O que guardam os cântaros

Sobre folhas secas de um jardim senil residem cântaros de barro enegrecido pelo tempo. Chega lá todas as manhãs um eu menino brincando de pega, sempre rindo dos vasos avantajados, embora de tão altos escondam algo que eu não consigo ver. O que guardam os cântaros do meu jardim? O que é o meu tesouro, escondido de mim por uma camada de barro-tempo que jamais me permitirá enxergar além?

Nas noites de lua sento ao lado dos cântaros e tudo parece mais quieto. Tento ouví-los. Nada pronunciam nem sussuram, apenas se guardam em um segredo sepulcral e respeitoso que me exclui. Olho as abas quase argoladas acima da minha cabeça. Um dia verei o que guardam os cântaros, quando eu crescer.

Quando eu crescer serei mais alto que os limites que agora me barram, serei maior que os vasos gigantes, pois gigante serei eu. E as folhas secas no chão deixarão de ser sonoro divertimento e assumirão forma de árvore morta, de tempo passado, de velhice. Por hora sou pequeno e os meus cântaros são segredo, minhas folhas diversão.

E vindo a chuva, nos meus dias de meninice, deixo molhar meu rosto e transbordar meus cântaros. Transbordam águas limpas, embora nunca deixem cair o que tanto escondem de mim. Continua lá em silêncio, mas um dia verei. Quando eu crescer, verei.

 

A José Dayvison.

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