A ceifa

O Hospital Apolo ficava no topo de uma das mais íngremes ladeiras da cidade e já possuía uma aparência velha, embora sua fachada fosse impecável. Contornando o velho prédio podia-se ver a face enrugada por trás da máscara de vidros e aço. Seus corredores tinham o costumeiro cheiro de hospitais, nascido de gazes, remédios, produtos baratos de limpeza e do suor frio dos moribundos. No labirinto silencioso, vez por outra irrompia um grito, fosse ele de dor física ou dor de alma.

Na UTI, seu Jacinto respirava com dificuldade, entubado. Os aparelhos ao seu redor cochichavam seu laudo uns para os outros, olhando-o com pontos de luz indiscretos. Não podia se mexer e nem ousava. Chegou até a se perguntar se todos aqueles fios e tubos estavam realmente saindo de seu corpo. “Eu estou morrendo”, pensou. Por mais que tentasse manter-se calmo e acreditar que dentre poucos instantes estaria correndo em campinas verdejantes, havia medo a cada respiração. Medo do que viria depois, ou apenas medo de ter simplesmente acabado. Lembrou dos filhos, da esposa, do patrão, e por um momento amou-os todos, apagando rancores e esquecendo todas as brigas e injustiças. “Terei dito tudo que queria lhes dizer?”. Por uma fração de segundo viu-se nervoso por mais uma lembrança incômoda. Podia ter vendido a lojinha da Prata e comprado realmente a casa na praia. Daria para ter aproveitado o mar e talvez até estivesse lá até hoje. Quis ter tido uma morte mais bonita. Dormindo ou quem sabe enquanto pescava numa jangada pequena, caindo estatelado sobre alguma marola de um mar verde que se despedia ao pôr-do-sol. Podia ter feito tantas coisas.

– Jacinto? – Perguntou a voz ao seu lado.

Ele bem sabia que ninguém havia entrado ali. Só podia ser ela. A mulher de manto negro e foice afiada. A ceifadora.

– Pois não. – Disse em pensamento, mas sabia que ela podia ouvi-lo. Deslocou o olho para o lado e enxergou-a com surpresa. Tinha um rosto bonito e pele de seda – infantil ou pelo menos jovem demais -, embora seu corpo fosse encurvado como o de uma velha decrépita. Vestia branco. Uma visão estranha, mas não assustadora.

– Vim buscá-lo.

– Eu sei. – respirou fundo ao som dos bipes de aparelhos ao seu redor. Alguém deu uma gargalhada no corredor do hospital. As enfermeiras tinham ótimas piadas. – Tenho opção? Podemos conversar?

– Poderemos conversar depois. O tempo que achar necessário. Agora temos que ir.

– Será que a senhora não poderia me deixar dormir antes? E quando me levar, por favor, leve com gosto. Sou claustrofóbico e odiaria acordar no caixão. – ele tentou sorrir para parecer simpático, mas estava nervoso demais para desenhar algo com os lábios. – Vai doer?

– Não sei.

– Não sabe? Mas a senhora é a morte…

– Por isso mesmo. Nunca morri pra saber. – Ela disse com um certo ar de dúvida se formando entre as sobrancelhas. Ficaram em silêncio por alguns segundos, constatando o absurdo daquela declaração.

– A senhora não sabe como é a morte?

-Não… Eu só… Levo as pessoas.

– Sim, mas o que acontece na passagem? A tal luzinha, o túnel escuro, a dor do trem passando sobre o corpo… Nada?!

– Desculpe.

Jacinto pareceu frustrado.

– Deve ser triste viver uma coisa que não se conhece. – disse o moribundo. A morte pareceu cair de ombros. Abateu-se. – Eu vendia comida de cachorro, gato e outros bichos, mas confesso que um dia cheguei a botar uma colher daquela pasta horrorosa na boca. O gosto foi a pior coisa que já provei na vida, mas provei. E você mata as pessoas mas nunca morreu? Nem uma vezinha? Rapidinho pra ver como era?

– Não. Sou eterna.

– De que vale ser eterna se vive para pôr fim às coisas? Sinto pena de você. – Olhou-a nos olhos e de repente viu o olhar da velha decrépita, apesar de emoldurados pelo belo rosto. Conseguia ler ali uma alma mais cansada que a sua. – Ande, leve-me. Já provei comida de gato, agora quero provar a morte. Será uma experiência válida, como todas o são.

Em silêncio, a mulher tomou-o pela mão e fez seu espírito sentar na maca. Ele subiu do corpo como quem abre a janela e toma brisa fresca. Sorriu. Parecia dez anos mais jovem e feliz.

– Dói? – Ela perguntou curiosa.

– Não… É como limpar-se de uma sujeira ou largar um peso muito grande. Já se sujou com alguma coisa?

– Nunca.

– Já carregou um peso que não queria?

-… – Ela olhou em volta. – Sim.

– Já largou-o?

Ela não respondeu. Jacinto percebeu que ela não queria. Talvez fosse doloroso demais perceber que ela estava pior que os ceifados. Ela não era a morte… Era só a foice.

3 comentários

  1. Parabéns! Este foi um dos melhores texto que li seu.
    Obrigado, que Deus continue a te iluminar para continuar com este maravilhoso dom!

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