Prólogo

Tudo o que se quer quando o deserto escurece não é água, mas fogo. A terra que antes queimava e o céu outrora azul incólume agora eram pó gélido e manta negra aterradora. Em noites de lua podia-se enxergar ao longe uma linha evanescente de areia que ululava com o vento, rodopiando em colunas fantasmagóricas tornando o horizonte uma dança de vultos e grãos onde coisas nefastas facilmente se ocultariam. Andar à noite no deserto era como tatear um defunto sozinho num necrotério sem portas, cuja luz de candeeiro prometia seu último brilho. No meio daquele nada frio, os pés de Verc afundavam com frequência e já era doloroso erguê-los acima da superfície movediça. Caiu então e fechou os olhos. Tomou aquilo não por morte ou derrota, apenas cansaço. Inalou pouco. Sentiu o gosto de areia na boca.

– Você consegue. Levante! Grande guerreiro és, acima dos antigos de teu nome. – Gritava-lhe alguém em pensamento. Talvez estivesse ali do lado, na verdade, mas ele não distinguia mais a diferença. – O deserto é vasto, porém maior será a vastidão do mar. Levante!

O corpo já não respondia e o próprio vento parecia trabalhar em seu túmulo. Aos poucos a areia fina estendia seus dedos ossudos sobre as pernas e braços de Verc, que mal se movia. Sentia-se enterrar e, pior, parecia aninhar-se sob a terra, como se gostando do abraço frio recebido.

– Um guerreiro levanta e luta mesmo que o inimigo esteja vencendo. Um guerreiro bebe o próprio sangue, mas tira dele força. – Continuava. Agora conseguia identificar: era a voz de homem mais velho. – Só se perde a guerra quando se perde a perseverança.

Nada daquilo fazia sentido. Verc simplesmente não queria mais tentar. Era desanimador olhar para frente e para trás, para todos os lados, e ver apenas os montes de areia que sempre estiveram ali. Dias e mais dias andando no nada, com morros caminhantes que lhe escoltavam sem trégua. Haveria motivo para continuar tentando? Seu corpo já não aguentava mais. Queria descansar. Não um descanso de noites, embalado pelo simples ato de sonhar, nem muito menos o descanso nos braços da mulher amada, ouvindo o coração frenético depois de uma noite de prazeres. Queria tão somente descansar para sempre, desistir, entregar-se a um mundo novo que trouxesse consigo novas criaturas e novos alentos, novos dramas e conflitos, novas tristezas e lutas. Estava simplesmente cansado de tudo.

– Abra os olhos, guerreiro. Seus olhos podem ver. – garantiu-lhe a voz carregada de sabedoria.

Em um último ato de insistência, Verc despregou as pálpebras. Olhou preguiçoso e quase morto, com vista embaçada. Era estranho, mas o cheiro do deserto não estava mais ali, nem o vento, nem o frio. Sentiu-se renovado de forças e curiosidade, pois enxergou algumas luzes. Luzes que subiam e desciam em canaletas finas e múltiplas, como vasos de sangue que corriam nos corpos humanos, como raízes e seus emaranhados de tentáculos de várias espessuras.

– O que é isso? – Conseguiu falar.

– Este é o lugar onde você sempre esteve. – Falou a voz nítida e próxima, quase ao pé do ouvido. Seria o mesmo homem de sua imaginação? As vozes eram semelhantes.

– Eu estava num deserto.

– Não, Verc. Você era o deserto. – O senhor cheio de rugas e nenhum pelo no rosto surgiu por trás das luzes.  Estava totalmente envolto em tecidos pesados e escuros e sua cabeça lisa e rugosa, cheia de sulcos de tempo, brotava do topo de panos. – O sonho acabou. Seja bem-vindo.

O guerreiro olhou em volta extasiado. Estava em uma floresta densa de árvores transparentes, cujas folhas tinham um brilho etéreo azulado. As seivas corriam por vasos no interior do tronco e podiam ser vistas subindo e descendo, luminosas. A terra pulsava suavemente o mesmo brilho azul, como se estivesse viva. O azul cobria suavemente todo o chão e todas as plantas translúcidas, que mais pareciam tubos de vidro maleável, tomados de uma mágica incompreensível. Aquele lugar tinha vida, mas ao mesmo tempo dava-lhe calafrios.

– Onde estou?

– Em casa. – Ele sorriu criando ainda mais rugas no rosto cansado. – Em casa.

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