A princesinha

Da varanda posso vê-la todo fim de tarde, descendo a ladeira. Em meio a carros rápidos e faróis de luzes distorcidas, sobre a calçada mal calçada, passando entre postes e sarjetas, vestida de princesa. Ela acena um tchau de miss, vestindo trapos que julga ser trajes da realeza. Sobre a cabeça há uma coroa de papelão que precisa ser mantida sobre os cabelos a cada lufada de vento. Ela ri um riso de desfile e é linda aos seus próprios olhos. Conclamo todos a observá-la sempre nos fins de tarde: vejam todos a figura! Descendo a ladeira.

Ela tem amigos imaginários, seus eternos aclamadores. Nós, reais, observamos curiosos os comentários ao pé do ouvido de quem não existe. É louca? Há quem diga que foi, de fato, um dia, miss ou rainha, princesa ou milionária. Há os que caçoam e apenas a observam como quem pergunta o que diabos de fato se passa naquela cabeça coroada de papelão. Outros, como eu, apenas assistem. E como é curioso assistir… Ver um mundo imaginário perseguir uma pessoinha, princesinha auto-coroada, feliz nos seus desencantos. Invejo-a por um segundo, aos fins de tarde, enquanto desce a ladeira.

Deve ter seus treze anos, suponho, uma criança ainda. Gosta de rodopiar as saias velhas feitas de lençóis amarrotados, sujos com grandes manchas de café ou água sanitária. Sorri a todos que vê ou que imagina, simula ser tudo que não é, compra a todos com tudo que não tem. Infelizmente, no entanto, sua realeza acaba no fim da ladeira, quando chega a noite. Vejo-a arrumar sua cama perto do banco da praça e voltar aos trinta anos, ao sofrimento e à miséria. À noite, caça quem lhe pague, embora tenha vivido a tarde buscando quem lhe sirva. Detalhe é que haverá sempre os que pagarão, mas os que servem serão sempre fantasmas. Ao menos existem, por um momento, mas com certeza se esvairão no pôr-do-sol. Ela é princesa de vontades, cercada de bobos e não de guerreiros. Entrega-se, portanto, à vida comum quando percebe que, no fim, ninguém por ela luta, apenas dela ri.

Amanhã volto à varanda, para vê-la ressurgir princesa. Decidi parar de olhá-la à noite para não ver sua decadência. A cena me comove muito… Estarei, então, sempre acima, no camarote, enquanto ela desce a ladeira.

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