Crônico

O exame veio seco como bala de uma arma calculista que deixa o cano do revólver estático. Estava escrito nas linhas com valores diversos e nomes difíceis: eu estava bem. Saudável de artérias e glóbulos, livre dos males do corpo. O psiquiatra, igualmente seco como a bala do revólver, deu-me veredicto de são.  Era fato que para o mundo, eu estava bem, mas a verdade era o oposto. Peguei derrota enquanto subia a ladeira e peste pior não há. Estou doente de morte sofrida, sentida aqui dentro do peito, como um vírus que se alastra sob a batuta do pessimismo.

A princípio cancelei os planos, por motivos banais ou desculpas, depois se foram os sonhos como fugidos pela janela depois de uma lufada de vento. Peguei então morte, com seus suores e calafrios.  O vírus é letal e se alastra, com a força de um tornado que te revolve a alma e resvala seus destroços nas paredes do corpo. Não houve nada nos exames, repito, mas eu tinha morte e derrota incubados no peito, germinando nas entranhas e reduzindo tudo aqui dentro a um estômago apertado e pulmões de pouco ar.

Peguei a peste daqueles que já a tinham. Da energia negativa que os rondava, sugando-me como vampiros e lacrando minhas perspectivas em um saco preto. Hoje é crônico meu estado, de olhar o mundo em volta e catar nele algum sentido, sem sucesso, de sentir de novo a vida que ainda ontem brincava do meu lado ao alcance de um afago. Portanto, cuidado, meu leitor, com aqueles de aura negra. São vetores, advirto, da pior das moléstias. São aqueles que se desgraçam e arrastam consigo os que se ocupam de vitórias do agora. São bueiros para o esgoto da alma, como finais vivos de uma vida em curso, subjugados para serem menos do que são, sempre encantados com o lixo onde vivem.

Se há em você, leitor, algum brilho de vida ou alegria dos anos de ouro, independente da idade que isto traduza, preserve-se dos maus. Não, não são os maus que cortam cabeças ou queimam crianças, são aqueles aí do lado, que já se decapitaram vivos e matam crianças alheias nos peitos de quem os ouve. Uma vez pegada morte, derrota e toda sorte de negativismos, somos apenas sem sentido, sem amores, sem futuro.

Sei o quanto o texto soa derrotista e de mal gosto, o quão banal soam as palavras. São ecos, porém, do que a alma fala ao ouvido antes de escorregar para dentro. Acredite que há amigos piores que inimigos, que há armas mais letais que a espada, que há tumores inalcançáveis pelos mais sofisticados exames. Corra para os que te dão vida, leitor, e renegue os auto renegados. Há de se sobreviver com um sorriso em um mundo devastado pela praga.

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