A voz de muitos

Deus me cale quando a maioria decidir gritar. Que não escape nenhum ai de minha boca quando a multidão disser amém. Que passe longe das decisões unânimes minhas humildes escolhas, para que sejam sempre livres do pensar de outros e me deixem decidir sozinho. Não quero ser como eles, que são moldados na velha fôrma. Recuso-me a dançar sua dança no salão vasto e lustroso das boas intenções. Deixem-me valsar sem companhia, em outro tom, girando aos acordes da minha própria canção.

Eu quero ser azul quando me for imposto o preto, decidir pensar que não quando todos disserem que sim. Preciso concluir antes de falar, meditar antes de escolher. É de minha índole ser água suja e não cristalina. Deixem-me ver que tenho minhas podridões, assim posso esperar para decantá-las, porque meus erros são meus somente e tenho-os todos em vista. Nessa multidão que fala em uníssono há uma voz soberana e divina, mas não é a voz de Deus, é algo como um soar de trombetas que emudece as bocas miúdas, uma pedra largada morro abaixo, que rola sobre aqueles que discordam.

Vão gritar em nome da velha tradição, vão tentar me convencer da minha loucura. Sim, rirão do que eu disser e condenarão minhas palavras, mas lá eu estarei também de sorriso armado por ter sido eu. Um eu que deve somente a mim, que me obedece incondicionalmente, um eu que eu construo pensando e criando, nunca replicando. Deixem-me contribuir com o dia que virá, sugerindo mudanças sobre tudo que se vê até que um dia o meu pensamento seja o novo padrão e tudo em que acredito tenha sido deturpado novamente.

Vamos seguindo e vendo girar a roda, vendo os pequenos se tornando grandes com a força de suas reivindicações. Pobres coitados que, uma vez no trono, serão os deturpadores. Porque toda maioria é burra a ponto de se achar lei, medindo todos com suas próprias medidas e esquecendo-se de quem discorda. Por isso, deixem-me aqui com meus aceites quando todos se negarem, com meus medos quando todos se acalmarem, com minhas fomes de tantas coisas para as quais todos estão saciados. Prefiro ser minha própria maioria, comandante de todas as minhas opiniões, a ser maioria daqui para fora, parte dispensável de um monte já arruinado.

Se eu e minha maioria, aqui dentro, podemos ainda ser injustos com tantos eus reprimidos, o que dizer da voz de milhares? A voz de muitos poderá ser ouvida e eles serão sempre claros como um coro de tragédia grega, mas prestem bem atenção às falas que lhes sobrarão. Por mais baixa que seja, haverá ali a minha voz, segundo as bênçãos de Apolo e os brindes de Dionísio. Então teremos sido arte, e não texto recitado.

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