Nas brumas do esquecimento

Bem-aventurados os que esquecem, aqueles que caminham nas neblinas dissolvidas da memória como se calculassem cada passo no branco véu das diluições da alma. São anjos que não conhecem a si, que não se lembram dos fracassos. Abençoados sejam os que hoje são fragmentos de uma vida e já não temem a morte, pois dela não recordam mais. Tornaram-se eternos nesses poucos anos que lhes foram dados. Têm a sorte de deixar o mundo aos poucos, talvez por amá-lo demais, talvez por saberem que de outra forma seria mais dolorido.

Eu que tantos fracassos já tive, tantas frustrações, me pego neste desejo insano de querer o esquecimento de tudo que já foi um dia conquista, assim como de tudo que um dia foi derrota. Seria lindo ser eu hoje, sem os eus que me passaram e sem o medo dos que virão. Esquecer as palavras que tanto me atormentam, os amigos que me bateram na face, os amores que me empurraram da ponte. Gostaria de ser um fantasma, que sem sofrimento, sofre, que sem saber, sabe, e que vive sem vida alguma. “E as alegrias?”, dirão na plateia de poucas cadeiras. Perder as alegrias? Sim, perdê-las também numa correnteza brava de esquecimento, como lavado por completo pela ressaca do mar da vida. Zerar-me. Ser limpo como fui no sangue do útero de minha mãe.

Bem-aventurados os que não percebem o tempo e não se frustram com os amados, que não sofrem pelas guerras dentro da alma e pelas batalhas fora dela. Os velhos, talvez, sejam os grandes agraciados com o maravilhoso presente divino. Deus, ao que parece, olhou-os com amor e sorriu ao abrir-lhes as comportas da memória. Sim, meu querido, esqueça as dores do corpo cansado e dos filhos que foram para longe. Esqueça os anos que se findam e a morte que já vem. Esqueça tudo que queria ter feito, e não fez. Apague-se, lento, antes que te feche os olhos enrugados. Porque a memória traz à tona tantas dores e sufocos, tanto tempo que já não se pega nas mãos… E sim, há muito enfado quando se sabe demais, pois a esperança definha como a rosa não regada, murcha para ser reflexo sujo do que já foi.

Abençoados, felizes e eternos são os que não sabem mais. Foram para a terra incólume dos sonhos de infância. Sararam os cortes e feridas com unguento de Narciso, sendo só e só sendo: bravas almas que se admiram sozinhas na lâmina d’água, até o mergulho final.

O mundo precisa de história, não eu. Eu preciso ser apenas página em branco no livro que a morte carrega. Passar daqui para o outro lado sem saber, num passo em falso que resvala meu ser do corpo preso para a alma liberta. Vagar, sem medo, nas brumas do esquecimento. Preciso ter na memória, tão somente, a ciência de que não sei.

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