Pérolas em ostras de vidro

Tal como ondas que cosem o mar, em marolas dançantes no infinito curvo, assim flutuam ostras caladas e seladas pelas marés que trago em meu oceano. Deixam-se revolver na areia submersa, que aos meus olhos ainda é poeira, mas não se abrem nem um segundo. Estão fingindo de mortas, em silêncio sepulcral de quem já se abriu demais. Existem ostras, no entanto, que são de vidro, cá dentro do mar-eu, e suas pérolas são lustrosas, de brilho evanescente. As ostras de vidro emanam uma essência sua, mas como todas as outras, fecharam-se.

Embora sejam todas ostras e sejam todas pérolas, estas construídas a partir de um grão intruso, estão todas seladas à revelia daqueles que pairam na face das águas. São todas joias envolvendo um diminuto agressor, protegidas por uma casca qualquer. A ostra de vidro, no entanto, permite-me ver a pérola, embora não possa tocá-la. Seria tão fácil quebrá-la… Ostras comuns são em demasia rígidas e não me convencem do esforço, mas as translúcidas… Poderia quebrá-las.

Um dia o farei, embora não saiba de que me serviriam pérolas, e certamente as atirarei de volta às águas. Valerá tocá-las um instante, mesmo sabendo que o lugar delas, como sempre fora, é no fundo do mar.

 

 

 

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