Mulher de folhas secas

Dafne já era árvore, presa à margem do rio, quando sentiu chegar o outono. O rio que lhe ensopava as raízes, que também chamava de pai, fizera-lhe o grande favor de transformá-la em loureiro para que fugisse dos encantos aborrecedores de Apolo. Virou planta robusta e cheia de folhas, com copa abobadada verde e viçosa, farfalhando lentamente nas brisas que acariciavam também o velho patriarca caudaloso.

Dafne que sempre fora planta, floresta e bicho, estava mais feliz árvore estática que caçadora veloz. Era agora de paz, sem as súplicas apaixonadas do deus perseguidor. Ele, entretanto, ainda vinha vez ou outra. Sentava-se na sua sombra e encostava-se em seu tronco, cantava belas canções de harpa na mão ou declamava poemas-feitiços para trazê-la de volta às belas curvas. Ela continuava indiferente, como sempre fora, até que um dia ele se foi. Apolo cansou de cantar e recitar, de esperar e desejar. Passou ali a primavera, compondo lindas paisagens bucólicas com sua presença divina cheia de beleza, mas sumiu nos dias quentes de verão.

Estes dias foram os melhores, cheios da calmaria dos campos e do frescor das águas mornas, mas passaram. Foram-se tão rápidos quanto chegaram, esquivando-se entre amantes que ali passavam e deixavam seus sorrisos, carregados nos animais que bebiam da água do rio e se deitavam na sombra do loureiro para longos sonos saciados pela última refeição. O outono chegou. 

Peleu já não era companhia. O rio tinha águas murmurantes que irritavam por não se calarem um minuto. As folhas da imensa abóbada verde perderam o viço, escureceram e secaram. Aos poucos caíram em quedas suaves, quase danças, com todos aqueles rodopios e suavidades. Eram folhas amareladas e quebradiças, suicidando-se de galhos feios e deformados. Dafne se viu nua. Era só galhos retorcidos que se esticavam para tocar o nada. O chão ao seu redor não tinha mais sombras, apenas um vasto tapete sem vida, de sons duros e toque grosseiro. Em meio à dor de ser apenas o resto do que fora um dia, ela olhou para baixo e viu que as folhas precipitadas se moviam devagar.

Pouco a pouco se juntaram. Fizeram um monte pequeno, repletos de estalos e arranhados, deixando subir o cheiro de outono que tinham. Folhas velhas e mortas que, juntas, ganhavam vida. Uma vida pequena e frágil. Formou-se um corpo de mulher, todo feito de folhas de outono. Uma dama amarelo escuro, de saia rodada, com movimentos comedidos. Dafne dera a luz a uma mulher de folhas secas.

Ficou feliz por vê-la andar nos primeiros passos cautelosos, pois sua cria era tudo que ela sempre quisera ser. Era meio bicho, meio planta, natureza humana livre para espalhar-se com o vento e reunir-se planando nas brisas da madrugada. Chamou-a de filha em pensamento, disse que a amava com os lábios que não mais tinha.

A mulher recém-formada seguiu pelo campo sem olhar para trás, quebrava-se a cada novo passo. A mãe de longe ouvia suas folhas quebradiças e temia por sua fragilidade. Quis gritar para que voltasse. Seria mais seguro tê-la por perto, pois o campo, o vento e as chuvas a quebrariam por inteiro. A bela dama de estalos no andar seguiu seu caminho, perdeu-se em parte numa lufada de vento que chegou de repente. Voou em outra. Quebrava-se e voava, mas ia em frente. Deu poucos passos até que tivesse se desfeito por completo. Virou folhas avulsas voando pelo campo afora ou espalhadas em pedaços pelo chão. Dafne não lamentou. Sua cria tinha sido tudo que nascera para ser.

Nua e sem as folhas da beleza de sua juventude, a velha árvore esperou. Haveria um inverno à frente, mas de certo também outras primaveras. Talvez voltassem as folhas, talvez o fizesse também Apolo. Viveu, então, na esperança de ser de novo e de ter mais uma vez.

5 comentários

  1. Não sei se dom, talento ou pura força de vontade, mas suas palavras soam como a mais doce musica aos meus ouvidos, cada frase completando um pouco de mim e desenhando meu passado presente e futuro. Não precisa ler minha mente, ou minha não. Em poucos versos lê a minha alma.
    Amei o texto ❤ Parabéns..

  2. “Em meio à dor de ser apenas o resto do que fora um dia, ela olhou para baixo e viu que as folhas precipitadas se moviam devagar”
    “A bela dama de estalos no andar seguiu seu caminho, perdeu-se em parte numa lufada de vento que chegou de repente. Voou em outra. Quebrava-se e voava, mas ia em frente. Deu poucos passos até que tivesse se desfeito por completo. Virou folhas avulsas voando pelo campo afora ou espalhadas em pedaços pelo chão. Dafne não lamentou. Sua cria tinha sido tudo que nascera para ser.”

    Esses dois trechos foram os que mais me tocaram. É difícil dizer o porque mas de certa forma é possível que imagine… Eu me pergunto como consegue rs;;; tens um dom e teu dom me toca profundamente. é um privilégio poder ler seus textos e me senti, me enxergar neles… :3

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