Estava escrito

Quando ele nasceu, tascaram-lhe uma etiqueta na testa: “Inteligente”. Estava agora jurado a resolver todos os problemas matemáticos no tempo máximo de duas piscadelas e a saber de cor todas as capitais dos estados brasileiros. Na infância já apontava todas as letras do alfabeto assim que a vista fazia um reconhecimento instintivo, antes mesmo de saber falar. Sempre tentavam enganá-lo mostrando o W e o M, mas ele tinha o tino de saber diferenciar que um não era o outro de cabeça para baixo. Usava óculos, lógico. De tanto ler os livrinhos paradidáticos teve problemas na vista. Odiava as figuras idiotas que ocupavam o lugar dos textos. Foi extremamente feliz, até que, um dia, reparou no espelho a etiqueta em sua testa. “Inteligente”. Ele era mesmo inteligente, ou a etiqueta, de alguma forma, lhe conferia algum tipo de poder mental? Ele era, ou tinha que ser? Estava escrito, então ele entristeceu.

Quando ela nasceu, delicadamente colaram na testa a palavra “religiosa”. Cresceu indo ao culto e decorando versículos da Bíblia, contestando os hereges e apontando o dedo nas feridas alheias. Evangelizava aos gritos desde os seis anos de idade e fazia orações arrebatadoras aos doze. Diziam que seria pastora, e era tudo que ela queria ouvir. Entrou em crise quando leu na Bíblia pela primeira vez que as mulheres não podiam se pronunciar no culto, que deviam estar caladas e subservientes aos maridos, mas logo viu que ninguém obedecia aquela parte. Deixou pra lá e voltou a sonhar em ser pastora. Triste foi a manhã que percebeu, como que brotada da pele que sempre a ocultava, a palavra: “religiosa”. Ela era o rótulo, ou o rótulo era ela? Talvez devesse mesmo ficar calada, por ser o que não deveria ser. Sua fé era real? Ou apenas a obediência ao que lhe desenharam na testa? Estava escrito e ela chorou.

Ele e ela se encontraram, numa fila de cinema ou num culto. Não lembram como aconteceu, mas em pouco tempo estavam conversando. Saíram, lancharam, riram. Ela passava o dedo suave sobre a testa dele e achava bonita a palavra ali cravada. Ele encantava-se com o “religiosa”. Questionaram-se quem foi que colou aquilo ali e por alguns minutos revoltaram-se contra a sociedade e contra os médicos que permitiram tal atrocidade com recém nascidos. Olharam em volta depois de alguns impulsos revoltosos e perceberam que todos tinham a tal etiqueta: “revoltado”, “branco”, “preto”, “gay”, “burra”… Tantos nomes e tantas possibilidades que acabaram se perguntando o que queriam ser, se não fossem aquilo que ditaram em seu nascimento. Ele queria ser “aventureiro”, embora, diante de sua inteligência, soubesse que o termo não significava necessariamente alguém corajoso e desbravador… Havia também um sentido negativo. Já ela queria ser “livre”. Aquele era um título estranho… Não viram ninguém com o rótulo de livre, mas eles poderiam criar um. Decidiram então quebrar as regras: ele seria aventureiro e ela seria livre.

Pegaram um papel qualquer e escreveram os novos rótulos. Ele colou o “aventureiro” com a melhor cola que dispunha em casa, sobre a palavra antiga em sua testa. Ela fez o mesmo com a palavra “livre”. Voltaram pra casa satisfeitos. Ele sentou-se à mesa e aventurou-se nos livros de Kafka, ela ajoelhou e agradeceu a Deus pela sua liberdade.

8 comentários

  1. Desde que tive o prazer de te conhecer, tenho procurado ler os seus textos e experimentar o que escreves. O que dizes tem um toque de sensibilidade com liberdade de regras. Coisas de alma. Sobre esse texto, tenho a ousadia de acrescentar algo. Talvez eu possa já que quando o texto sai de você já não te pertence mais. A arte se completa no outro… O que eu poderia acrescentar é que não precisamos de placas coladas. Elas são os problemas. Poderíamos arrancar e ser tudo e nada ao mesmo tempo. Ser o grão de areia que um Deus grandioso se preocupa. Ser a mistura de privilégio e miséria. Reconhecimento e efemeridade. Ser humano. Um abraço

    1. Olá, André! Que bom que o texto te levou a pensar isso. Era justamente minha intenção. Precisamos nos libertar dos rótulos, não colando outros no lugar, mas realmente nos libertando. Se apenas colarmos outros rótulos, seremos eternamente prisioneiros deles. Abraço. 🙂

  2. Estava escrito que um dia escreverias “Estava Escrito” e demonstrarias que as pessoas são o que são e o que acham ser rótulos impostos ao nascer não são rótulos mas o próprio eu que trazemos ao nascer. Não importa que mudemos a palavra pois a palavra não muda o que somos. Ele continuou a ser inteligente e ela religiosa. Eles não eram aventureiros nem livres mas prisioneiros da ilusão do livre arbítrio.

    1. Será? Talvez eles tenham continuado a ser o que eram porque criaram outros rótulos ao invés de rasgá-los de vez. 🙂
      Mas gostei do ponto de vista sobre o texto, mestre. Abs!

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