O mutilador

Tinha o nariz adunco e um queixo retraído que faziam seu olhar se esconder por baixo das sobrancelhas pesadas. Olhava todos com um ar de deboche e um riso diabólico, embora de cabeça baixa. O mutilador era magro e baixo, quase envergado na postura. Usava um casaco jeans de manga comprida, bem surrado e sujo, e uma calça de linho bege igualmente gasta. A camisa guardada pelo casaco mudava sempre, o resto não. O homem era um mosaico de lixo. Corrente de barbante com penduricalhos das sarjetas, bolsos cheios de artefatos da banalidade, chinelos de pares desiguais. Seu cabelo mal cuidado de fios brancos não ajudava. Ver o mutilador andar era ter a visão de um demônio errante pelas sombras da noite. Do tipo que se vê e se antecipa a passagem para a outra calçada ou se dá meia-volta a passos covardes e rápidos. Não era preconceito pela figura, era precaução.

Ganhou o nome há cerca de dez anos, quando fugiu da primeira detenção. Para ser livre matou um guarda durante a fuga planejada. Matou não, partiu-lhe os membros. Não precisava daquilo, mas se viu diante do defunto que jorrava sangue em cascata até que uma poça vermelha desenhasse no chão um lago rubro espelhado. O cheiro do sangue e a cor lhe atiçaram os instintos como pano que balança para o touro. Partiu feroz para o que sobrou do homem e, usando ferramentas de uma caixa, torou-lhe o que podia. Chaves de fenda e chaves inglesas partiam e furavam, fendiam e rasgavam. O resultado era carne estilhaçada e músculos desfiados. O mutilador estava vermelho e úmido. Um espectro de sangue com olhos bem abertos e loucos. Uma respiração ofegante de quem fora tomado pela fúria.

Depois dali profissionalizou-se. Comprou facas e lâminas variadas. Andou pela cidade procurando seus mendigos e putas, levando-os com promessas de trocados ou refeições. Sedava-os depois de algumas risadas tensas em seu quartinho escuro de uma única lâmpada incandescente. Degolava-os como se faz às galinhas, para que a mutilação não desse trabalho. Na estante, guardava em potes de vidro os olhos. Pareciam cachos de uvas brancas a observar o ambiente nefasto, virados para todos os lados, em todos os ângulos. Gostava de ver ali o olho de Deus, que tudo vê. Na mesa de jantar, um cesto de dedos, como iguarias para uma visita faminta. Dedos roliços que, amontoados, lembravam salsichas com sua cor arroxeada. Línguas, braços, orelhas e couros cabeludos. Tudo tinha seu lugar na casa miúda e mal cheirosa. O mutilador tinha uma legião de amantes e admiradores, cada um com seu momento final de agonia. Eram coleção de histórias já vividas, partes de alguns sem nome que o faziam sentir o próprio corpo como um quebra-cabeça bem montado, erguido e coeso. Mover-se lá dentro era sentir que se era partes, unidas num todo que funcionava.

No velho cofre de ferro, no entanto, protegido por senha de idas e voltas na roleta de metal, guardava os corações e os cérebros de quem matava. Ali sim, havia alguma magia. Enfiar as mãos no poço de corações era sentir as almas oscilando no muco, embebidas daquele sangue-gelatina, daquele frio molhado. Os cérebros também tinham seu encanto sobrenatural. Tocá-los dava arrepios, ou choques, porque cintilavam a vida dos corpos. Cérebro e coração, percebeu, era só disso que precisava.

Outro dia deixou sua casa e partiu para foder algumas putas. Tentara três ao mesmo tempo, mas conseguira duas. Tivera a noite de relaxamento que planejara há semanas com as economias dos assaltos. Não iria matá-las, apenas gozar delas com ameaças e nelas com seu desejo. Deixou-as correr com duas notas cada, nuas, pelo beco escuro da pensão de outras noites. Voltou para casa e respirou fundo. O cheiro da morte que lhe dava vida. Inalou o medo de seu altar de Hades e sentou-se no trono que chamava cama. Encarou o cofre antigo aberto.

Abriram o cofre?

Deu por si de olhos esbugalhados e boca entreaberta. Surpreso com a audácia do ladrão. Roubou-lhe os cérebros e corações que ele com tanto esforço tomara para si. Quem sabia a senha além dele? Por que fariam uma maldade dessas? Levar o trabalho de uma vida, que de nada serviria a alguém. Serviam para ele, faziam sentido para ele, davam-no a sensação de ser um só de várias partes coaguladas, detentor de uma vida que estava além da carne. Agora, sem todos os corações que acumulou e sem os cérebros que conheceu, sentiu-se só uma peça desgarrada. Não mais um conjunto, uma peça. Era vazio de passado e de histórias, das vidas que ceifou.

Abriram o cofre.

Deu-se conta de que o levaram embora. Porque tudo que ele era estava ali e já não era nada sozinho.

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