O que se disse

Era a bela de outrora, agora despedaçada, diante do marido que se despedia sem uma lágrima sequer nos olhos. Não tinha semblante de noiva como naquele dia e nem seus olhos tinham a velha luz. Era apenas uma senhora que o irritava e carregava sobre a cabeça a aura de um agouro inexplicável, que fedia a rotina e implicância. Ela segurou-lhe o braço na descida das escadas, balbuciando um sentimento, com quase-palavras de uma língua espontânea. Ele virou-se bruscamente e apenas retirou-se de suas mãos em um solavanco. No olhar indiferente disse-lhe tudo.

Disse que não havia o que sentir, que o tempo desfez as juras e matou-a devagar aos seus olhos. Que a vida agora tinha outros ares e que ela não fazia parte deles, porque era uma parte errada em um hoje de novos acertos. A vida mudara com ele e agora tudo era pesado: a casa de mobília antiga, a refeição imutável dos sábados à noite, os horários de deitar e acordar, o sabonete azul eterno no box de vidro do banheiro. Eram fragmentos de uma vida inerte que precisava ser trocada, como um pijama sujo que se acomoda sobre o travesseiro, ressurgindo sempre na hora de dormir. Ela, no entanto, respondeu-lhe com uma lágrima, e disse-lhe tudo a seu modo.

Disse que ele foi uma devoção e uma prece respondida. Que deu-lhe tudo que podia, na medida do que era suportável perder. Entregou-lhe bens e males, passou adiante seus anos bons e sua juventude, seu corpo perfeito e sua esperança de ser mais do que era. Presenteou-o com sua própria vida, mas não havia mais o que oferecer. Não havia com o que barganhar. Disse que ela deixou de existir porque deu-se por completo e agora era apenas vazia diante daquele que a levava inteira em seus bolsos. Ela abriu a boca e quis verbalizar algo mais, no entanto largou um “então vá”. E nessas duas palavras disse-lhe que um dia qualquer estaria bebendo em uma taça o vinho que agora estava esmagando com seus pés cansados, que ele podia levar um eu do passado, mas havia alguém ainda ali para sobreviver e reerguer-se. Disse que ele podia levar seus anos felizes, mas não suas cores para pintar outras aquarelas. Ele podia levar uma fatia grande da vida perfeita que julgava ter tido, mas não levaria os calores e arrepios da vida que ainda viria. Viu-se, então, por um instante, sendo outra e sem ele. Talvez insana, talvez insegura, passou a mão sobre os olhos.

Ela séria, apontou-lhe a porta. Ele, firme, passou sob o umbral rapidamente e, uma vez na calçada, desapareceu. Um vento morno entrou pela sala e fez as folhas da muda de centro acenarem um adeus. Estava só, fecundando um recomeço.

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