Lolita

Chamavam-na pelo apelido de Lolita e ela, tola, pensava que o motivo era sua sensualidade e viço dos dezoito anos. Pelas costas o apelido era puta mesmo, mas ninguém tinha coragem de revelar o que diziam nas pequenas rodas de conversa. Lá onde todos a denegriam e falavam de como ela era fácil e sem pudores, uma vagabunda da pior espécie. A jovem Lolita, crente de seu poder fatal e superioridade sobre os homens mortais era, na verdade, o menor dos interesses deles, que a procuravam para sexo e nada mais.

Num domingo de sol causticante de fevereiro decidiu sair à caça. Rolou a agenda no telefone e procurou algum alvo disponível. Seu critério, no entanto, não era se estavam solteiros, apenas se teriam iniciativa. Elegeu então um velho amigo do Ensino Médio que não via há algum tempo e pelo aparelho mesmo começou a conversar. Duas horas depois das primeiras palavras, ela ousou um pouco mais. Tirou a roupa na frente do espelho e fotografou-se nua. Enviou as fotos como quem tasca fogo numa pilha de madeira velha banhada a querosene. Esperou alguns segundos e não obteve resposta. Não sabia se o velho amigo a teria tomado por ousada ou infame. “Eu só quero uma noite”, ele respondeu em texto. Óbvio. Apenas um idiota iria querer tomá-la por namorada. No fundo, ela sabia disso… Os homens sempre se aproximavam dela pelo que ela poderia lhes oferecer na cama e isso a desesperava nas noites de insônia. Ela sabia que era apenas diversão e só seria compromisso para os cegos, otários e cornos por vocação. Nenhum dos três fazia seu tipo.

Saíram juntos naquela noite e ela cumpriu o seu papel. “Ainda bem que não paguei por isso”, pensou o amigo, embora tenha dito um simples “foi muito bom” ao pé do ouvido. Levou-a para jantar pelo simples peso na consciência de não usá-la e largá-la em qualquer lugar, como faria com uma prostituta comum, daquelas que se dão o valor. Foram embora para suas casas e seguiram seus dias, mas algo diferente os acometeu. Cupido, com sua flecha torta, decidiu atingir justamente aquela que não queria se apaixonar, deixando o amante continuar sua vida sem o mínimo afeto pela mulher de uma noite só.

Ela sofreu, ele não. E hoje ela o denigre exibindo suas conversas pornográficas de celular enquanto sonha em tê-lo de novo, vendo seu rosto nos rostos dos outros com quem deita. Procura matá-lo aos poucos, mas tudo que consegue é ser ainda a falada puta para os íntimos. Lolita, para os mais discretos.

4 comentários

  1. Lolita, afogada na cegueira da ilusão, só acredita em sombras e, no lugar da realidade, só vê o que lhe mostra sua vaidade.

  2. Pobre Lolita. Parafraseando Tim Maia: Nada pode dar certo quando uma prostituta se apaixona, um cafetão tem ciumes e traficante se vicia…

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