Mãos d’água

Vem como batedor de longas tropas, o cheiro da chuva-exército que ali se amotina entre as nuvens rancorosas. Ao longe consigo ver que atiça os deuses dos ventos, que já se engalfinham pela posse das copas das árvores. O frio desce rasteiro, carregando consigo os raios de sol. Tudo é cinza antes da tempestade e as comportas do céu já resvalam aos rangidos seus portões distantes. Há de se abrir o teto do mundo, que sobre nós vomitará enchente. Olho com temor a procura de estrelas pela noite, ou de traços de azul pelo dia, mas existe apenas o roçar escuro de uma massa espessa sobre mim. Nuvem tão baixa e densa que posso julgar estar ao alcance dos dedos, caso me estique na ponta dos pés.

A casa perde o brilho e tudo parece mais vazio. Não há ruídos nem conversas, um sepulcro. As janelas se fecharam sozinhas em algum momento que não percebi, negando-me até mesmo a brisa boa que pede passagem. É hora de chuva. Tamborilam nas vidraças as gotas violentas e invadem nossas terras os deuses do inverno. O frio e os ventos, a água e a sombra. Chegaram para o jantar e trouxeram também Hipnos, que se aconchega em minha cama como hóspede de honra. Ele é volume em meus lençóis e me chama com murmúrios.

Lá fora, no entanto, vejo um poço aberto. É cilindro de cimento, cuja tampa de plástico se acomoda escorada na parede de tijolos. O vão escuro abre a boca, tentando matar a sede. Torço, por um momento, que se farte de chuva, que a guarde para os dias que virão. Bem podia, se mágico fosse, puxar para si os ventos e as nuvens, o frio, e o deus do sono. Aprisiona-los todos para que me servissem e fossem libertos quando eu bem entendesse. Eu seria rei da chuva, com o poço como trono, e teria nas mãos o poder imenso, e lindo, de poder matar a sede daqueles que me procurassem.

Cascatas e cascatas que do céu despencam me convidam para a festa. Vejo mãos d’água me puxarem, querendo me ver na dança, mas resisto. Espero a chuva ir, então dançarei no seco. Eles cantam lá fora, rodopiam molhados. Alegres por viverem submersos, como se peixes fossem. Quase posso vê-los subir às alturas e  saltar lá em cima, nas nuvens, para tomarem o ar que necessitam. Crianças, na maioria, jovens que precisam da chuva por algum motivo. Recarregam sua vida nela talvez, e os velhos não o sabem. Se soubessem já estariam lá também, sendo eternamente adolescentes. Eu, aqui, ainda espero. Não me convém ser criança.

Nas últimas gotas da tormenta, todos somem de repente. Cessam a chuva e a música, as danças e o reinado. O sol que dá olá é o mesmo covarde que fugiu há horas. Saldo-o como um velho amigo arrependido, deixando-o entrar para o café. Vou até o poço, descalço, sentido a lama que restou. As mãos d´água lá padecem, acariciando-me a sola do pé, sussurrando um adeus tranquilo de quem gozou seus prazeres e deseja agora apenas um sono tranquilo. O cheiro é de terra molhada.

O negro infinito do poço fundo não me revela muito. Lanço então um cascalho que ricocheteia no caminho. Bate seco na pedra fundamental lá embaixo. Nem uma gota ficou no poço, sequer uma pedra úmida. Está seco como sempre fora e a chuva apenas lambeu-lhe os lábios, provocando-o, mas não o beijou.  Mais uma chuva de mentira, que me largou com o poço vazio. A trupe do inverno que comigo brinca, que de mim caçoa, deve agora rir lá do alto ou de outras terras distantes. Lembram-se de mim como aquele que se imaginou rei da chuva, mas foi dela apenas picadeiro. Passam tempestades e chuvas, brisas e garoas… Eu aqui me finco, esperando não mais coroa de raios, apenas água no poço.

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