Sala de vitrines

Penso e me vejo na sala de vitrines, embaçadas todas elas por neblinas de sentimentos. Esta sala em que habito guarda suas estátuas e pinturas que evanescem num ir e vir perpétuo, entrelaçado por rápidos movimentos que às vezes mal percebo. Outro dia revi um rosto conhecido que há muito já se fora e ele sorriu com o canto esquerdo da boca, com o olhar daquele dia, que me foi dado somente uma vez. Ontem senti passar por mim a música que há décadas não via, estava linda de vestido vermelho e passou feliz como costumava ser nas tardes de domingo. Bateu-me à porta também o cheiro da pipoca doce e da terra regada pela chuva, vindos de uma infância distante. Logo também sumiram no hall da sala de vitrines. Eram todas memórias vivas e expostas por trás de vidros que me impedem de tê-las de novo, embora por vezes cruzem a lâmina e mergulhem seus dedos em meus cabelos em um afago reconfortante. Gosto quando deixam-se navegar sobre minha cabeça e ali mergulham e ressurgem num cafuné que me acalenta.

Ao longo da sala, no entanto, há um corredor de poucos passos, mas que tenho em grande estima. Lá guardei alguns amores e seus sorrisos, suas vozes e carências. Num baú que há no chão, guardei os “eu te amo” que me foram ditos e os que proferi, sempre sinceros. No amanhecer dos anos, pensei que seriam palavras de propriedade exclusiva, mas hoje é tudo diferente, já que eu antes era fantasia, hoje realidade. Lá estão os meus amores e cada um a sua maneira, velados com suas melhores partes, divorciados de seus pecados e mágoas. Apenas são histórias e acréscimos, épocas e músicas, aglomerados sob um rosto que me sorri por trás do vidro. Lá não há traição nem abandono, nem mesmo o pranto cultivado, apenas o calor dos primeiros meses sem a dor dos últimos.

Na sala de vitrines penso como as colecionei aos montes e como tudo já ocupa seu lugar devido. É como ter fechado o ciclo. É como ter feito o que poderia ter feito. E se hoje fosse meu último dia, cruzaria eu mesmo um vidro qualquer da sala sem nenhum pesar ou arrependimento, apenas para habitar o outro lado das vitrines. Ser parte do mundo que criei, habitante da minha vida. Ser também vitrine nas salas dos que amei.

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