O caminho no monte

Amor, a beleza vai morrendo tão depressa… Evaporam da pele o viço e a seda, sobrando sobre ela as rugas com seus sulcos indiscretos. A juventude não dura, sai do corpo e entra na alma como água de chuva torrencial que chega feroz e acomoda-se sob a terra. Seremos sempre jovens cá dentro do peito, apesar de nossos corpos gritarem ao espelho uma outra visão. Os anos trazem as enfermidades e os medos, não só as responsabilidades. O ser imortal que éramos aos quinze anos começa a temer a morte que acena no sopé do monte que subimos. Está lá embaixo aguardando nossa descida lenta, desgostosa, na tristeza de quem subiu a montanha, viu o horizonte se descortinar num lindo pôr-do-sol e agora tem que voltar a ver as pedras. Nós julgamos que, ao chegar no topo, voaríamos para ares longínquos, mas foi lá que nos certificamos que não temos asas e só nos resta a descida para o vale.

Lembra que nos prometeram, nos primeiros raios de sol, que teríamos um tesouro no fim? Lembra que acreditamos no baú inverso de Pandora, que aprisionaria para nossas vidas todas as bênçãos dos deuses e as mais lindas canções? Lembra que era sem limites tudo que poderíamos fazer ao final da jornada e que seríamos coroados pela mais bela trajetória de sucesso e conquistas? Amor, estamos voltando para casa e sequer temos as moedas de Caronte. Voltando soma de vontades não realizadas e sorrisos não previstos. Tudo que planejamos ser, não somos. Aquilo que queríamos ter, não temos. No entanto, amor, éramos no início imaturos e desejamos mal.

O tesouro que nos foi dado foi maior, porque não se pesa em balanças nem cabe em baús mitológicos. Os passos dados não valiam moedas, o foco não eram as conquistas, e mudou-se o que entendemos por sucesso. Amor, desçamos. Pé após pé, na direção do barqueiro, cientes que nós fomos horizonte, fomos o pôr-do-sol. Desçamos a montanha com a alegria de quem pôde subi-la. Sejamos o tesouro. Foi por isso que subimos com dois corpos e desceremos como um. O monte segue lá embaixo e nos apossaremos do caminho, pois já brilha virtuoso em suas curvas e pedrinhas.

A beleza que se foi na mocidade agora é brilho fosco e inútil. Foi tentativa valorosa e fracassada do corpo de não ser matéria. Evanesceu-se para seu lugar de origem, deixando a carne ser apenas carne em todas as suas falhas e fraquezas. Desçamos o caminho depressa, então, pois do outro lado do rio encontra-se a terra da beleza desatrelada do tempo, onde o belo é perene e a velhice é dor do parto. Nós, gestação dolorosa, nasceremos do monte ainda sem as asas, mas saciados de horizontes. Famintos, ainda, do leite materno de montanhas maiores e de voos ainda mais altos.

4 comentários

  1. Lindo texto Nathan, o pensamento sóbrio ou não acerca do que acontece com o que o tempo nos trás, ser aceito assim, como um encontro de velhos amigos, talvez seja algo que eu não tenha capacidade de fazer, mas que outros são felizes em ter.

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