Mês: setembro 2014

Apócrifo

Meu Deus não aceita cartão de crédito, nem de débito, e vê no dízimo o simples valor do ajudar o próximo, independente da moeda de auxílio. Ele me quer doando tempo, amor, solidariedade e outras coisas que não poderão ser compradas, para que tenha algum valor aquelas que meu dinheiro compra. Não é por Ele, mas por mim e por aqueles que precisam. Sim, eu sou cristão.

Meu Deus não acontece num prédio suntuoso, ou em qualquer casinha que seja. Não é evento nos dias de domingo, na páscoa e no natal. Ele está dentro de mim e ao meu redor, sendo parte dos meus erros e acertos, ouvindo tudo que tenho a dizer e não apenas aquilo que falo quando fecho os olhos. Meu Deus me quer em oração para que eu o perceba, e não o inverso. De tudo sabe antes que eu o diga, mas me quer dizendo. Não é por Ele, mas por mim. Sim, eu sou cristão.

Meu Deus comanda todo o universo e orquestra a dança dos planetas, criou o infinito e o tem nas mãos, e vê pecado como o mal dentro de nós que nos afasta de sua essência criadora e pura. Pecados que não se comparam entre maiores e menores, que pertencem a sociedades distintas e tempos diversos. Meu Deus não é ignorante, e sabe o que é cultura. Não mede os pecados de dois mil anos atrás como os mede hoje, porque é um Deus vivo e que existe hoje. Ele não parou no tempo, pois o próprio tempo é um de seus grandes feitos. Ele vê os erros cometidos e os intencionados e sabe que a noção de pecado não existe para que busquemos uma santidade surreal do não pecar jamais, mas apenas para que saibamos que nunca seremos perfeitos, por haver em nós uma mácula irremovível que só Ele é capaz de limpar. Sim, eu sou cristão.

Meu Deus não cria guerras nem patrocina o ódio, seja contra gays, prostitutas ou membros de religiões. Ele mandou seu filho andar com todos os excluídos e pecadores, indo ao templo dos homens poucas vezes, apenas para ensinar, corrigir e protestar. Nem quando encarnado foi, limitou-se às paredes erigidas: falou a céu aberto, andando sobre terra e água, sob sol e lua. Chamou de hipócritas os que vivem uma religiosidade falsa, cheia de dogmas e repetições automáticas de credo, rechaçou a fé burra e fez pensar sobre um novo estilo de vida. Meu Deus não trouxe uma religião, trouxe uma filosofia. Meu Deus existe em essência no coração de quem crê e pode se chamar de vários nomes que brotam na história da humanidade, sendo sempre parido pelo bem e a compaixão, ensinando-nos a viver melhor e ajudar o próximo, a termos com o divino uma ligação de reverência. Sim, eu sou cristão.

Meu Deus me dá liberdade e não grilhões. Meu Deus me faz feliz e não refém abatido. Meu Deus pagou o preço para que eu vivesse em abundância e não restrito a míseras gotas de sobrevivência. Ele é maior que minha sociedade e minhas décadas de vida, maior que o tempo do universo, maior que as religiões. Sim, eu sou cristão, mas compreendo, enfim, que meu Deus não.

Pode ser

Pode ser que você seja o que tanto me faltava, que tenha em si a música que não ouço dos lábios que já beijei. Pode ser que eu encontre nos seus olhos a lascívia e a ternura em carícias dúbias, sem entender ao certo quem comanda quem. Sua pele, talvez, tenha o cheiro que preciso e o suor que me embebeda, tenha o toque de águas mornas no dia frio e o frescor das cascatas nos dias quentes. É possível que seja você o palpitar no meu peito, que virá de repente, arrancando um sorriso discreto que nem sequer perceberá que existe. Você pode ser minha infância brindada, meu amor de uma vida, as minhas melhores noites e a completude do meu corpo. Pode ser que haja algo na sua fala, quando eu de fato escutá-la, que me venha como veludo ao toque das orelhas, que me cate na alma um prazer puro do momento vivido como se fosse ele um lapso de eternidade que os segundos aprisionaram. Pode ser você, enfim, minha salvação renovada e as cores que me fugiram. Um caminho aberto na mata. Uma chance de chegar onde devo.

Eu também posso ser, de igual forma, aquele que te liberta. Posso ser janela escancarada da casa que te aprisiona, aguardando um voo livre e lindo sobre o resto da humanidade. Posso ser a sua chance de ser tudo que se quis, de amar amor de filmes e vivê-lo até o fim. Talvez te faça criar sonhos, dos mais variados tipos. Eu posso ser aquele da saúde e da doença, da riqueza e da pobreza, a balança dos seus paradoxos. Posso ser aquele que vai entender suas mais estranhas contradições e antever suas palavras. Aquele que lê um olhar de longos textos e cujo silêncio não te incomoda. Ser o cheiro entre as camisas que subirá das suas gavetas, ser a voz que fala alguma frase qualquer na sua mente um segundo antes do sono chegar. Posso ser aquele riso que fica impresso na memória, como referência de felicidade. Uma chance da vida fazer sentido. Um vício que só te fará bem.

Você braços e pernas, eu olhos e boca. Você céu e nuvens, eu terra e mar. Podemos ser um todo inseparável, como metais depois da forja que são uma coisa só sem deixarem de ser dois. Podemos ser um belo livro, que todos lerão em suspiros invejosos. Ser música que faz arder no peito alheio a paixão que nos foi dada. Podemos ser eternos em uma vida, construindo o infinito em laços pelos beijos que nos daremos. Então seremos deuses encarnados, vivendo tudo que é mais sublime, embriagando-nos do divino por termos achado a fórmula simples de não conhecer o fim. Podemos ser a certeza do pra sempre, contra todos os amores finitos que já vivemos.

Também podemos ser um grande nada. Dois estranhos somente, que não pensaram em ser mais. Dois pedaços displicentes que seguiram incompletos. Dois esperançosos de encontrar, um dia, o que já não poderão.

Resposta

Vai e gasta teus odores para além das terras onde habito! Derrama teus suores noutro corpo, como o faz qualquer puta mal paga, e geme falsa sob outro peito. Vai e convence mais um com teus encantos, de teu amor vil prostituído, lançando aos ouvidos do próximo imbecil as palavras que geraste para mim. Fala com a eloquência que te dei, para teres menos óbvia a pequenez que te é latente. Faz da noite de teu gozo arfante o grande palco que lhe é de direito e, por favor, grita como se te fosse o parto! Para que te lance alguma dificuldade o ato já banal de fingir.

Roça-lhe os pelos com os dedos suaves, arrancando da pele arrepios que eu gostava de ter. Passa tua língua por ele como passou por mim, desbravando poros ouriçados e despertando nele a virilidade. Sê também a devassa que costumavas ser nas noites de vinho, aquela que destilava veneno sobre tudo e todos como a pior das cobras peçonhentas. Pula a fase da menina pudica e sê logo a meretriz de sempre! Vamos, joga fora a capa de santidade e sê logo aquela que conheci ao final de longos anos. Pouparás a ele um bom tempo de presentes e discursos de fidelidade… E convenhamos, falas estas que nem tu toleras mais. Sê puta! Que é o que nascestes para ser. És pura vocação para o pecado e para o prazer, para o escatológico até.

Quando por fim te vires só, nos lençóis sujos que provocaste, lembra-te de todos que por ti passaram e de como nenhum ficou. Do outro lado do mundo, sorrindo com outra qualquer, eu brindarei essa lembrança e rirei ao teu ouvido, com o escárnio de quem cospe no podre, de quem se enoja do imundo. Direi, então, sussurrando: “Fala agora que és mais forte”.

Falarei.

Sou mais forte hoje do que jamais fui. Sou mais puta e mais dama, porque soube crescer com meus desejos. Não sou mais sua boneca de luxo, nem seu brinquedo pras noites de vontades. Sou o que eu bem quiser e sou feliz com isso. Sou contrária à sua voz, a toda sua formalidade, à sua gramática. Sou hoje mais do que fui com você, em todos os aspectos. Me deito com quem quero e com eles me troco e me dispo, com eles me misturo e saio outra. Deixo peles velhas e crio novas. Cobra, sim. Sou tudo que eu puder ser, com todos que me quiserem.

Faço meu hall de casos, onde exponho todas as transas delicadas e também as ensandecidas. Tenho muito pra contar e pouco a esconder, vivendo a vida que você sempre quis e não conseguiu levar. Falso moralista que é. Porque aprendi que sirvo a mim mesma e sou múltipla de mim. Quando vier sua voz, me sussurrar asneiras como sempre fez, vou sorrir ainda mais. Quando vier você, com seu escárnio transcontinental, vai ouvir em alto e bom som, meu último “vá se foder”.