Para uma criança

Eu gosto de quem você não gosta, criança. Sou dos que andam com prostitutas e dorme na casa daquele drogadinho da praça. Realmente me agrada andar com aquele que você chama de bichinha, sim aquele que você diz não ter nada contra, contanto que não lhe toque. Aquele presidiário que matou mais de três, ele sabe ser mais humano que você, que já flutua em vestes brancas. Aquele pedófilo execrável que todos querem apedrejar, criança, eu o abracei hoje de manhã enquanto você abraçava um dos seus três travesseiros.

Preciso dizer que eu gosto desses? Esses que sabem das suas fraquezas. São humanos, criança. Eu não ando por aí procurando o seu templo de luzes coloridas, nem espero você ajoelhar para colocar o ouvido próximo à sua boca. Criança, eu não sou o que você me fez. Estou abaixo do pedestal em que você se ajoelha, porque eu ando por aí procurando gente de carne e osso, de problemas pulsantes e dores lancinantes. Gente que vai me olhar nos olhos e dizer: “eu não sou quem você quer”, mas são.

Criança, não me importa se você reza ou ora, como foi batizado, que ritos segue, ou mesmo se você me dá um nome ou outro. Aprenda, de uma vez por todas, eu sou maior que isso. Eu não fundei uma instituição, eu quebrei-as todas. Levante-se, agora, e entenda que eu te dei a vida de todos os seres e o perdão de todos os erros. Meu pequeno, vem cá que te ensino que aqueles que você apedreja, poupei-os todos. Eu fui cordeiro e leão, começo e fim, alegria e dor, porque não há nada que eu não conheça, não há um só que eu não acolha, não há aquele que me chame que eu não atenda. Aprenda, criança, que eu não caibo no seu templo nem me traduzo por completo no seu livro de leis e limites. Sou uma janela para o horizonte e você só enxerga a moldura.

Meu pequeno, eu te abri os braços um dia, e continuo a abri-los hoje. Eu não te perguntei o que você fez de errado, eu não te coloquei condições. Entenda, criança, e o resto é reboliço fútil sobre o tempo e o templo dos entendidos, como maré que se repete sem entender que segue ordens da lua. Há mais a se contemplar abaixo das ondas, criança, ou acima dos céus. Há em mim uma forma de ver a vida, não uma vida presa a meras formas de ver.

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