Estrangeiro

Escuto as canções antigas das terras distantes onde nasci. São lânguidas caminhadas por uma terra de memórias, onde o corpo oscila entre fantasmas. Sou de terra longínqua, atravessando um mar extenso, onde o clima é outro e as pessoas também. Minha terra natal em nada se assemelha a esta de agora.  Possui campos verdejantes rasgados por águas plácidas e limpas, com pomares e cercas de madeira velha. Tem borboletas miúdas recém-chegadas do vinhedo. Lá o sol nunca vai a pino, apenas rasteja-se no horizonte. Há uma eterna luz dourada e fria. Machuca os olhos se encarada, de certo, mas por Deus que me comovem mais que a escuridão daqui.

Minha terra natal exala seus perfumes. Sai dos poros, do chão. Penetram-me as narinas da lembrança e me fazem mais jovem. Inalo seus cheiros como a uma droga viciante, esperando dela as miragens. São cigarro de bons odores e tem o gosto dos tragos passados. Sabor de saudade. Sabor das delícias que aqui não se faz.

Sou estrangeiro numa terra seca, esperando o trem prometido. Na mala estão fotografias de momentos vãos, na mente as fotos que me importam. Quanto tempo até os vagões chiarem sua fumaça no horizonte? Quantas eternidades cada segundo deverá conter? Sou só esperança de partida, um velho à espera do retorno. Quero novamente a terra de meus dias, embora ela de mim não sinta a ausência. Somos, entretanto, povo e território, governo e governados… separados somos tribos mendigantes, juntos somos nação.

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