O besouro e as horas

Ela caminhava displicente pela calçada, com seus pezinhos miúdos e uma saia rosa teimosa que sempre insistia em querer se mexer para um lado e para o outro. A camisa branca tinha uma mancha amarelada perto da gola e sabe Deus de onde viera. Estava apenas lá como um registro de alguma colherada descuidada em um doce qualquer. Tinha belas mãos, também pequenas, que abriam a carcaça seca de um besouro morto há semanas. Os olhos intrigados tentavam ver o bicho por dentro, enquanto a língua surgia também curiosa entre os lábios semiabertos. Que estranho ter aquilo entre os dedos… Um bicho que parecia folha seca, que um dia fora algo vivo e agora era casca oca.

Quase tropeçou no meio-fio, o que fez seus olhos atentarem para a pista. Uma brasília vermelha passou gritando e logo mais um outro carro desses antigos. Seu pai gostaria deles, mas ela via apenas velharia jogando fumaça na atmosfera. Deu-se conta, outro dia, que queria ser bióloga. Lutar pelos bichos e matas, preservar a natureza. Tudo que era puro lhe atraia, pois era ela a pureza nascida de mulher, personificada em carne, osso e cachos dourados.

Atravessando a rua, ela parou subitamente. Lá estava ele, descendo a ladeira com a calça jeans surrada e o cinto pendurado. Ela encarou seus sapatos e já não pôde erguer o olhar. Atemorizou-se por um segundo, mas controlou a ansiedade. Estava imóvel e inexplicavelmente muda. Sentiu que se aproximava o amor de sua vida, mas o deixou passar. Não tinha como convencê-lo de quem ele era, não havia forma de fazê-lo sorrir um riso particular, gratuito. Foi suficiente sentir seu cheiro em névoa roçar-lhe as narinas, tocar-lhe a boca de forma quase física. De alguma forma ele passou e fê-la sentir-se nua, mas a cada rápida inspiração, sua alma voltava a vestir-se das peças roubadas. Só quando ele dobrou a esquina, pôde voltar a caminhar normalmente, deixando o sorriso em seu rosto compensar seu choque vergonhoso. Era apenas um cheiro, mas foi o suficiente para construir anos, filhos e vidas. Estava tudo emoldurado em seus pensamentos. Ela seguiu na direção oposta e subiu a ladeira íngreme que se espreguiçava depois da pista. Poucos subiam aquela montanha e, aos poucos, via-se sobre todos, pairando quase anjo e resplandecendo quase sol. Se fosse tão branca quanto seu tio  afirmava, deveria ser naquele momento uma estrela de saia rosa reluzindo para todo o bairro.

Um vento mais forte quase mostrou suas pernas, mas conteve o tecido a troco do besouro. Voou de sua mão como se tivesse ganhado vida novamente. Estava pairando pelo ar e, com um pouco de imaginação, podia ver suas pequenas asas abrirem novamente. Ela seguiu viagem, mas o besouro parou no chão e de pronto foi esmagado. Aquele homem pisou de propósito, mas ela não viu.

Seguiu sozinha, cantarolando baixinho. Ele se aproximava devagar e sério, com uma respiração forte. A ladeira cansava bastante. Havia no homem um cheiro particular e, em poucos segundos ele o antecedeu, anunciando sua presença. Cheiro de suor ou coisa parecida, desagradável e enjoativo, do tipo que faz a respiração parar em um primeiro momento. Ela sentiu a presença dele, seu bufar cada vez mais próximo, seu cheiro perturbador. Por fim ouviu seus passos a poucos metros dos dela. Ousou olhar para trás.

– Pois não. – Disse gentil ao sentir que o homem vinha ao seu encontro.

– Olá. – Foi o que disse. Uma única palavra que soou inocente, mas se traduziu imunda quando dita daquela forma, com aquele olhar. – Você tem horas?

Afinal quem tem horas? Se ela tivesse horas as teria guardado em um pote lacrado e translúcido, talvez de algum vidro colorido, embora certamente decorado com bichinhos e colagens de adesivos de revista. Se tivesse horas preferiria não dá-las a ninguém, mas tomá-las para si como fonte eterna de juventude e pureza, como água de poço no deserto ou luz em mina profunda. Se tivesse horas escolheria reprisá-las todas, vivendo a vida até aquele momento e sempre de volta ao começo. Imaginou o besouro-casca, se tivera tido horas, ou dias, ou meses. Seu tempo morto já superara seu tempo vivo? Era triste imaginar que isso era possível. Que tudo isso era possível… Ter mais horas morto que vivo. Ter mais horas de nada, mais horas de fim.

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