Núpcias

Ela tocou os lençóis com os dedos rugosos e mão trêmula de quem já não suporta o peso dos próprios ossos. Sentiu o cheiro do quarto velho e viu a cortina desbotada soluçar à lufada repentina de vento que cortou a janela. Cheiro de madeira velha e perfume antigo, daqueles que se segurava com uma mão e borrifava com outra. Lembrou-se de arrumar-se para quando ele chegasse em casa, nos tempos da juventude. Ansiava pelo bebê que nunca veio, mas não fazia mal. Tê-lo era o suficiente.

Olhou para a cama espaçosa  que outrora recebia o corpo dele esparramado, em sono quase infantil. Gostava de vê-lo dormir homem e acordar menino, de rosto inchado e hálito forte. Gostava de acordar à noite ouvindo os goles d’água que ele tentava dar silencioso no meio da madrugada, embora nunca conseguisse.  Naquela cama bastava esticar os braços e ele estava lá. Às vezes ela simplesmente o tocava na madrugada, sentia-o por perto e voltava a dormir. Nas noites de pesadelo, levantava suada e beijava-lhe a testa, recebendo em troca um murmúrio que no dia seguinte cairia no esquecimento.

Lembrou-se dos prazeres na cama, dos gozos e risos, piadas e deboches. O sexo das palavras, que tão bem se entrelaçavam e se reproduziam, férteis como só elas poderiam ser, era até melhor que o sexo de dois corpos num só ritmo. Falavam do passado e dos problemas, mas ambos tornavam-se banais ao som próximo da respiração do outro. Todas as tragédias eram literatura, todas as dores do parto, todos os problemas matemáticos, todas as carências, passado.

Outro dia lembrou-se da primeira vez e parecia ter sido ontem. O tempo foi riscando o rosto dele em rugas e manchas, mas algo havia lá dentro que o tempo não alcançava. Era este algo pelo qual se apaixonara, foi este algo que amara depois que a paixão extinguiu-se nos quatro primeiros anos de furor. Lá dentro, por trás da pele flácida e sobrancelhas caídas, havia um menino. Dentro dela, também, em algum lugar por trás dos olhos que agora mal enxergavam, havia a mesma virgem ansiosa, cheia de medo e desejo.

Assim como fora na igreja, ela bem sabia que chegaria depois e ele estaria lá na frente, observando-a. Deixou então de tocar a cama, e buscou o velho vestido de noiva. Estava cansada de esperar, e ele também. Queria de novo cobrir-se de outro corpo, acalentar-se no toque de pernas, respirar o abafado de um recanto miúdo nos braços dele. Sim, queria suar o aninhado de seu corpo em outro corpo, mesmo que soubesse, sem sombra de dúvidas, que não buscava pele. O tempo da pele passara. Queria alma.

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