Geração “eu mereço”

Eu mereço o carro do comercial e o apartamento da revista. Mereço o hospital novo e limpo, com médicos à minha disposição durante vinte e quatro horas por dia (sem filas). Mereço, inclusive, que seja atendido primeiro quando tiver minha crise de amigdalas e que se foda o senhorzinho corcunda com cara de quem já morreu. Mereço a universidade gratuita com tecnologia de ponta e professores capacitados, pós-doutores, em aulas dinâmicas, com ferramentas didáticas modernas e um ar-condicionado que funcione. Mereço ser feliz e saudável, comer tudo do bom e do melhor. Mereço um governo justo e transparente, sem corrupção, porque sou o futuro do Brasil. Mereço não receber palmadas dos meus pais na infância quando fizer algo errado e ser respeitado em meus gostos e vontades. Mereço tudo que meu dinheiro pode comprar e que tudo se possa comprar com meu dinheiro, e se um dia não tiver minhas reservas, mereço tudo que o governo deve me dar.

Mereço marchar pela rua com a cara pintada de verde e amarelo e protestar fechando estradas! Eu sou o futuro do Brasil e sou politizado! Eu sei usar o youtube e o facebook, as urnas eleitorais do século XXI, porque é na internet que o país começa a melhorar, terminando no asfalto ao som do hino nacional gritado. Eu não nasci para ser vítima de nada nem ninguém, sou o melhor e o mais forte! Sou merecedor de todos os sucessos e conquistas! Sim, eu sou um quase-deus e que Deus me ouça! Mereço ser venerado e servido, ser curtido e seguido, ser visto! Sou um quase-artista que faz do discurso inflamado meu palco de peripécias, um sobrevivente que deseja seu comentário, que quer caminhar na sua boca e saltar de fala em fala. Eu mereço ser um ídolo!

Foi-se o tempo em que era preciso se submeter às regras dos fracassados. Hoje todos somos o último nível da evolução. Podemos sim julgar os não civilizados, os pobres miseráveis sem instrução, lutar para que a vida deles seja melhor (depois que a nossa for perfeita). Hoje eu quero que me lavem os pés e morram por mim, porque eu mereço. Sirva-me, sistema! Ponha-me à mesa, governo, tudo que eu devo ter. Estou aqui empanzinado da última refeição, ansioso pela próxima, faminto do melhor. Sirva-me, humanidade e deuses de todas as eras! Eu sou mais do que eu mesmo. Um eu inflado de toda realeza, um sangue que de tão azul arroxeou. Eu mereço todas as vitórias e as glórias do por vir! Porque não posso ter menos que ninguém.

Se algo de menor existe, um traço de inferior qualidade no que me é oferecido, vou lutar para mudá-lo! Só peço que não me cobrem nada por isso: nem juros, nem suor, nem sangue. Darei, de bom grado, minhas palavras de revolta (que serão suficientes). Sirvam-me, escravos, sirvam-me! Sim, eu mereço ter escravos.

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