Póstumo

Se a noite que se dorme for a última noite, que sele os dias com cuidado e me deixe sonhar meus sonhos. Se a morte me tomar, que tenha braços quentes e tecido suave ao toque, que seja o melhor afago, selado com um beijo amoroso. Que trague minha alma e língua, deitando-me com delicadeza. Que entregue meu corpo para que se vele, enquanto eu corro com os cometas. Farei da morte minha amante ingrata, que com todos se deita, mas ainda me encanta. Uma puta de lindos traços que levou meus dias sem cor, mas me entregou a eternidade. Olharei para baixo, no entanto, e farei meus últimos pedidos.

Pedirei que amparem os meus, que falarão de injustiça e questionarão as divindades. Aqueles que me farão um santo em memórias e chorarão pelo homem que nunca fui. Pedirei que um anjo vá aos meus amores de outras épocas e deixe-lhes flores no travesseiro, com o meu perfume. Tudo que poderia lhes dizer já foi dito. Aos amigos de ouvidos abertos e ombros disponíveis, enviarei um sorriso num sonho qualquer. Aos outros, nem um segundo do meu tempo eterno.

Se meu corpo for um peso, que o carreguem nos quatro cantos. Quisera que fosse ao fogo e virasse pó lançado de um alto desfiladeiro com vista para o mar, ou, talvez, que descesse o rio numa canoa simples, rabiscada pelos que amo. Que o deitem ao som de uma canção de amor e deixem que os próximos mortos o chorem para seu próprio conforto. Será um retrato de mim, não eu. Ponha-se a moldura apropriada, as flores e as velas que lhes aprouver.

A dor que ficará não será minha, porque eu já terei abandonado o fim das coisas e seu sofrer impetuoso. A partir dali serei, com vestes brancas ou rastro de luz, um pedaço de Deus, atraído como ferro pelo ímã. Sugado por algo maior que a dor e a vida. Será como ter o vento no rosto na estrada comprida, de olhos fechados, com aquele mesmo sorriso que se abre sem esforço.

Foi tempo o bastante para tudo que se quis. Dádiva de ter e ser o que tanto se almejava. Foi tempo de viver o tudo, como agora poderia ser, sem barganhas, o tempo de fechar o tempo.

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