Mãe

Soube da gravidez e uma tontura involuntária me fez cambalear. Eu devia ter sorrido, mas parei. Puxei o riso da décima camada dos meus sentimentos e o estiquei sobre a boca, tentando não chorar. Estava acuada, entre a obrigação de ser feliz e o desejo de tirá-lo. Como era possível que aqui dentro alguma coisa estivesse crescendo sem minha autorização? Um outro que começava a me sugar o espírito! Mais um que viria ao mundo me tirar de mim. A barriga que cresceria, o desconforto, o medo de quando ele se mexesse pela primeira vez, tudo era motivo para me jogar no desespero de ser mãe a contragosto. Eu tinha dezessete anos.

Disseram-me que o menino seria um bem precioso, que eu veria a graça de ser mãe já no primeiro chute. Sim, o chute que eu levaria de dentro pra fora, daquele com pernas e braços que se expandia no meu útero como um monstro a devorar-me as entranhas. Como eu o amaria? Teria meus olhos, diziam. “Sua boca, com certeza!”. Nada do pai. Quem era o pai? Eu não o vi, confesso. Não o vi.

Cresceu-me, então, a barriga monstruosa, pois o menino teimou em vir grande. Não bastasse ter vindo, veio filho de algum gigante no alto de seus dois metros e sessenta. Eu era mais barriga que pernas. Andava mal e cansava com qualquer coisa. Havia um peso em mim que me era anexo, qualquer coisa que me fora enxertada e que eu carregava com dores horríveis. Doía-me a coluna e a urina era constante. Nove meses de árduos dias, em uma crescente de incômodo que me fez pensar diversas bobagens.

No final eu chorava todas as noites. Sentia falta de ser mulher. Virei alguma coisa diferente disso, embora próxima. Sim, eu deveria padecer no paraíso, mas padeci em algum canto bem mais abaixo que isso e lá fiquei no limbo. Torcia para que ele saísse de mim, mas ao mesmo tempo temia que me rasgasse de cima a baixo. Eu não queria morrer cortada ao meio, sangrando feito bicho. Sofrer aquelas dores e suores… Seria o pior dia da minha vida. Percebi que meus choros diários eram medo do parto, mas não só disso. Tive medo do rosto que subiria de mim para tomar ar aqui fora, como se de mim revivesse depois de um afogamento imposto, medo que não viesse sequer com meus traços, mas com os de outro que não sei quem é. Eu daria a luz a quem?

Foi então que nasceu um menino, com o rosto enrugado de todos os bebês. Sim, foram minhas piores dores e os gemidos mais sofridos. Foram os meus dentes mais trincados e os suores mais quentes. Saiu de mim a trucidar-me com lâminas e deixou-me um vazio no ventre. Sem ele senti-me oca. Tomei-o nos braços ainda sujo, chorando, e ele me tocou com a mãozinha a ponta do nariz. Silenciou. Parecia dizer-me “obrigado”, ou talvez “desculpe o incômodo”, mas não. Dizia-me, simplesmente, “mãe”. Desde então eu o amei até o fim. Fui mais dele que ele meu. Até o último dia.

2 comentários

  1. Ok, no dia em que um texto teu não for lá nos meus pensamentos mais estranhos, que não me fizer refletir sobre pequenos detalhes que as vezes passam desapercebidos mas que são a causa das minhas muitas decisões…eu vou duvidar que tenha sido você quem escreveu!

    Eu poderia dizer que eu não sei de onde tu tiras tantas coisas, tanta verdade numa situação que nem é tua. Mas eu sei sim de onde isso vem. A tua sensibilidade pra escrever te transforma, sei lá, numa espécie de mago que consegue se transmutar em qualquer ser. E faz SER de verdade. Tocar de verdade!

    Pra alguém que nunca quis ser mãe mas que nunca se perguntou de verdade o porque…foi estranho, muito estranho! E como filha, parar pra pensar se a minha mãe, que me teve tão jovem, sentiu isso tudo…é estranho e se eu continuar escrevendo vai ficar desconexo. xD

    Só tenho a dizer o mesmo de sempre: Parabéns, Sensei! Você é demais! ❤

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