Sr. Tempo

Tempo que corre sem rédeas, sobre a estrada-mundo, navegando universos e catando estrelas com suas mãos de nebulosas. O que você fez em mim? Devo chamá-lo “senhor”, caro tempo? Ou na verdade você ainda tem seus cinco anos, nas medidas do infinito, e sorri ainda de toda a humanidade como criança que cutuca seu formigueiro de estimação? Talvez nem mesmo nos veja, de tão pequenos que somos. Apenas por nós passa, com sua pisada rápida, nos regalando com brisa de eras e sem nos deixar ver, de fato, o que é existir. Tempo, senhor tempo, pare cá um segundo e sente-se na cadeira de balanço. Tome um chá e olhe tudo por um de seus segundos. Veja como crescem as árvores e como os fios de cabelo branco estão aqui surgindo, vagarosos e constantes, a acariciar-me.

Não sei se sente o que sentimos, toda a sensação do fugaz que os momentos nos borrifam. Consegue sentir como é bom alegrar-se de segundos e minutos? Ou o senhor apenas salta eternidades na ânsia de passar à próxima etapa do sem fim? Deixe-me contar tudo que o senhor me deu, por favor, e aquiete-se por um minuto ou dois, pois só tenho poucos anos a relatar em algumas frases.

Fui criança, senhor Tempo, e foi quando o conheci. Confesso que não o julguei bem e até duvidei que existisse. Por alguns anos eu fui o próprio tempo, eterno, e entrei nos mais variados mundos e épocas, através dos brinquedos que me deram. Consegui brincar de ser o que viaja nos séculos. Travei guerras de samurai e vivi com dinossauros, senhor Tempo, por isso sei o que é ser perene. Só quando cresci, me dei conta… o senhor estava passando por mim e, em verdade, talvez nem amigo fosse. Tempo, você me deixou perder a coroa de rei dos milênios, tomou-me a capacidade de pensar na eternidade. De repente virei aquele que só enxerga o fim de tudo, que deduz a inutilidade da vida, aquele que sabe que o seu próprio tempo acaba. O senhor foi cruel ao me dizer, senhor Tempo, que o tempo em mim era brisa fugidia que eu não poderia conter. Senti a dor de ser passageiro, esperando poder, um dia, chamá-lo para esta conversa.

Tempo, lá ao longe vem chegando a geração novata. Peço que vá até eles e os deixe brincar como eu. Deixe-os sem saber. Se te perguntarem sobre o fim, diga-lhes que não existe. Prometa que serão sempre viajantes do tempo. Diga que há monstros e guerreiros de luz, mistérios sob o mar e civilizações sobre as estrelas. Faça o possível, senhor Tempo, para que não percebam o que de fato há: uma terra de vagantes que se lançarão no fosso escuro e sem fundo, andando sem propósito pelo caminho do tempo perdido. Tempo amigo, se puder assim chamá-lo, caso seja possível, devolva-me também a ignorância de sua existência. Deixe-me, pelos anos que me faltam, ser de novo eterno e brincar com dinossauros.

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