Lá nas profundezas abissais e escuras de um eu mórbido há de se encontrar ainda um baú brilhoso cheio desses pequenos tesouros. Contemplo-me naqueles dias.

Não procuro responsáveis por tanta mudança, afinal, somos todos a soma de pequenas coisas, transmutados em monstros gigantes de pedra ou no grotesco acúmulo de fragmentos desimportantes. Pequenas partes que nos pesam no final das contas. Está aí o segredo disso tudo: o peso.

Deixei as crianças correrem. Sorri com elas. Não havia nada a ser carregado ainda, não havia desculpas para não correr. O passarinho de ossos leves voa, enquanto nossos ossos fortes nos prendem ao chão. Deixem que elas nos ensinem como deve ser. Chegará o dia em que aprenderemos com elas e não elas conosco: como ser voo e não rastejo, ser sorriso e não choro, como ser vento no rosto e não pátio vazio.

Trinta e poucos

A festa surpresa estava marcada para começar às 20h. A família já tinha chamado os amigos mais próximos e todos se aglomeraram na sala escura, ao redor da mesa com alguns ornamentos discretos. A idade dele exigia que houvesse certa moderação. Os pais eram os únicos sentadinhos no sofá, porque já passavam dos setenta e cinco e estavam cansados demais para esperar de pé. “Ele chegou!”, sussurrou a prima que abanava o ar com as mãos ansiosas pedindo que diminuíssem o barulho. Silêncio total. O sobrinho tossiu sem querer e o irmão logo tapou-lhe a boca. Era aquele minuto tenso de expectativa quando se trama na surdina. A chave rodou na fechadura e logo a maçaneta mexeu.

No minuto anterior, entretanto, ele vinha pensando nos seus trinta e poucos. Que dia comum aquele… Era como se a juventude celebrasse os anos com uma voracidade de quem tem fome de festa! Por outro lado, com o passar do tempo os aniversários tinham ficado mais contidos e discretos. Não fazia mais sentido comemorar o tempo, numa desproporção de benfeitorias com quem tantos desagrados tinha trazido. Sim, vieram nesses anos a experiência, a placidez, toda uma soma de calmarias da alma que a juventude não permitia ter, no entanto outras coisas mais importantes foram arrancadas.  Ele já não sentia o coração bater forte nas pequenas coisas, não se apaixonava por ninguém, nem mesmo conseguia criar novos amigos. Fechou-se por puro comodismo, uma conformidade com o que já se tem. Perdera em alguma das décadas passadas aquela adrenalina de viver com intensidade cada emoção, cada descoberta. O “eu te amo” virou “bom dia” – e como foi difícil dizê-lo na primeira vez! – o sexo virou rotina – e o coração já não pulava pela boca nos primeiros toques da noite. Naquele segundo que antecedeu a porta aberta ele pensou na vida como estava, em como havia se tornado simples demais. Marasmo de horários e compromissos, de pessoas desvendadas e emoções conhecidas. Não que fosse ruim, era apenas menos do que já fora um dia.

Quero me ater ainda nesse tal segundo que antecedeu a festa, dizendo que também pensou na família e nos amigos de uma forma tão contemplativa que julgava tê-los colocado num palco italiano, assistindo quieto seus movimentos coreografados ao longo dos últimos anos. Estavam todos onde ele supunha que estariam, desde quando projetou seus caminhos há muito tempo atrás. O irmão casou e se formou. Tem um filho lindo que parece com ele, mas tem o gênio totalmente oposto. Os pais estão velhinhos, embora ainda companheiros um do outro, esperando que o primeiro se vá para que o outro siga logo depois. Tios, primos, amigos e amigas… Todos cumprindo o roteiro.

Tudo isso o fez parar. A chave rodou, sim, na fechadura; a maçaneta virou, mas a porta não abriu. Ele deu meia-volta e foi até o carro. Largou a casa aberta para quem quisesse entrar e pegou a estrada. Havia magia na BR escura e isso era algo que ele precisava intensamente. Tudo agora era racional demais. Foi pra outra cidade, como quem lembra de um compromisso inadiável, e talvez fosse mesmo isso: um compromisso com o que nem ele sabia o que era, com o não planejado. Lá haveria um rumo novo – tedioso ou não – quem pode dizer? Haveria possiblidades que ele não sabia quais eram.

Então pensou que talvez tivesse, por impulso, encontrado o erro na sua jornada de trinta e poucos. Ele simplesmente domou a vida. Logo ela, que é como cavalo selvagem, que corre pelo prazer do vento na crina, que se revolta quando tentam montá-la. Por alguns momentos, naquela estrada, ele foi cavalo selvagem. A juventude subiu-lhe à superfície da alma, como que sem fôlego, puxando o ar que há muito não tinha. Era curioso notar que ela ainda estava ali.

Em sua casa, todos ficaram sem saber o que celebrar. Eis a grande surpresa da noite. O bolo, a música engatilhada, os balões e as bebidas perderam o sentido. Por que a festa deveria acontecer sem ele? O que haveria para comemorar?

O segredo dela

Ela tem um segredo de infância. Perceba em seus olhos pequenos, que dançam no vácuo de um horizonte imaginário. Está ali nas lacunas de um sorriso discreto. Um câncer que se esconde por trás da timidez. Quando a noite chega, com suas luzes gotejadas naqueles postes melancólicos da rua, ela simplesmente abre a janela do quarto e cata um resto de céu no meio dos prédios. Fica sonhando com o segredo ou com nunca tê-lo tido? Só se sabe que vaga, perambula por entre esferas de devaneios como se a vida não bastasse. Digo isso não com um tom de quem ama a vida, mas sim de quem a tem por fardo. Eu noto nos olhos dela que existe ali, nas curvas mais internas da alma, uma amizade com a morte distante. Trata-a como uma amiga que virá um dia, cujo aceno miúdo, há quilômetros de distância, traz consigo um anúncio bom e tranquilo.

Uma pessoa ímpar, ela é. Não é das que se lamentam ou choram sem motivo. Simplesmente vive, passando pelos anos rumo ao nada, sentindo o que lhe trouxerem para sentir. Não busca o novo, não mergulha de cabeça. Molha apenas o calcanhar nas águas, como um Aquiles invertido, mas nunca mergulha no que quer que seja. Sim, tenho vontade de acalentá-la, perguntar que memória a afeta tanto, saber que segredo é esse, mas não ouso romper-lhe a bolha. Sei que ela não diria. Esse tal segredo, amigos, é como uma serpente criada cheia de mimos. Um demônio encantador que lhe roubou a vida, mas que, ao mesmo tempo, desperta nela uma paixão incomum. Não a julgo. Afinal, temos todos nossos pequenos fardos amados, nossos medos preciosos.

Lá vai ela pela ladeira, num passo arrastado de quem segue e para. Moça, sente cá na minha sala e pode falar o que a incomoda. Não sou de dar conselhos, eu garanto, e tudo que eu disser pode ser jogado fora. Escuto. Apenas ouço tudo que lhe diz respeito, as confissões de sua língua aprisionada, e faço isso por um lado para vê-la bem, e por outro para matar minha curiosidade. Qual é o segredo?

Ela nunca falará. Também jamais perguntarei. Ficamos eu e ela, tropeçando um no outro, colidindo olhares descuidados, imaginando uma conversa. Ela é o meu segredo, penso. Minha vontade de desbravar almas, como nunca desbravaram a minha. Um navegador inavegável que sou, sedento das águas turbulentas daquela mulher de vazios. Digo para mim mesmo que a entendo em cada não vontade de viver, porque também já estive lá. Ou estou. Moça, sente cá um segundo e escute meus segredos. Talvez sejamos uma coisa só.

A puta e a besta

Ela chegou nua e coberta de sangue. Um ser vermelho e viscoso dos pés à cabeça, com os olhos inchados de tanto chorar. Indefesa. Era tão frágil que não temia ser devorada pela criatura que habitava a caverna, pois sabia, no seu íntimo, que até a morte já seria uma vantagem. Não havia nada a perder.

Entrou na escuridão e avistou a besta deitada. Era enorme como o salão rochoso. A escuridão do submundo, aliada a algumas frestas banhadas pela lua, fazia com que seu corpo imenso fosse apenas sombra com alguns contornos suaves, enquanto os olhos brilhavam redondos. Estavam encarando-a com estranheza. O focinho farejou o sangue no corpo da visita e ele parecia anunciar uma refeição pronta para ser devorada. Levantou-se devagar. A dama ensanguentada e a besta, cara-a-cara, fitando um ao outro no frio da noite. Havia corpos recém-dilacerados por todo lado, havia esqueletos antigos. O cheiro da gruta era tão fétido quanto o dos pelos do animal atroz.

A mulher estendeu a mão lentamente. Sussurrou alguns chiados e não deixou que seus olhos largassem os da besta. Aproximou-se arrastando os pés, como quem dá um passo para o abismo. Estava entregue ao que fosse seu fim, dedicada a tocar o inimigo que logo lhe devoraria o braço. A besta, entretanto, acalmou-se. Havia comido demais, talvez, apenas voltou a se deitar e se deixou ser tocada. Os carinhos vieram tímidos. Os toques estavam sempre cheios de temor.

Todo o medo e o respeito pela besta, contudo, passou na mesma medida em que se passaram os dias e os meses, os anos. Aquele grande amontoado de pelos e dentes, sangue e fúria, agora obedecia aos desmandos da hóspede vermelha. Não era mais vermelha por estar coberta de sangue, mas o era porque vestia então uma túnica da mesma cor. Estava ali o segredo descoberto já nos primeiros dias: a besta respeitava o sangue, honrava-o como honrava a paz dos mortos. Tudo que a mulher precisava fazer para domar o animal era estar de vermelho.

Fez da caverna sua morada. Tomou espaço da besta quando a domesticou. No seu âmago, a mulher sentia que esse era seu propósito: domá-la, e assumiu para si que aquela caverna era seu reino, que aquele animal era seus súditos. Veja bem, uma rainha auto coroada, sob o sangue falso dos mantos vermelhos, controlando a mais feroz das criaturas.

Infelizmente, todo poder corrompe, como é fácil observar aqui. A dama em sangue vendeu-se aos louros da conquista. Montou a besta e saiu da caverna, aterrorizando todos pelo medo da morte. Liberou novamente a besta para a carnificina total, levou-a a campos de ceifa, sorriu ao vê-la caçar. Dominou o mundo dessa forma, controlando o pior da Terra.

Rainha? Não… Embora nascida pura e nua, fruto do sangue de muitos, perdeu seu propósito de domar a besta e fez de si a maior das feras viventes. Prostitui-se pelo poder, pela mentira, pelo ouro. No fim das contas, era puta, vivendo a mentira de um domínio que nunca teve. Um dia o vento soprou o manto, de uma forma que jamais sopraria o sangue. A besta então a mordeu como o faria a qualquer outro. Não houve hesitação, não houve piedade. A besta devorou , no final das contas, aquela que deveria ser sua princesa encantada.

O desconhecido

“Eu não te reconheço mais”, eu quis dizer olhando para aqueles olhos de sempre. Como seria possível que as coisas permanecessem exatamente as mesmas para aquele olhar, para aquela pele e aqueles cabelos, mas fossem tão diferentes dali para dentro, nas regiões mais profundas, onde criamos nossos anjos e demônios engaiolados? Ele estava diferente e tudo era fruto de um percurso de mudanças que eu me neguei a enxergar. Demorei demais para saber que ali não estava mais o meu filho, mas um outro que eu não conhecia. Teria aquele novo indivíduo sorrido das minhas piadas imbecis quando a barba ainda não lhe tinha crescido? Pergunto-me se viveria comigo tudo que vivi com o antigo morador de seu corpo. Você tem ainda os mesmos gostos?

“Deixe-me entrar”, sussurraram meus olhos, clamando por alguma brecha na muralha. Mas era inútil. Estava ali uma barreira intransponível, sem falhas, sem fraquezas. “Eu te dei toda minha força”, pensei, como também lhe suguei toda a fraqueza. Sim, aquela fraqueza que vi nos primeiros anos, quando as perninhas nem se sustentavam ou quando os braços não aguentavam quase nada. Fui um bom pai ou me entreguei demais? Eu sei que lhe dei tudo que eu era, e hoje o faria de novo, mas existe nisso um martírio de vida desperdiçada ou de não recompensa… Sinto-me mal por pensar que, talvez, o melhor fosse deixa-lo com o que já me tomou e seguir sem ele.

Não consigo.

“Pelo menos valorize quem eu sou, mesmo sem amor nenhum”, eu quis pedir. Não me importava que não me tivesse amor, tudo que eu queria era que me desse um olhar de respeito, uma reverência de agradecimento por tudo que já fiz. Isso é ser egoísta demais? Eu não me sinto à vontade para pedir amor. Amor não se pede. Posso apenas pedir reconhecimento ou um punhado de honraria que me vem à mente na forma de um abraço, mesmo que tímido, de um beijo, mesmo que forçado. Posso também me humilhar…  Bastaria um toque, do tipo tapinha nas costas. “Toque-me de alguma forma. Perceba que estou ainda aqui”. Falta pouco, meu filho, e logo vou embora.

“Desculpe pelo que te fiz”, isso eu falei, mas soou como ironia. Não era. Por mais que eu não saiba onde se esconderam meus pecados, pedi-lhe perdão de toda forma. Houve algo muito errado no meio desse caminho, uma pedra no sapato que eu coloquei para você, mas, entenda, eu não percebi. Desculpe pelo que te fere, mesmo que não me cause sequer incômodo. Em algum momento eu fui mais eu, num ato falho de quem é humano.

“O que eu posso fazer pra te ter de volta?”, comecei falando, embora não tenha terminado a frase. Ela ecoou na minha cabeça, depois que a fala travou nas primeiras sílabas. “Faça-me sofrer sua dor, me entregue tudo sem parcelas!”, continuei pensando, “Despeje em mim o que for preciso para estar, enfim, vazio”. Esteja vazio. Apague as dores e as memórias, boas ou ruins. Sopre a poeira dos rancores antigos. Deixe-se ser nada por um momento e eu farei tudo de novo, porei ordem na casa – na nossa casa.

Apresse-se em ser você, filho, porque eu também não me conheço mais.