O espelho

Abre os olhos, canto meu, e copia os recantos que guardo comigo. Cópia plástica de riso e movimento, de mesmos traços e idênticas feições. Imagem e reflexo que em uníssono movem dedos e lábios, imitando-se sem querer. Uma só voz e um só corpo, embora dois. Abre os olhos, eu de lá, e poderei ver-te inteiro. E se teus olhos cerrares, deixo-te ser só eu.

No espelho cintila a lâmina que separa, que abriga e que corta. Convém chamá-la prisão? Fala de lá, reflexo meu, di-lo ao titereiro. Conta o que de ti não sei e mostra que tens mais das partes minhas ocultas. Canta de cá, eu copiado, títere da prisão de vidro. Então percebemos, ambos, que não nos escutamos a nós. Cá se grita e cá se ouve. Pergunto-me se de lá grita também meu reflexo e se grita as mesmas coisas. Caçoaria de mim imitando os berros sem largar um som? Deboche. Talvez seja o reflexo uma cópia irônica e cruel, fazendo-se ator e exercendo o mimetismo do pobre comandante solitário. Sozinho…

Cá está um bobo, lá um poeta. Um homem, um menino. Poeta de lancheira chorando o arranhão. Criança que roda os nove círculos de Dante em busca de colo. Erudito de poucos textos escritos, amante que não se permite amar. Quem vem lá? Tantas vezes saio de cena, tantas vezes deixo o espelho, enquanto a imagem ajoelha-se e chora quando ninguém mais vê.  Eu de cá risonho, eu de lá choroso. Somos dois diferentes que mentem ser um. Em verdade, somos muitos.

Somos ávidos pela turva massa do negrume da noite, que a todos nós sela dentro do mesmo espelho. No escuro ainda somos mil, porém cegos que não se percebem. Quebre-o. Já está quebrado há muito. Cá dentro, de fato, somos só estilhaços.

4 comentários

  1. Porreta! Estás te refinando a cada dia que não passa. estás em busca do âmago de um âmago que não existe a não ser como simulação da realidade. Na verdade aí está a real grandeza da arte, a grande simulação do mundo, mostra o que o mundo não pode mostrar, retira as cortinas que esconde o que o mundo esconde. Estás chegando perto não por falta de competência mas porque nós, mortais, limitados mortais só podemos rondar, espreitar em torno mas nunca lá chegar porque lá está o ser em sua essência, em sua intimidade. Avistamo-lo somente porque nele está a natureza do horizonte.

    1. Muito obrigado, mestre! Sempre é um prazer imenso receber um elogio seu. Continuarei me esforçando para tentar, não para conseguir. É de tentativas que se faz arte, afinal, e realmente, nunca conseguiremos. Abraço.

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