Quiromante

A tua linha da vida é um traço suave de quem tem o corpo frágil. Está na palma da tua mão direita, escrita com a clareza dos escribas de outrora e seus pergaminhos. Para mim, portanto, se mostra uma larga estrada de várias décadas vazias. Olhe comigo por um instante: sua linha da vida ainda espera o final do traço. É triste e fraca, como têm sido os seus anos. Quantos anos você tem? Quantos acha que lhe faltam?

Um pouco mais acima, cortando sua mão ao meio, uma longa linha me revela sua mente. Se o corpo é pouco, o pensar é muito. Inteligente, eu diria, mas com o quê se ocupa sua cabeça? Há também aqui a linha do coração, encabulada, que se espalha sobre vários traços embaralhados. Seus amores, perceba, são curtos de estar e eternos do ser. Aninham-se ao longo do traço na palma, como serpentes que juntas se enovelam e devoram umas às outras. Seus amores foram tantos e ainda hoje são muitos, embora nada deles sobre para além da tua mão.

Teu monte de Vênus é suave e alto, o que me embaraça. A lascívia te é irmã nos caminhos dos prazeres. Hedonista de nascença e amante do belo, uma vida que pende na ponte entre os dois lados de um só abismo.

Posso ainda ler-te os dedos, os montes e a forma das mãos, as linhas que fogem para o passado e para o futuro como máquinas do tempo de janelas abertas, deixando correr para dentro e para fora as tuas decisões. Posso, de forma ainda mais eficiente, ler-te as pernas e os pés, a boca e a língua, os pêlos e os poros. Deixa então que eu te aprenda, a cada nova enciclopédia e seus infindos volumes, que seja diplomado na tua ciência particular e entenda os teus cataclismas históricos, tuas revoluções e descobertas.

Quero ler a tua mão como quem leu um prefácio do livro querido, aquele que sempre estará na cabeceira da cama para um afago noturno. Deixa que eu caminhe no teu peito como quem passa pelos corredores de livros, podendo dizer a todos que conheço cada página e, sobretudo, que guardo na minha própria sala os exemplares raros que o público não pode ver.

Deixa que te leia, por quantos anos forem necessários, e que tudo comece aqui, na palma da tua mão.

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