Valsa

Entrou para um dança e fincou os pés na sala de estar. Disse, na porta, que seria uma valsa apenas, evocada pelo som harmônico de minha velha vitrola que tocava durante todas as manhãs. Lá estava a figura de preto curvada, lânguida, pedindo abrigo por alguns dias. Era mulher, ou algo próximo disso, com olhos negros fundos que me deixavam perder minha consciência em seu preto fúnebre, como uma medusa que suga sua força vital e te faz pedra por toda a eternidade. Parecia triste, embora fosse apenas seca de vontades e sentimentos. Era a Morte.

Movia-se lenta e calma, fazendo do tempo um ruído desnecessário, andando como quem flutua. Talvez flutuasse, pois não se via os seus pés naquele vestido longo de barra larga. Falava pouco. No primeiro dia me assustou, confesso, porque se anunciou como a famosa Morte que todos temiam. “Onde está a foice?”, indaguei. Ela riu discreta sem me dar melhores respostas. Tinha-a pela casa, vagando em silêncio. Ora de pé, ao lado do sofá, ora acocorada do lado da cama. No segundo dia já se sentou à mesa comigo, provou do meu café amargo e beliscou o pão e os queijos. Tendo-a tão perto, passou a não amedrontar mais. A Morte se tornou amiga, quase um bicho domesticado. Todas as manhãs, no entanto, ouvia minha velha vitrola tocar e parava tesa em frente ao objeto antigo. Estava ouvindo ou meditando? Não sabíamos. Não dançava também.

Passou-se a semana e a figura antes agourenta me era agora uma filha autista, perambulando pela casa com seu mundo particular, vagando em suas próprias ideias e emitindo seus poucos sons. Chegou a dialogar quando lhe perguntei quando iria embora, dizendo-me que não demoraria muito. De certa forma, a casa mudou quando ela chegou. Passamos a ser visitas em nosso próprio lar, entendam, e ela a dona do espaço. Durante os domingos, quando chegávamos da igreja, ela parecia até mesmo sorrir, mas até hoje não identifico o que era, de fato, aquele sentimento em seus lábios. “Você conhece Deus?”, perguntei em um desses dias. Ela me respondeu com ares de arrogância: “Somos unha e carne”, suspirou, “mais unha do que carne”.

Eram três pessoas na casa, fora a Morte que não se contava. Três até o dia em que ela resolveu dançar. Foi até a vitrola e começou a valsa. Puxou o primeiro que viu e esticou o sorriso pela primeira vez. Meu filho. Dançaram belos como nunca eu havia visto, rodopiando com graça e ternura, deixando-se tocar com suavidade ao som arranhado do disco de vinil. Sorriram e a Morte parou. Desapareceram os dois na frente dos meus olhos. Ela o levou de repente e partiu sem agradecer a estadia. Ela que sempre teve fama de ingrata, confirmou-a na minha casa. Levou quem eu amava e deixou-me a música tocando, todas as manhãs, até que um dia volte para mais uma dança.

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