No amor e na guerra

O cheiro dele flutuava sobre as roupas dobradas na gaveta, espalhava-se quando alguém ousava revirar as peças. Havia no pequeno corredor dos quartos uma fala de algum domingo de manhã que ecoava repentinamente quando se passava por ali. Os risos súbitos e curtos surgiam nas soleiras das portas, como no dia em que ele a assustou por ter chegado em silêncio. Tudo na casa lembrava outros dias, os velhos tempos antes da guerra. Ele caminhava transparente nas lufadas de vento que entravam pela janela, tocava as paredes com a suavidade de suas mãos delicadas. A mulher parada na sala, sozinha, olhava para os cantos da casa como se contemplasse de pé uma ópera em curso. Comovia-se fitando o nada, com olhos marejados de quem se controla em um velório.  Ele fazia falta.

Quando ria, os olhos viravam traço e o sorriso dele doía no peito. Era mais que beleza contemplada, porque dele vinha aura de vida e vida plena. Ela o tinha como um ser superior, um anjo, talvez, que trouxera para seus dias escuros alguma espécie de luz. Ele era trovador de voz suave, com um timbre sem igual que acalantava quando tudo ao redor era gelado e revigorava quando as forças se perdiam. Era tudo que ela sempre quis, mas partiu para a guerra.

Hoje vivia – se vivia – entre balas e explosões. Devia ter agora o rosto sujo de poeira, sem a tez clara de poros limpos. A barba sempre bem cuidada já devia ser então uma massa negra escondendo-lhe os lábios desenhados. Ela o via nos sonhos, carregando armas e atirando em seus alvos. Imaginava o fogo e o barulho, as lágrimas de saudade que aos poucos foram cessando. Via-o agora um outro homem, de olhos possuídos pela morte e de coração petrificado. Voltaria taciturno e comedido, com poucos sorrisos e voz presa, mas não importava de que forma voltasse, ela o queria de novo por perto. Ele que saiu para a batalha decidido a voltar, lançando para ela um olhar rápido sobre o ombro, voltaria batizado em crueldade e desamor, sendo outro homem e outro amante. Um espólio deixado pelo conflito.

Ela, esposa. Ele, herói. Um ícone de conquista e vitória, forjado entre as minas do outro continente. Talvez jamais fossem o que já tinham sido, mas ela não se importava. Ela havia sido a primeira a receber seus tiros, o primeiro alvo de sua presença mágica e o depósito de seus dias bons. Ela já havia sido atingida antes mesmo da guerra, vendo nele seu algoz amado. Travaram já o bom combate antes do mal chegar, e rolaram na cama e nos lençóis em duelos infindáveis. Arfaram seus sufocos nos braços um do outro, mataram-se diversas vezes, amarraram-se em cativeiro voluntário e prazeroso de quem quer do amor as algemas e as vendas.

Antes de todo o sangue que ele derramara, derramou o dela. Antes de matar os inimigos, matou-a num beijo e tomou-lhe a alma com um anel. Ele, na verdade, sempre foi de guerras e entregas, ela de paz e mortes. Continuariam assim, caso ele voltasse um dia. Quanto mais os dias passavam, mais solitária vivia a pobre mulher, aguardando o tiro que viria em um dia sempre próximo. Morreria, então, com a má notícia, ou com a volta do seu. Seria alvo para sempre, da dor e do prazer de se amar um guerreiro, um desbravador de campos virgens e paixões ensandecidas.

6 comentários

  1. Sabe quando você lê um texto uma, duas, três vezes, e ainda assim não encontra palavras capazes de descrever o que você sentiu lendo? É assim que me sinto agora. Sabe bem que a temática “saudade” mexe comigo de uma forma muito, muito profunda. A incerteza da espera ou a certeza na qual não se quer acreditar… Vivemos ou morremos sempre à espera de algo ou alguém. Vivemos e morremos a cada dia porque todos os dias somos diferentes. E para termos de volta um pouco do que se era antes, aceitamos de bom grado as mudanças ou apenas nos iludimos com a possibilidade delas… Enfim, o texto é lindo como sempre, Sensei!

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