Apócrifo

Meu Deus não aceita cartão de crédito, nem de débito, e vê no dízimo o simples valor do ajudar o próximo, independente da moeda de auxílio. Ele me quer doando tempo, amor, solidariedade e outras coisas que não poderão ser compradas, para que tenha algum valor aquelas que meu dinheiro compra. Não é por Ele, mas por mim e por aqueles que precisam. Sim, eu sou cristão.

Meu Deus não acontece num prédio suntuoso, ou em qualquer casinha que seja. Não é evento nos dias de domingo, na páscoa e no natal. Ele está dentro de mim e ao meu redor, sendo parte dos meus erros e acertos, ouvindo tudo que tenho a dizer e não apenas aquilo que falo quando fecho os olhos. Meu Deus me quer em oração para que eu o perceba, e não o inverso. De tudo sabe antes que eu o diga, mas me quer dizendo. Não é por Ele, mas por mim. Sim, eu sou cristão.

Meu Deus comanda todo o universo e orquestra a dança dos planetas, criou o infinito e o tem nas mãos, e vê pecado como o mal dentro de nós que nos afasta de sua essência criadora e pura. Pecados que não se comparam entre maiores e menores, que pertencem a sociedades distintas e tempos diversos. Meu Deus não é ignorante, e sabe o que é cultura. Não mede os pecados de dois mil anos atrás como os mede hoje, porque é um Deus vivo e que existe hoje. Ele não parou no tempo, pois o próprio tempo é um de seus grandes feitos. Ele vê os erros cometidos e os intencionados e sabe que a noção de pecado não existe para que busquemos uma santidade surreal do não pecar jamais, mas apenas para que saibamos que nunca seremos perfeitos, por haver em nós uma mácula irremovível que só Ele é capaz de limpar. Sim, eu sou cristão.

Meu Deus não cria guerras nem patrocina o ódio, seja contra gays, prostitutas ou membros de religiões. Ele mandou seu filho andar com todos os excluídos e pecadores, indo ao templo dos homens poucas vezes, apenas para ensinar, corrigir e protestar. Nem quando encarnado foi, limitou-se às paredes erigidas: falou a céu aberto, andando sobre terra e água, sob sol e lua. Chamou de hipócritas os que vivem uma religiosidade falsa, cheia de dogmas e repetições automáticas de credo, rechaçou a fé burra e fez pensar sobre um novo estilo de vida. Meu Deus não trouxe uma religião, trouxe uma filosofia. Meu Deus existe em essência no coração de quem crê e pode se chamar de vários nomes que brotam na história da humanidade, sendo sempre parido pelo bem e a compaixão, ensinando-nos a viver melhor e ajudar o próximo, a termos com o divino uma ligação de reverência. Sim, eu sou cristão.

Meu Deus me dá liberdade e não grilhões. Meu Deus me faz feliz e não refém abatido. Meu Deus pagou o preço para que eu vivesse em abundância e não restrito a míseras gotas de sobrevivência. Ele é maior que minha sociedade e minhas décadas de vida, maior que o tempo do universo, maior que as religiões. Sim, eu sou cristão, mas compreendo, enfim, que meu Deus não.

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