Na mata escura

Ide e levantai as brumas do bosque com o sopro de almas que vos tenho ensinado. Deixai caminhar vossos passos rápidos por entre as árvores grotescas e seus galhos tenebrosos sob o brilho do céu borrifado de luz e, quando tiverdes andado o suficiente para que assome diante de vós a cascata, repousai. Mantende atentos os olhos e os ouvidos, no entanto, pois há rumores de seres nefastos rastejando na noite que banha os arbustos. Não julgai ser amigável o ruído discreto ou o farfalhar das folhas delicadas. Atentai para o pior, porque a lebre não vaga na mata escura, nem lá canta o belo passarinho. Erguei os olhos, procurando nas estrelas o leste para que dele fujais. Aconselho-vos também farejar o cheiro de morte, para que dele te apartes tão logo te acaricie as narinas. Fétido e podre vos parecerá, como corpo dilacerado e oculto na próxima pedra, como vala de mortos na descida do caminho íngreme.

Não vacilai, nem um minuto. Não vos deixai dormir um sono medroso, que segue aos solavancos de uma mente relutante. Quando se atravessa a mata não se pode namorar os sonhos e suas falas torpes ao pé do ouvido. Vós sois ratos largados às cobras, já sangrado pela lâmina que vos condenou desde o início. Atentai, pobres ratos, que a noite não finda e o sol já não nasce, que vossa sina é temer arbustos e cruzar o negrume das condenações. Correi dos vossos demônios, que esticam unhas a um dedo das vossas costas ofegantes! Correi do inquisidor, dos algozes e do juiz! Correi porque sabeis vós que o patíbulo é fato: a forca está pronta e o cadafalso já estala.

Também não confieis em abrigos que, porventura, se lhes apresentem no meio do bosque, ressaltando janelas lustrosas e lareiras aprazíveis. Moram lá apenas almas de uma era não tua, pessoas que não vos trarão menos dor e condenação. Apenas fingi que os abrigos são fossos, as casas penhascos e os castelos desfiladeiros…

Quase esqueci de anunciar-vos que, ainda assim, caso possais ver algum halo no céu distante, escondei-vos dele! Não se tratará do sol ou da lua há muito fugida (fingida). Estareis vislumbrando apenas o olho brutal que vos caça, sedento de vosso sangue. Não clameis. Não choreis. Apenas fingi felicidade plena, e então ele vos deixará sofrer um pouco mais.

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