A cria liberta

Vejo vir, distantes, nuvens negras e relâmpagos. Formam-se em turbilhão lento e colossal sob os uivos de um vento arruaceiro. Uma manta escura que vem cobrindo o mundo e deixando-me cá debaixo do cobertor, no escuro, sem ar. Um trovão rosnou há pouco tempo, puxando de meu fosso de alma o medo adormecido. A tempestade vem para mostrar que não sou ninguém. Deixo para trás o verão e as flores, o calor e o sol, deparo-me, portanto, com a madrugada e a chuva, que chegam com fogo nos olhos. Fogo azul e frio.

Olho e vejo que tem rosto, cheiro e voz. Olho e vejo que lá, dentro dos ventos e nuvens, roçando as pesadas gotas d’água, há alguém. Minha tempestade ergue-se, respira, estica-se com braços fortes que, espreguiçando-se, tocam o horizonte de ponta a ponta. Ela sou eu. Meus trovões e meus raios, minha chuva de tantas dores. Sou eu. Tem minhas feições e meu sorriso, meu jeito de torcer a boca e até olha de soslaio, como o faço sem querer. A tempestade que me sobrevêm, furiosa, é minha cria liberta, a tormenta que por tanto tempo domestiquei. Agora, contudo, uiva a liberdade dos anos de grilhões.

Venha sobre mim e lave-me o corpo! Sou teu para a enxurrada. Sou frio desde sempre, vivendo o calor imposto. Sou torrente de águas turvas, devastando o campo. Somos água faminta e crescente, gritando aos quatro cantos em voz retumbante. Chega de primavera! Cansei dos jardins. Quero agora, e preciso, ser tempestade. Não me importo com o que digam, nem me entrego ao que me condenam. Blasfemo com voz de profeta, ergo-me sobre o credo-sol com minha alma-chuva, e descubro, sem querer, que não nasci para as flores. Nasci chuva e escuro, fúria e luta.

Não serei mais um nos elísios dos conformados. Serei o avesso do padrão. Aquele que soube aceitar-se tormenta e usa-la a seu favor. Sou simplesmente o que nasci para ser: lavado em chuvas e lágrimas, correnteza impetuosa das mais severas tempestades, e vejo nisso um bem maior. Vejo que em minhas caudalosas águas há força para levar muitas pedras e placidez para regar algumas rosas. No fim, quem não tem fúria nem trovões planta-se e morre. Quem é chuva, renasce.

6 comentários

  1. Será isso um passo para um grito e um grito-passo para a Libertação, aquela que ousa olhar para trás sem temer, das crenças do passado, suas garras condenatórias, em guerra constante contra as nossas tempestades?
    Será que és aquele que “debaixo do cobertor” do medo, descobre-se e descobre que tu e a tempestade são um só, que o trovão que ecoa em teus ouvidos é indiferente daquele que tua alma grita e o relâmpago que cega teus olhos, não é o mesmo que te abre os olhos para novas revelações?
    Será…?

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