Transcrito

Todos os dias o menino corria até a esquina e se escondia atrás do poste às nove da manhã. Os olhos atentos estavam sempre descobrindo o mesmo, revelando o conhecido, perscrutando algum detalhe a mais daquilo que já sabia de cor.  Sorria por alguns minutos e voltava para casa, onde seu caderninho de anotações era rabiscado com alguns símbolos que ele insistia em chamar de letras. Lia-se dali muito pouco, talvez uma palavra ou duas em uma linha desgovernada que subia rápida e caía devagar, oscilando até o fim da página, onde letras se espremiam para encaixar a frase completa. Talvez ele tenha criado alguns neologismos, de fato, mas nunca precisou explicá-los. Eram sinônimo de uma época e não de uma coisa. Precisavam somente existir.

Na adolescência largou as garatujas e apresentou-se formalmente à poesia, apertando-lhe a mão em tom solene. Tentou fechar negócio com elas, pois queria falar de amor. Lutou com todas as forças, tentou convencê-las de que era importante, no entanto elas relutavam. Nunca conseguiu extrair dos versos uma essência mítica que jurara existir e deu-se conta que nenhuma palavra por ele escrita poderia manusear o amor. Fez poemas sobre ódio, raiva, sexo e todos eram tão vazios que logo desistiu também. Queria escrever um texto qualquer que capturasse aquilo que via quando era criança, mas nem poesias nem poemas eram capazes. Começou a ter calafrios só de pensar que guardaria para si tudo aquilo e que ninguém jamais poderia compartilhar tamanha beleza. De tanto brincar com poesias, fartou-se de buscar o belo. Na vida adulta, foi para a agenda de compromissos.

Era homem feito, rabiscando uma frase ou outra no meio dos horários já fechados, das datas de aniversário e telefones anotados às pressas na vertical, cruzando diversas linhas sem qualquer compromisso com a ordem. Estaria ele voltando a ser criança e fazendo das linhas um campo invisível diante de seu desejo de liberdade? Talvez. Acontece que de vez em quando lembrava-se da imagem da infância… Anotava e anotava e nada conseguia reproduzir o sentimento. Noites a fio e nenhuma palavra ou junção delas conseguia botar para fora o que os olhos tão facilmente colocaram para dentro. Deveria haver algum modo.

Escreveu então no dia 25: “A inocência se desfez ao longo do caminho e hoje sou apenas resquício de criança, espaço vazio do homem completo que fui”. Pensou nas palavras, pensou no que via atrás daquele poste. Não era uma descrição, mas com certeza, a tradução perfeita.

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