Bicho ferido

Estava cá num recanto do quarto, sobre a úmida parte da parede antiga, um bicho ferido. Tinha olhos sempre tristes e cabeça baixa, acuado por qualquer cafuné impetuoso. Orelhas deprimidas. Um dia soube confiar em mãos alheias, mas hoje já não sabe mais. Foi ferido tantas vezes que não devaneia mais sobre boas intenções. Hoje é bicho calado. É  massacrado por um sentimento novo, misto confuso de decepções, traições e injustiças.

Quando deixa seu cantinho anda lento, desgostoso da caminhada. Os meninos só atiram pedras, querendo vê-lo correr, mas ele não é de corridas. É de rastejos. Acho que anda ao ritmo de seu coração, quase parando, ou assim quer ele que seja. É triste de ver, de respirar, de ouvir. Ele sabe que  é um fardo, mas lá continua tentando parecer pluma. Discreto. Bicho ferido, mas também amedrontado. Medo de ser sempre o que sempre foi, de não haver mais nada novo para as chagas, nada novo contra a dor. E pode-se ler em seus olhos, basta olhar com mais afinco, que grita agoniado como no momento da primeira pancada.

Não come como antes, pois também da comida perdeu seus desejos. Come apenas o que encontra, porque não quer lutar por mais. Ele se acha merecedor dos restos, que foi justo ter apanhado. Perdeu-se dentro de um passado imposto, sem lutar ou reclamar. Apenas caiu em um fosso negro e sem fundo e lá permanece caindo até hoje.

Bicho ferido e sem cura, traduzindo, bicho morto.

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