Campina

Meu lugar que se desenha sobre o alto da serra, é também uma rainha coroada de ouro branco. Ela é mãe de peões e reis, parida em feiras de outrora, nasceu já sendo encontro e trabalho, suor e conquista. Campina dos tropeiros, vasto campo de boa terra que se cobre de neblina nas madrugadas de inverno, terra que me fez brotar gente e que me guardará de volta.

Terra do Açude Velho e suas garças discretas, cujo farfalhar das palmeiras saúda cada novo dia ao vê-lo refletindo, narcisista, sobre as águas. Terra do friozinho bom, que corta a fumaça das fogueiras juninas com uma lufada de cheiro de chuva, sempre ao som de fogos de artifício ou de um forró distante. Lugar que chamo meu, de tantas histórias já vividas, de tantos recantos encrustados de momentos. Lugar de contrastes que vão do balaio na cabeça ao centro tecnológico, como se um enorme baú fosse, misturando o novo e o antigo, o sertão e o litoral. Campina que segue com o mundo, mas ainda puxa a cadeira para a calçada. Minha Pasárgada de todos os reis, que tem palmeiras onde canto, onde sou sabiá.

Minha terra de criança, onde os monstros existiram, onde o beijo assustava. Foi colégio e foi amigos, foi o cheiro do café da avó. Minha terra foi família, foi encontro de amantes. Foi nas esquinas e ruas uma tela em branco para a vida que desenhei, foi mais que espaço: foi tempo. Meu lugar de faces e toques, das lembranças que hoje me escapam. Lá entre os tijolos e muros, das velhas casas que resistem, estão os sons que ouvimos juntos e dos quais ninguém mais lembra. Estão lá no asfalto, caídas entre os paralelepípedos as fúrias da infância e as revoltas da adolescência. Campina, você sou eu, espalhado pelas ruas como rastro de perfume, como essência que se vai largando.

Quem te viu e quem te vê, reconhece a realeza. Quero rever os antigos eus, os tantos que criei para te encher as calçadas e as casas; aqueles de mim que gerei para te ser cidadão. Campina, minha rainha, soma das histórias que me construíram, somos plantação de raiz fincada, que a chuva não carrega, mas só faz crescer.

Campina, não é preciso dizer aqui teu sobrenome, como tantos já fizeram, pois o sinto na alma sem que se verbalize. Meu lugar e minha terra, pedaço expandido da minha alma, a majestade que era antes e seguirá depois de mim. Brindemos o reinado de tantas primaveras, a soma de tantos verões e invernos, sejamos sempre um pedaço de Campina no mundo, porque o mundo para nós, é campina.

Homenagem aos 150 anos de Campina Grande, PB.

6 comentários

  1. Você Natan, é um filho que Campina se orgulha de ter! Linda homenagem, expressa do fundo do coração de quem ama sua cidade.

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