Cacos do Cristal Quebrado

Sobre o chão que meus pés suportam deitam cacos de cristal quebrado. E sobre eles ando e sangro. E para eles me perfuro a carne. Cristal belo de outrora, que se quebrou como vidro vagabundo. Cristal belo que quero em mim, rasgando minha pele e músculos, envolto em minhas chagas. Quero-o em mim guardado, onde ninguém o possa tocar, embora com tanta dor me rasgue. Por tê-lo cá dentro não me movo, não respiro, pois tudo dói. Por tê-lo cá dentro tenho-o completo, embora estilhaçado.

Quero os cacos do cristal quebrado nadando em minhas veias, furando-me artérias e inxando-me as córneas, mas meu corpo teima em expulsá-lo, cuspindo-o de mim a cada poro, em pó cintilante.

Hoje percebo, entretanto, que de tanto pisá-los, de tanto empurrá-los pele adentro, virei eu um conjunto de cacos. Sou membros desnudos, desmembrados, sou fragmentos de mim dentro do cristal inteiro. Sou eu o caco. Sempre fui. Sou eu a falha e o fracasso, cacos de homem quebrado, que se quebrou vagabundo.

Entre partes e pedaços, luto para unir peças de mim. Somos um eu e  o cristal, fragmentos colados de um ser que não existe. Que nunca existiu. Que nunca existirá.

Agora serve-me o cristal aos olhos, como aparador de lágrimas cansadas. E tão logo seja cheio, será brindado por outro ser inteiro, será bebido por outra boca risonha.

Saúde.

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