Hipnos

Quão mágicos são os olhos que dormem, trancando o corpo no paraíso imprevisível do senhor do sono. Fecham-se como cortinas numa face que ensaia a morte, porém brinca com ela ao fazer surgir um mínimo sorriso ou movimento qualquer. Descansa o rosto delicado, que suavemente submerge nas águas planas da calmaria. Afunda o corpo, como pedra, rumo ao submundo (submerso) dos palácios da infância. Sim, lá correm os miúdos como se não passasse o tempo. Lá vagam os fantasmas que deixam de ser lembrança e falam coisas novas. No reino de águas paradas, o corpo desce buscando o chão que não chega, deixando passar sob a vista embaçada os lugares já visitados, os cheiros já sentidos, os toques já provados.

Neste espaço de tons azuis, onde as imagens se turvam, nadam sereias de vozes suaves que um dia já me cantaram ao pé do ouvido. Nadam monstros de vulto imenso dos quais me viro sem demora. Nadam os barcos e suas velas, guiados por ventos de marés, lá carregando as turmas de amigos que já embarcaram para longe. Mágicas horas, que se vão como segundos, benditas são no calar da noite. Hipnos, soberano silencioso de temperamento inesperado, permite-me aí ficar por alguns dias, para que se passem, ao menos, alguns minutos de mergulho.

Abre-se a porta de casa com a areia do mar a tocar-me os pés. Abro janelas da sala antiga do colégio e dou-me diante da velha sala de tevê onde dorme minha avó, ao som do telejornal esquecido. Como flui aqui o espaço, que a si mesmo se transgride! Como fluem as faces das quais não lembro mais! São vulto de traços em movimento que me trazem a emoção de um alguém, embora me deixe à mercê das impressões de suas antigas fisionomias. No reino submerso do velho deus do bocejo, aprendo, há uma essência de vida na vida que passa. De repente todos os lugares e vozes, todos os rostos e momentos, são rastro de alma deixada em um redemoinho sem fundo. Pesco-os todos a cada noite, viajando neste quebra-cabeça do que já vivi e do que a realidade não me deixa viver.

Olho cá na minha mão, por um instante, o pezinho de um bebê. Logo ali, adiante, ele segue já adulto. Beijo o rosto que me tenho à frente, desfeito em água fria. Corro para o quintal e suas árvores, sua terra e besouros. Corro moleque e adulto, embora caindo ainda, corro de medo e de êxtase. Mundo, belo mundo, de não se saber o que se vive!

Hipnos, bendito! Se Tânato, deus da morte, for ainda teu amigo íntimo, ensina-o como deve ser o sono eterno! Peço, repassa este pedido. Que deixe serem os mortos como aqueles que dormem, mergulhando em memórias e monstros, na aventura eterna de um cair sem fim.

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