Angelique

Conta-se que Angelique morava num castelo de areia, banhado por um mar de águas verdes. Uma obra tão grande quanto frágil, belíssima ao nascer do sol, quando a luz fria desenhava-lhe os contornos das torres altas e ainda mais bela no fim de tarde, quando a luz alaranjada fazia suas paredes parecerem com ouro puro. Ela gostava do lugar que construiu, à beira de um mar de ondas reverentes e pacatas, cercado por falésias e árvores. Todas as plantas grudavam-se nos paredões naturais como se fossem ali uma massa de mata escura e densa que se alastrava por quilômetros adentro. Era o local ideal para um castelo de areia. A brisa que corria sobre o oceano e passava por entre seus cabelos longos e negros pareciam afagar-lhe todas as manhãs. O cheiro da terra e do mar tornava-se facilmente um abraço apertado de um velho conhecido. Angelique gostava de olhar para o horizonte e ver no infinito seu amante. Ele sempre a seus pés, comportando-se diante do majestoso castelo que poderia facilmente derrubar, mas nunca o faria.

Diz-se também que Angelique na juventude correu o mundo, travou guerras junto a outras amazonas e as venceu todas. Tinha mesmo um quê de arrogância no olhar e algumas leves cicatrizes de quem já sofreu algo mais que o normal. Vez ou outra ficava parada na porta de seu castelo, sob uma leve chuva de areia fina que se desprendia das janelas sem vidros. Olhava o mar como quem vê um campo aberto para o galope. Tivesse ali um baio alado de certo teria corrido sobre as águas até chegar ao outro lado. Era uma mulher silenciosa, de movimentos contidos e olhos firmes. Tudo que fazia durante o dia era umedecer suas paredes ou retocar com areia nova os pedaços da morada que o  sol de meio-dia secava e espalhava pela praia. Cansava viver para o castelo, mas ela o fazia sem reclamar. Ele queria ruir, mas ela não deixava.

Por fim, o que mais se conta desta guerreira e seu castelo de areia é que um dia acordou cansada demais para cuidar das paredes. Deixou que o sol, causticante, evaporasse a água que mantinha tudo no lugar. Acordou então durante o belo pôr-do-sol, quando tudo era dourado, e viu o vento do leste soprar forte sobre a areia fina  de seus aposentos. Aos poucos, o castelo voou  em grãos minúsculos de ouro, turbilhonando para as falésias, para a praia e para o mar.

Outros discordam. Afirmam que não era um dia de sol, mas de chuva. A guerreira dormiu mais do que devia por causa da agradável brisa fria que entrava pelas janelas abertas. Acordou então com as águas furiosas do mar lambendo-lhe o salão e as escadarias, amolecendo as torres e derrubando os quartos. O mar levou o castelo embora, refazendo-o nas suas zonas profundas e escuras.

Há, no entanto, quem não ache que o castelo ruiu. Alguns apenas creem que Angelique ainda o repara todos os dias, subjugando o mar que deseja reconstruí-lo em águas frias e combatendo o sol que o chama para voar esmigalhado pelos ares. Nesta versão, no entanto, ela não é guerreira, mas escrava. Deixou-se virar serva do castelo que nunca quis existir.

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