Fascínio pelas ruínas

Ele tem a alma estilhaçada. São cacos de um eu que flutuam na superfície de seu nome, como um quebra-cabeça que não se junta mais, porque existem, entre uma peça e outra, pequenos fragmentos que voaram para longe. Um jovem implodido, sufocado pela poeira que lhe desceu a garganta.

Seus dias passam como numa guerra de um homem só. Ele contra o mundo, contra todos, em um caos que precede a ordem que nunca chega. Há um fascínio de minha parte, quando enxergo sua luta silenciosa e os demônios revolvendo-se sob a sua pele. Tem uma beleza nessa catástrofe de gente, nessas ruínas ambulantes, e sinto-me culpado por admirá-la.

Ele tem traços suaves, um rosto bonito que não deseja sê-lo. Prefere a olheira e a sujeira, como se a beleza lhe fosse um fardo insuportável. Ele quer a violência em todas as suas nuances. Agride, cospe, bate, grita! Ele é a revolta encarnada e desconhece o que chamamos de afeto. Se tocado, ele treme. Afasta-se como que por um choque. Não quer apego, nem carícias, muito menos palavras bonitas. O que ele quer?

Penso que quer morrer de uma vez, mas não tem coragem de fazê-lo. Talvez ele queira alguém que simplesmente insista, como aqueles que quebraram a marretadas o muro de 1989. Guerra fria. Ele contra quem? Alguém. Deus. Ele mesmo. Está o tempo todo falando de morte e pancada. Quando escolhe alguém para passar a noite, transa como quem pune. Satisfaz seu gozo e sai do quarto.

As drogas lhe são parceiras nas madrugadas. O cigarro, a maconha, a coca, o doce, a bala. A bala… Anseia por bala. No peito do outro, ou no seu. Ele dança com a morte como quem propõe em noivado a puta mais conhecida da cidade. Acredita nela como fonte de vida, sabendo que ela apenas é capaz de tirá-la. Quão fascinante ele é… E eu lhe ofereço uma espécie de devoção.

Estou venerando Shiva. Ele é Shiva renascida, posso supor. Tanta beleza e juventude seladas num frasco de carne e ossos que flutua nas águas de um esgoto fétido. Começo a achar que o encanto que ele me causa tem alguma raiz aqui mesmo em mim. Ele é um eu que sufoquei com minhas próprias mãos. Um eu que me chamou ao caos, nos anos em que também fui jovem e belo.

Ele é meus demônios em outra curva da minha vida. Lá na estrada que nunca visitei, nas calçadas que nunca dobrei. Aceno de longe. Ele me vê e teme qualquer aproximação. Talvez eu seja os demônios que ele mesmo já matou um dia. A curva da estrada que ele nunca dobrará. A calçada em que ele nunca porá os pés. Somos espelhos do que poderíamos ter sido. Siameses cortados à faca crua, num corte duro e sangrento que nos jogou para lados opostos.

Os pássaros sobre o muro

Quando me dei conta, estava tomando meu café da manhã todos os dias de frente para o muro. Uma parede velha, de tijolos aparentes e alguns buracos. Nada de especial. Separava a calçada de um terreno baldio cheio de tralhas e deixava a rua mais apresentável, sem falar no favor que fazia ao não deixar aquele lugar aberto a todo tipo de ocupação como uma boca de fumo ou desova de cadáveres. O muro me fazia sentir segurança.

Percebi que eu estava sentando, todas as manhãs, na varandinha de minha casa, enquanto fazia o desjejum. Lá tenho uma pequena mesa de madeira para apoiar meus chás e cafés e o cheiro da rua que chega manso às seis da manhã é sempre um convite para um bom dia que segue. Meu lugar, minha mesa, meu café… E o muro.

O que havia de tão especial naquela parede eu não sei. De certa maneira, encarar o muro me despertava para pensar na vida e filosofar aqui com minha própria alma, porque é assim que acontece na minha cabeça: retiro dramas existenciais da caixinha de palitos de dentes e o sentido da vida se torna claro quando vejo insetos carregando comida velha. Logo eu, acostumado a saber que devaneios me afloraram as imagens mais banais, estava ali, parado, em choque por perceber que estava namorando um muro velho e sem qualquer motivo.

Foi então que eles chegaram. No primeiro dia não me pareceram querer ficar, mas foram ficando, ficando e ficaram. Um pássaro com um mal gosto de cor que só vendo. Meio castanho, meio cinza. Bico pequeno e canto irritante. Dois, três, quatro. Fizeram um ninho em alguns poucos dias e eu os observei chegar a cada vôo rápido, trazendo consigo algum tipo de graveto sob a mira dos olhos miúdos. Eram uma família, nos moldes que eles deveriam entender, e para eles eu talvez fosse Deus, olhando tudo acontecer e permitindo o movimento.

O muro tinha, então, um propósito. Não se tratava mais de separar o terreno baldio, mas de amparar o ninho de pássaros feiosos. Era um muro feio também, não podia reclamar. Só daí veio a beleza, quando os dois elementos horrendos se juntaram em uma composição perfeita de cores e traços.

Tomei um gole de café. Sorri. Ora, ora… O muro estava esperando os pássaros para ser completo, e eu esperando sua plenitude para entendê-lo. Fomos vazios um do outro nesse meio tempo, esperando algum sentido ou beleza, alguma filosofia ou lição. Entretanto, agora vejo que o muro cairá em breve. Tem aqui e acolá algumas rachaduras, como também algumas pedras quase soltas, e um temporal está se espreguiçando no céu logo acima. Em pouco tempo terá ido o muro e os pássaros na correnteza que brotará do asfalto, mas até lá, deixo a pintura intacta e contemplo. Eu, como Deus que sou, reservo-me a apreciar o que se fez belo, pelo tempo que durar.

Vagante

Morreu no trânsito, em 1984. O choque foi tão grande que ele voou pelo vidro estilhaçado e borrou de vermelho o asfalto fervilhante do meio-dia. O sangue secou em poucos minutos, deixando sobre a rua uma mancha escura que ainda insistia em anunciar o acidente pelos dois dias seguintes. A culpa não foi dele, pelo que fora constatado na perícia, mas isso não importava mais. Perícias e culpas são confortos banais para quem fica do lado de cá, querendo resposta para o famoso “por quê?”.

Curioso é que não se deu conta de que havia morrido. Pelo menos não nos primeiros meses. Continuou indo trabalhar, correndo no calçadão às seis da manhã, dormindo no seu lado da cama. A esposa estava taciturna, era verdade, e já não colocava seu prato na mesa, mas ela tinha esses períodos de antipatia cuja lógica ele já havia desistido de encontrar no primeiro ano de casamento. A grande revelação veio em um happy hour de sexta-feira. Estava no bar de Corisco, o velho flamenguista da rua da ladeira que cobrava uma fortuna pela toscana e uma miséria pelo chopp. Pai dos bêbados. Os amigos estavam comentando algo sobre a notícia dada com requintes de crueldade pelo garçom. “Sague por todo lado”, dizia o homem de meia-idade, colocando os copos cheios sobre a mesa, “tão falando em trinta e três facadas”. Ele ia se pronunciar. Abriu a boca para dizer que era um absurdo o grau de violência daquela cidade, mas foi interrompido pelo colega que já havia dado um gole duradouro na sua cerveja. “Ficou pior que o Célio?”.

A boca ficou aberta no ar. O som não saiu, porque as ideias decidiram se reorganizar antes das palavras virem.

“Pior que o Célio”, confirmou o garçom, “mas com tanto sangue quanto”. Todos beberam em silêncio. “Trinta e três facadas é bastante coisa”, alguém murmurou pondo fim à colocação infeliz. Corisco gritou alguma coisa sobre o flamengo, lá da cozinha. Algumas pessoas riram e brindaram, outras soltaram uma vaia tímida e afrontosa. Futebol virou o assunto da mesa.

Célio se levantou da mesa percebendo que não tinha mesmo os pés. Estava flutuando há meses e não se dera conta. Foi para casa lembrando de alguns detalhes recentes, juntando as peças. Agora fazia sentido aquela ocasião e aquela outra. Não teve medo, ou raiva. Foi como se tivesse lido o final ruim de um livro bom. Talvez a melhor sensação tenha sido a de conclusão. Sentiu, pela primeira vez na vida, aquele sentimento de que havia um ponto final em tudo, mas ao mesmo tempo tudo continuava. Deu-se conta, já em frente ao portão da sua casa, que não fazia sentido voltar pra lá. Onde estava a luz, o túnel, os anjinhos e os guias espirituais que o levariam para uma terra de jardins e banquetes? Pior que isso, onde estavam as outras almas? Numa cidade dessas, com tanta morte, não tem mais ninguém vagando por aí querendo um papo cabeça sobre a eternidade? Ninguém.

Todos vivos. Todos falantes. Todos indo e vindo. Sofriam, tanto quanto sorriam. Sentiam de tudo um pouco, para o bem e para o mal. Ele estava só. Morto e invisível, com apenas um idioma que sequer sabia se outros poderiam entender. Nem uma alma morta por perto.

Demorou meses para perceber que estava assim. Vagando sozinho e transparente, falando com ninguém enquanto falava com todo mundo. Morreu voando pelo vidro do carro e pintou de vermelho o asfalto, mas não se deu conta de que para todos, ali mesmo, na rua, já estava morto. Estava, então, vivo para toda a eternidade, catando a passagem para um recomeço.

No meio disso tudo e de tantas perguntas que poderia ter consigo, carregou apenas uma: “quando foi que eu morri?”. As possibilidades foram até a infância. Por um segundo considerou já ter nascido morto. Quando?

Continuou vagando e falando sozinho. Deixou a casa para trás.

Transcendental

Deixem que eu abra as portas da minha mente e contemple o que há além. Não nasci para caber em mim, para ver somente o que meus olhos viram, para sentir o que meu corpo já sentiu. Transcendente por natureza, sei que existe um espaço maior a ser explorado e que não diz respeito ao mundo que me rodeia. Tenho ânsia de ir para lá. Rápido. Hoje. Agora.

Permitam que minha mente se abra para todas as possibilidades e que minha pele aflore outras peles, porque não quero uma vida que cabe num corpo só. Quero mergulhar no que é ser outros, vestindo-me de vários eus que nem eu conheço. Deixem que eu seja múltiplo e mude sempre, sempre novo, sempre jovem, na alvorada do que ninguém viu, desbravando o que todos temem conhecer. Sou pioneiro de qualquer coisa, por sede constante de ir aonde ninguém foi.

Os sons que ouço podem ser de instrumentos que não existem, porque cítaras, flautas ou atabaques não traduzem o ritmo dos meus rituais mais íntimos. Estou sempre ao redor da fogueira, regando-me dos contos tribais, dos medos primitivos, bebendo na fonte do que é ser humano. Estou, a todo tempo, fazendo lutar o velho sábio e o xamã desnudo.

Os toques que sinto me atravessam a pele, perfuram a carne. Transpassam os ossos como uma brisa gelada que intenta carregar-me para longe, mas só conseguem fazer minha alma ulular na vontade de ir embora. Oscilo em mim, como em marolas de alma na maré baixa que sou.

Deixem que esse meu ser dúbio, metade razão, metade imaginário, seja sempre dois! Ou três, ou vários. Não os quero juntos, colados, como se fossem predestinados a ser uma coisa só. Quero-me partido, entre a lógica e a magia, contando os contos de ciborgues e super-heróis enquanto anoto Durkheim e Deleuze. Permitam-me ser meio louco e infantil, até que a mente se decida ser apenas isso, no ocaso da vida.

Há dor e sofrimento no que conhecemos demais. Há angústia na ciência, porque regras são limites. Deixem que eu seja, em parte, livre, nesse paradoxo que nos resume enquanto espécie. Então o serei em todos os corpos não criados, nos tempos que não vivi, nos multiversos que desconheço e com as habilidades que não possuo. Expandido para além de mim, além das portas que deixei abertas para aqueles que virão depois.

Atlas caído

Perdão pela falha, mas eu não suporto carregar o mundo. Tenho a idade me enervando as pernas, o cansaço de quem já andou demais. Curvo-me sem perceber. Sou arco sem corda, cuja flecha já foi há muito disparada, cuja aljava escondeu-se bem longe, em outro tempo, outro lugar.

Minha vontade é de te carregar nas costas, como a um corpo que já morreu e merece seu descanso na cova distante. Minha vontade é te ter pele a pele comigo, mas infelizmente não sou capaz. Um mundo pesado, eu diria, sobre as costas de quem não aguenta erguer-se corretamente. Olhe você para mim agora e veja que estou caindo. A cada passo, a cada fôlego, já encaro o chão com um olhar de quem o deseja.

Guarde contigo a longa caminhada. Nossa jornada até aqui. Foram séculos infindos de passos que dei no vazio, sem um rumo certo quando achei que iríamos a algum lugar. Foram os anos da juventude, quando as pernas eram fortes e as costas suportavam você. Você que é meu mundo, mas não me deixa entrar.

Tudo isso, na verdade, é tão curioso quanto desolador. Você, meu mundo, tem suas praias e planícies, suas relvas e florestas, montanhas. Você tem aí dentro meus lugares favoritos, a ânsia dos meus últimos dias regada a toda a paz que preciso. Logo eu, que te trouxe nas costas até aqui, estou parado à sua porta. Um inquilino proibido por ser grande demais. Sim, eu sou maior que você e talvez esta seja minha bênção tanto quanto minha maldição. Sou amaldiçoado por não disfrutar de você por inteiro, por não te ver com toda a majestade e imponência que você deve ter; mas sou também abençoado por saber que posso te deixar aqui como quem larga um fardo e segue em frente, errático pela estrada que já me guiava desde antes de você chegar.

De tanto carregar o mundo nas costas, deixei de ser eu para ser o seu pilar sustentador. Quem sou eu agora, sem você? Um pilar que nada sustenta, uma peça pela metade? Talvez um velho corcunda e cansado, cheio de memórias de uma caminhada heroica e vazia. Talvez um deus vagante, com as costas dilaceradas, em pleno processo de recriação.

Sou sozinho, sem mundo, sem tudo, na busca infinita do que carregar comigo.

 

 

Imagem: Atlante (1646), por Giovanni Francesco Barbieri detto (Guercino).

O nariz vermelho

O picadeiro estava iluminado com uma luz quase comum, sem foco. Neste pequeno circo, a magia estava mais na nossa mente que nas parafernálias de palco. O cheiro de pipoca dançou nas nossas narinas, que também percebeu a terra do chão, a ferrugem dos bancos velhos, a noite. Antes da grande apresentação, um farfalhar da lona velha e rasgada: era a lua de espreita pela fenda maior. Curiosos, ela e nós, seguimos esperando.

A música alegre começou. Alguém virou o poste de luz de forma desajeitada, quase derrubando-o. As crianças riram com aquela ânsia de riso por qualquer razão. Pediam por ele. O palhaço.

Sapatos largos e caricatos, fazendo curva. Suspensórios, camisa de botão com desenhos infantis. Peruca, maquiagem, luvas, gravata. Ele era todo circo e o circo era ele. Ninguém percebeu que esquecera o nariz vermelho. Crianças riram novamente e ele não fez nenhum esforço para isso. Um movimento cartoonesco e as gargalhadas vinham como uma lufada de vento sacudindo a lona. Então ele parou.

Olhou para nós e deixou apagar seu riso e o brilho no olhar. A música cessou. O silêncio das crianças incomodava mais que a figura colorida inerte sob a luz âmbar. Tirou do bolso uma toalha e limpou o rosto devagar, embora com certa rispidez. Jogou fora a peruca. Chutou os sapatos. O que estava acontecendo ali? Ninguém o deteve. Seria parte do show? Ninguém também se levantou da plateia.

Desceu os suspensórios. Abriu a camisa de botão. Agora pude ver que os desenhos infantis eram nuvens e carneirinhos. Desceu as calças. Não tinha graça. Não houve quem quisesse rir do palhaço nu. Estava lá de pé, tão homem quanto nós que o víamos sem reação. Tinha braços e pernas com pelos iguais a mim. Éramos tão iguais naquele momento…

Alguém sussurrou que o viu chorando. Outro, ao fundo, perguntou se ele estava louco. A verdade é que o palhaço era, ali, um homem nu sob o holofote. Seria palhaço ainda? A lua saiu da sua fenda no teto e a lona farfalhou rápida em resposta. Ele continuava parado, tão natural com sua nudez quanto um bebê recém-nascido.

A pureza do palhaço não era a nossa. Ele podia estar bem naquela situação, mas nós estávamos cada vez mais constrangidos, apesar de o choque nos deixar presos nos bancos velhos enferrujados. Alguém tossiu. Sempre tossem.

“O nariz!”, murmuraram nos bastidores, “o nariz!!”. Então jogaram-lhe a bolinha vermelha. O palhaço pegou-a no ar e esticou o fino elástico por trás da cabeça. Agora sim, tinha a cara de palhaço! O riso veio tímido, a começar pelas crianças, claro. Depois os adolescentes. Depois nós. Rimos todos. As peripécias e malabares continuaram normalmente, ao som de nossas gargalhadas. O curioso, no entanto, é que lá no palco ele também ria aos montes olhando para nós. O palhaço nu achou em nós alguma graça também e, dessa forma, estávamos nos entretendo mutuamente. Pena que ele tinha o nariz vermelho, nós não.

 

Imagem: Palhaços, 1957 – Cândido Portinari.

 

Asséptico

Eu vi que levaram o moribundo para o hospital hoje cedo. Lá as paredes são brancas e os tecidos têm tons pastéis. Tudo é limpo. Lá ele pode ser dopado e dormir o tempo todo, sem sofrer diante de nós, sem nos fazer ouvir sua dor.

Vi que limparam a cracolândia. Tiraram o lixo da rua, para que eu não visse mais aquela pobreza e degradação. Aquele amontoado de preto, cinza e marrom, com pernas e braços, em mantas rasgadas. A rua agora tem canteiros com mudinhas promissoras e lixeiras laranjas, que contrastam com o asfalto.

Grafitaram os muros da favela, pra deixar mais atrativo vendo de fora. A arte liberta, afinal. Passaram também um muro gigantesco na frente da comunidade, separando-a da pista. Ele ainda é cinza, mas a prefeitura já anunciou que em breve terá as cores do partido e um espaço 3mx2m para exposições periódicas de obras em lambe-lambe. A primeira é de um nova-iorquino, inclusive. Críticas ao capitalismo, o que reflete bem a necessidade de expressão dos pobres moradores ali por trás.

Vi também que não há violência, nem nu, nem sexo na programação da TV. Agora todos falam “caramba” e o caralho está na boca suja do cinema. Cinema é daquele povo rico metido a alternativo, TV é pra gente como a gente. De bem. Direita.

Eu vi que o mundo já foi um lugar ruim, mas hoje tudo se resolve aos trancos e barrancos. Demora, mas estamos indo bem. Onde já se viu, por exemplo, velar um parente na sala de casa? Quanto mau agouro e falta de higiene… E não precisa ir muito longe! Foi há algumas décadas atrás. Minha vó chegava a abrir a porta de casa e chamar os pedintes para comer à mesa. Depois ficava lá a cadeira manchada.

O mundo já foi mais sujo. Agora, ainda bem, tudo é mais limpo. Hoje meu mundo não vê morte e desmaia com sangue, conhece a miséria pela TV e não a encara na calçada. Hoje eu ajudo os Médicos sem Fronteira na Zâmbia por apenas um real ao dia, e chamo a polícia se a fronteira bate na minha porta pedindo as sobras do almoço. Hoje, o mundo é endireitado pro caminho certo, graças a Deus.