Iguais a nós

Você, como eu, tem um jeito diferente de ver as coisas. Tem a vida presa no peito, sob pressão, e busca as válvulas para deixa-la vazar aos gritos. Vemos conflitos e problemas onde eles não existem, apenas pela prática de complicar o que não se deveria. Nós criamos discussões intermináveis na mente que acabam num olhar mais severo. Lutamos o tempo todo, contra tudo, mas calamos de igual forma.  Somos eternos apaixonados pelo próximo amor, encantados com o que virá, embora vivendo a eternidade dos amores momentâneos. Somos eternos caçadores de alguém, por simples medo de ser companhia de si. Acho que nos amedronta, de certa forma, conviver com nosso ego. Nós vemos Deus nas coisas e nos sentimentos, não em letras ou canções. Digo ainda que, iguais a nós, há muitos.

Muitos que subvertem as próprias leis a cada manhã, moldando-se, mudando-se. Acometidos de uma terrível (ou maravilhosa) maldição de ter num corpo só mil vidas a serem vividas, com urgência. Gente que se recicla pro bem e pro mal, provando de tudo e de todos, com sede de parar o tempo e o gozo, com fome de liberdade. Essas pessoas estão espalhadas pelas várias idades e lugares, às vezes presas dentro de alguém que sabe de seu prisioneiro, outras dentro de alguém que não. Espíritos livres e turbulentos, artistas de prazeres e não de pincéis. Indivíduos que não pedem muito, porque se apaixonam com pouco, mas secam as fontes e seguem em frente.

Nossas idades mentais não acompanham o nosso corpo. Velhos de pouca idade e jovens de setenta, somos piruetas do tempo em almas desbravadoras. Aprendemos, a cada dia, como ser um pouco mais. Gente que beija a morte e traga as possibilidades, que tem medo de ser uma coisa só. Medo de olhar para trás e ver um único caminho, de perceber que não tem mais tempo para fazer o que se quis. Gente como a gente, constantemente, tem esse receio de ser o que se é. Não retiro deles a razão. Ser tudo que se quer é como saltar no abismo para abraçar o horizonte. Saliento, entretanto, que temos asas.

Iguais a nós são tantos, embora nem sempre visíveis. São os que querem da vida o que de melhor ela pode dar, mesmo que depois se aquietem e se engessem na sua forma de cristal. No fim, viram joia lapidada por perdas e conquistas, e brilham, realizados, livres de toda impureza.

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