O espinho e a rosa do ramalhete de ventos

Quando se mora no tornado, no olho do furacão, veem-se de perto as paredes de ventos fortes e os destroços que rodopiam violentos. Trata-se de um cone de ar feroz, que urra brutalmente. Se estico as mãos ele me leva, faz-me subir aos céus em pancadas devastadoras, mata-me de súbito. Se paro no meu lugar, igualmente me toma e me consome, como se casa de madeiras frágeis eu fosse, quebradiço como folhas de outono largadas no chão. Devo andar com meu tornado, cuidando para que não me destrua, sabendo não tocá-lo, sendo também seu companheiro.

O tornado é meu. Criei-o numa manhã de domingo, quando me vi gente. Sou-lhe rei, assim como ele é o meu. Já não me passa na cabeça se estou nele preso ou nele protegido, mas sei que me cerca e me livra do mundo lá fora. Ora ele me é cela, ora trono. Os que de fora me observam veem somente o tubo de ar enfurecido que serpenteia nas campinas, que destrói e arremessa, que risca as plantações e deixa desabrigados. Somos força da natureza que devasta e renova, mas para todo o mundo, somos só tornado. Aqui dentro, no entanto, há um ser humano preso.

Juntos cavalgaremos para o leste e patinaremos no oceano. Tentarei afundar e fugir, nadando para longe com o fôlego que me for dado, mas sei que ele me puxará mais alto, lavar-me-á com suavidade e me devolverá à terra. O tornado que destrói também me cuida, acalenta. Seu uivo aterrador, por vezes, me serve de canção de ninar. Ele é forte e é meu, assim como sou dele. Caminhamos para o precipício e lá também enxergo meu fim, calculando minha queda e minha morte certa, mas ele, como sempre, não permite que eu me vá. O abismo me faz subir. O tornado é tanto fúria quanto compaixão e cá estamos os dois unidos, devastando e renovando, fazendo e esperando.

Eu passarei pelos campos e desfiladeiros, pelo mar enfurecido, mas a tormenta que me acompanha será morte lá fora, não aqui. Cruzaremos a guerra e as cidades, fortalezas de pedra. Irei em direção ao fim quantas vezes ele me acenar ao longe, mas há no tornado um vento forte que me afasta das conclusões e me lança a recomeços. Esse céu que desce serpente, lambendo as trincheiras que miram no meu peito, é o mesmo que todos temem com suas nuvens negras e pesadas e que para mim se abre lá em cima, como um pequeno círculo azul e brilhante de um dia lindo inalcançável.

Um dia, entretanto, a luta acaba, as nuvens se desfazem, os ventos cessam, e o tornado se recolhe novamente para dentro de mim. Um dia ele será invisível a todos, embora, ao menor cintilar de perigo, eu saiba que ele voltará a brotar, puxando o céu para a terra e me guardando em seu seio. Então verei novamente o espinho e a rosa do ramalhete de ventos, serei seiva bruta que o alimenta, seu protegido e torturado, feliz por ser, eu mesmo, o olho do furacão.

2 comentários

  1. Muito legal o texto Nathan, me fez pensar principalmente nas situações que me cercam atualmente, como as vezes esses sentimentos me parecem dolorosos que tristes me ajudam a seguir em frente, a me tornar mais forte.
    E tu vai achar muito louco isso, mas uns dois dias atrás tive um sonho que você estava nele, foi triste na verdade e até fiquei preocupada contigo, não sei se significa algo preocupante, mas espero que não.

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