Parto

Abro os olhos na aurora e cega-me a luz vindoura. Lá ao longe descortina o sol que me convida e me suga, como um buraco negro de luz clara a tomar goles imensos de mar. Pairo água sobre as ondas, entre barcos e jangadas, boiando sobre o infinito negro das zonas profundas do oceano. Respiro frágil e desconexo, paradoxo diante de tudo: respiro lento e calmo enquanto o mar-cascata rosna um chamado longínquo. Vejo o céu ao alcance das mãos e toco-o por um momento. É gelatina azul de um mundo que julguei grande e que agora se revela curto, miúdo, como se me comprimisse.

Lembro-me da chegada, quando vim correndo pela colina. Eu e mais alguns, que subimos da cidade e resolvemos habitar o campo. Viemos cansados da jornada, com saudades de nosso velho mundo. Demoramos, de fato, e já não contemplamos só os dias, mas também as noites de duras horas. Fomos seguindo pela estrada que não terminava, mesmo em meio à escuridão profunda. Procurávamos o quê? Talvez, sem rumo, corríamos, sabendo que algo viria assim que a estrada acabasse. Guardo no peito a lembrança de quão animador foi correr por uma ilusão, confiar no que estava por trás da montanha, sem jamais saber se existia. Também recordo de quando subimos o grande morro e lá estava, esplendorosa. Uma casa enorme que me arrancou um riso e um tremor, o fascínio e o assombro. Esperei uma tapera ou um bote de madeira velha frente a um lago tranquilo, mas lá estava um suntuoso lar para chamar de meu. Viver como rei, morrer como um deus.

Entrei correndo, arrombando a porta, enquanto outros não vinham. Eu já escutava o murmúrio das multidões se aproximando lá atrás. Era tudo gigantesco, com salões de grandes cortinas e tapetes macios, com móveis de outros séculos e lustres de uma luz tão clara que não parecia iluminar. Tudo era suave e delicado, cheio de requintes nos mínimos detalhes. Corri pelos corredores, dormi em quartos diferentes, explorei cada recanto. Do lado de fora alguns bateram, mas não abri. O palácio era só meu.

Aos poucos tudo aquilo se tornou pequeno. Já não havia novidades, não havia descobertas. Eu conhecia todas as pastilhas do assoalho, cada desenho mínimo nos detalhes do aço das fechaduras. Também cresci e cresci só. O lugar não me agradava mais. Olhei um dia pelas janelas e vi que a casa flutuava no meio do mar… Abri-as, e deixei-me inundar. O oceano entrou pela soleira da porta e pelos vidros que quebrei. Levou-me as cortinas e os tapetes, derrubou-me as paredes. Era melhor ser água infinita que uma mansão lacrada. Flutuei.

Mergulhei quando quis e repousei sobre o colchão das ondas. Assobiei minhas canções e chorei com as estrelas. Hoje, no entanto, continua ali embaixo o sol a me sugar, carregando-me para a luz que brilha cada vez mais forte. Tragado pelo sol, nascerei, temendo o que isso significa. Não quero dar fim a tudo que já passei e esquecer da cidade, da jornada, do palácio. Sinto que a vida continua atrás do sol, embora tenha certeza absoluta que agora é o fim de tudo.

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