Chronos e o mar de nuvens

O navio seria igual a qualquer outro desses de livro de história e filmes de pirata, se não fosse pelo simples fato de que voava. Casco de madeira rústica, acabamento com alguns entalhes de formas fluidas e uma proa que apontava fina para o horizonte de nuvens. A grande embarcação foi batizada de Chronos pelo velho comandante. Rotineiramente cruzava os céus acima das nuvens, fazendo daquele tapete branco seu oceano e, raras vezes, mergulhando para tocar águas reais no mundo que se esparramava alguns milhares de metros lá em baixo. Chronos voava leve, como se suas madeiras fossem plumas sustentadas por um sopro qualquer.

A grande particularidade, no entanto, não estava na surpresa do vôo de tamanha estrutura, o que desafiava as leis da física… Mais chamava atenção o seu leme: um bordado. Um tecido fixado em aro de madeira, onde o chefe da nau bordava com uma agulha fina. Cada vez que a linha cruzava o tecido amarelado o barco dava uma volta suave. Era controlado pelo sutil vai e vem da agulha de seu mestre.

– Como pode um navio tão grande ser comandado por uma linha tão fina? – Indagou um pequeno marujo, recém-chegado do último porto, construído no topo da montanha de um continente próximo.

– Ora, como poderia não ser? – respondeu o capitão enquanto manuseava com cuidado a agulha sobre o tecido. – Quanto maiores as coisas, mais frágeis são seus comandos.

– Não faz o menor sentido… – coçou a cabeça olhando para o lado e vendo uma coluna espessa de nuvem negra que se amontoava a alguns quilômetros. Mais parecia uma onda colossal e estática, congelada por algum feitiço como aquele dos cabelos da Medusa. – Cada agulhada que você dá aí faz essa coisa toda se mover. É magia?

– Por que se preocupar em entender o leme se você nem ao menos entendeu o porquê de estarmos voando? – Sorriu o comandante.

– E quando começou a voar?

– Chronos sempre voou. Sempre foi o mais rápido que podia ser.

Um vento frio soprou fazendo dançar as abas do bordado, que se derramavam além da parte esticada pelo aro de madeira.

– O que acontece se a linha torar? Se o pano rasgar? O navio cai?

O velho sorriu mais uma vez para o pequeno curioso.

– Quando o pano rasgar ou a linha torar eu deixo o navio, mas ele não cai, não. – respondeu olhando para frente, com o vento lambendo-lhe o rosto e ouriçando os cabelos finos e brancos.

– Então vamos ficar sem um comandante?

– O capitão de Chronos é Chronos. – falou com voz cansada – Eu só estou bordando.

O marujo parou pensativo. Ao fim da linha do horizonte, o sol se punha sobre o mar de algodão.

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