Melodia de saudade

Todos os dias juntos são conjunto de lembranças de horas boas e dias maus, a soma de passados que, entrelaçados, cantarolam uma melodia de saudade. É a falta de um segundo de riso, da pessoa que se ama e que não se tem. É o choque de olhares que parou o tempo e fragmentou um momento na eternidade da mente. É o cheiro da bola de plástico, da terra e do café, cheiro de chuva que sobe suave às narinas da lembrança. Saudade é trazer na alma as chagas da felicidade, que vem e vai como a maré, mas deixa no espírito a cicatriz boa de um dia ter sido.

Eu canto uma melodia de saudade, como o canta o tenor em drama no palco da ópera, chorando a canção de um desespero fingido, consciente de sua falsidade. Canto a melodia como um canto de sereia, que tenta seduzir o passado a voltar até mim, embora não consiga do passado o comando, nem muito menos da melodia a mágica. Sou na verdade um velho de músicas tristes que canta só para seus próprios ouvidos debilitados.

Sinto falta da falta que me fazia a ausência de quem já dorme, quando na época eu sabia de seu retorno certo. Hoje a falta é latente e a certeza é de que retorno não haverá. Sinto falta da energia de outrora, recarregada com o calor do sol no rosto, da brisa mais limpa dos ares da infância e do carinho mais amoroso dos beijos e abraços. A vida, no fim das contas, é um percurso de marcas que se agrupam em um grande redemoinho chamado por tantos de “experiência”. Minhas experiências são muitas, são intensas. São pedaços de um eu que nasceu completo, mas ao longo do caminho foi deixando seus pedaços. Hoje sou fragmento lapidado pelos anos, sou evoluído e elevado pela estrada que corri sem perceber, sou a  melodia de saudade cantarolada pelo caminho.

Dos dias maus também guardo algo. De cada lágrima e dor sentida fica ainda aqui a lembrança do corte, a dor da faca penetrante. Sorte a minha que da dor guardamos apenas a memória e não se pode vivê-la de novo, ao contrário da saudade de coisas boas, quando basta fechar os olhos e sentir na alma mais uma vez o prazer de viver o passado.

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