Saudade


Não é, de fato, uma dor que acariciamos esta tal saudade? Como uma bala na alma que não furou o peito, mas deixou-se presa em algum lugar. É lástima enevoada entre ecos de um riso apagado, entre lances de uma voz quase esquecida. Trata-se unicamente de uma imagem nublada de alguns gestos tolos, rasgados no tempo e cravados no mural que carregamos conosco. É um cheiro que aos poucos larga as gavetas, ao qual nos agarramos para que não fuja mais do que já tem fugido… Uma fotografia viva que o tempo borra na mente.

Já senti saudades de várias formas e tamanhos, do o quê, do quem, do onde. Foram-se todas de mãos dadas descendo as escadas do meu espírito e lá habitam silenciosas um calabouço escuro nos corredores dos anos. Acendem fogueiras constantemente, cantarolam quando o sono não vem, dormem quando as deixo dormir. Saudade de um tempo de outros rostos e outra rotina, da infância com sua leveza e liberdade, da juventude com sua ousadia e tremores a cada nova descoberta, a cada novo pecado. Saudade de lugares… Dos meus lugares e seus objetos, valorosas quinquilharias, preciosos lixos sem valor. Lugares onde caminhavam os mortos, que me sorriam e me presenteavam até mesmo com um olhar afetuoso. Porque passado é passado no nome, mas vivo presente para os que não o quiseram passar. Se a vida foi ficando pior, não sei, mas entendo que eu era melhor. Eu era a pura vontade de ser eu, o dedicado amante de mim, aquele que me fazia feliz. Hoje sou sobra do que fui menino, resto de juventude gasta… Afinal, não somos todos?

Somos eternos doentes pela falta de um pedaço de algo ou alguém, uma porção de felicidade que largamos no caminho ou que o caminho nos fez largar. E assim é feita a velhice: um empilhado de saudades que se amontoam em forma de castelo. Seremos, no fim, habitantes do palácio real das saudades, onde nenhuma janela pode ser aberta, porque os quadros no seu interior já são suficientes para uma contemplação eterna.

Saudade danada que mata a gente, tão frágil ela que morre com um beijo. Mesmo que tentemos não conseguiremos odiá-la, porque, no fundo, ela só quer morrer.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s