Acerca das incógnitas

É que o mundo tem seus mistérios que insistimos em desmontar. Queremos quebrar as partes, entender, provar o que não se prova e explicar o inefável. Vamos tirando a verdade do que não se fotografa e transformando cada incógnita em um tijolo de ilusão no edifício das mentiras. É que secamos, meu caro, extinguimos a aventura de ser humanos e semideuses, meio homem, meio anjo… Somos homo sapiens de curta vida, carbono e amoníaco, um breve lampejo de existência que nada mais será depois do fim, como nada a mais fora antes do primeiro choro.

Acabaram-se a magia e as fontes da juventude, as ninfas nos rios e os monstros nos bosques. Nenhum gigante fundou a terra, nenhum ovo primordial se quebrou. Não há limites insondáveis na terra plana que flutua no cosmos, suas quedas d’água nos confins do oceano que desembocam no universo. Evaporaram-se as almas e espíritos, os anjos e demônios, a comadre florzinha e o saci. Foram todos, absolutamente todos, jogados num saco velho de estopa que se guarda hoje no sótão inabitável do imaginário sufocado.

E que não se diga por aí que em algo assim se acredita! Serão loucos ou imbecis para todos que lhe lançarem, de soslaio, o olhar de repugnância. É que não se tem mais o direito de crer no que não se mostra, de temer o vulto da noite, de ouvir as vozes sobrenaturais. Morreram o mito e a lenda, os portais de Hades e as escadas do céu. Caiu João pelo machado da lógica, em pancadas científicas no seu pé de fantasia. Triste fim dos sonhos nossos, destinados ao cárcere das pálpebras cerradas.

Eis a morte sem foice, sem capuz em vestes pretas. É agora uma simples parada de funções vitais, porque deixou de ser um recomeço.

Há quem diga, entretanto, que ainda há fagulhas de um fogo ancestral que queima por aí. Viaja como pira olímpica pelo mundo em um disco-voador, mantem-se guardada pelos reptilianos no subsolo de cavernas nunca vistas. Sim, sim, há uma chama que queima tímida em algum lugar por aí. Tem um brilho fosco e azulado, diz-se, um fogo-fátuo que não sumiu. É uma fina luz de chama mágica que os governos escondem. Brilha nos olhares das crianças, pequenas e grandes, na esperança de que haja mais no mundo que as fórmulas e conceitos.

É que as máquinas um dia dominarão o mundo, mas nunca poderão imaginar. Elas serão só cálculo e lógica, raciocínio e comprovações. As máquinas matarão sem sentimentos, pelo simples servir à causa. Terão inteligência multiplicada, viverão em redes de pensamentos, saberão de tudo a qualquer hora, mas nunca conseguirão imaginar. Há uma chama ancestral que ainda queima, meu caro, em algum lugar por aí, e diz-se que as máquinas que a enxergam, magicamente, voltam a ser humanas.

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