Maldito perfeito

Sedento dos humores do corpo, aquele que digere a bílis negra e a amarela, a fleuma e o sangue. Ele é alma antiga que vaga nas cidades, estripando putas e estuprando as matronas. Tem nos olhos dois demônios de preto, que lhe cavam o espírito em sulcos profundos, fazendo-os vomitar inferno. Ele anda nas sombras que lhe evocam, sob o nome de maldito. Um deus caído que reina no caos, soberano sobre o nada e coroado de morte. No entanto é belo e jovem, pois é faminto de prazeres.

Eternamente um jovenzinho, de corpo atlético e viril. Bebe o sangue em busca de vida e isto lhe afasta da velhice eminente. Bebe fleuma e gozo como quem traga orgasmos, degusta-os em renovo em cada noite promíscua a que se sujeita. Faz brindes da bílis amarela, a cólera, e reserva toda a ira no canto dos lábios, com seu riso torto e inquietante. Tem face de louco.

A sua rotina é pairar pelas calçadas e praças, observando quem carrega a beleza e a juventude para que lhes sugue tudo em dois ou três beijos libidinosos. Tem a barba rala que roça nos pescoços de homens e mulheres arrancando deles o espírito arfante.  Toque de veludo nos dedos, embora as lâminas de suas unhas tracem rastros nas peles delicadas. Ele é o princípio do desejo e o desejo em si, criando ao seu redor um turbilhão de suores com um simples lance de olhar. Bem sabe que atrai a todos, como o lixo atrai as moscas. É o sexo dos sexos, o prazer em carne e pelos, aquele que paira sobre os mortais e sobre eles pisa com desdém. No entanto, tudo o que quer não é do corpo os líquidos diversos, pois quer dele o brilho nos olhos e os cordões de vida que lhes titereiam.

Há fome real da juventude que se vai e se perde, como ninfa suicida que caminha para o penhasco. Uma sede de ser sempre aquele das eras passadas, quando a vida era forte e destemida diante do titã-tempo. Ele fode com donzelas, rasga-as e as devora em meio vislumbre do cosmos e dos seres celestiais. Ele fode com mancebos, penetrando-lhes as vísceras com avidez, enquanto lhes faz transcender ao éter. Rouba-lhes a vida inteira com os dentes. Bebe deles a essência, deixando corpos e restos daqueles que serviram ao seu propósito. Ele será para todo o sempre jovem e belo, atraente de corpo e olhar, um rei de sutil reinado nos templos da noite. Viverá até o dia em que, cansado, vai desejar a velhice e o repouso, mas estes lhe fugirão a todo tempo. Maldito perfeito de traços belíssimos, achará feio ser belo, e não poderá ter fim.

3 comentários

  1. Me deixou realmente intrigada, aquele momento que tento pensar no que iria se referir, penso em coisas obvias até, mas não sei, me vem muitas possibilidades para escolher apenas uma. É aquele texto que terminei e sorri sem saber bem de que, e fiquei curiosa… kkkkkkk

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