Fome de respostas

Ele me perguntou sobre os mistérios da vida e tudo mais que levo décadas para aprender. Como pode querer tanto se tem tão poucos anos? Aqueles olhos grandes, brilhosos, ávidos por respostas concretas para tudo que não lhe pode ser dito com precisão. Toma-me pelas pontas dos dedos todos os sábados à tarde e me vem com perguntas que talvez tenha demorado a semana toda para elaborar. Então aguarda, com silêncio e fome de respostas, às vezes como um leigo propenso a aprender, outras como um pequeno deus de pureza, testando minha leviandade.

Quantos anos você tem?

Agora me dou trinta e um de carne e dou-me quinze de alma. Dou-me, de fato, tantos que nem sei contar. Devo ter alguns milênios, vindo de várias épocas distantes quando o mundo nem mundo era. Devo ter visto outras civilizações, mas no momento não me recordo. E você, pequeno, quantos séculos tem?

Por que a gente morre?

Porque tudo tem que ter um fim, porque ciclos fazem girar o mundo. O que não conhece fim nunca vai nascer de novo e somos parte de um todo que exige um recomeço constante. Na verdade morremos muitas vezes na vida e sempre recomeçamos. Morrer é como quebrar uma parede difícil que te impedia de ir adiante e quase sempre levamos anos agredindo os tijolos e golpeando o concreto, machucando os punhos, até que os fortes sejamos nós e o fraco seja o muro. Quando se morre a parede quebra. O lado de lá se revela. E vendo toda a maravilha atrás da parede, não perde a graça este lado escuro de cá?

Pra quê a gente vive?

Pra somar ao mundo, pra deixar aqui alguma coisa boa que nos faça ser lembrados como alguém que foi intenso o bastante para não apenas sobreviver. Não passamos por uma simples existência, passamos por lugares e pessoas, deixamos neles alguma coisa sempre. O que você tem deixado?

Eu vou amar um dia e ser feliz?

Você já ama hoje e cuidado porque um dia pode deixar de amar. O amor se esfria com o tempo, se materializa. Aproveite que agora você pode amar como se deve e se apaixone quando criança. Não precisa ser por alguém, pode ser por alguma coisa. O amor vai salvar sua vida, quer o jogue nas pessoas, no trabalho ou no lazer. Ele é o copo d’água para quando você estiver batendo no muro e ficar cansado demais para dar mais uma pancada. Ame o que for fazer, ame o alguém com quem você está e, acima de tudo, ame ser você fazendo qualquer coisa e estando com qualquer pessoa. Você consegue amar a si mesmo como ama o próximo?

Por que você escreve?

Escrevo para amar minha jornada de quebra do muro e para quebra-lo com sopros de beleza. Escrevo para andar tranquilo naquele novo horizonte que está do outro lado, pelos meus próximos milênios, tendo a felicidade de quem deixou algo no mundo lá atrás.

E o que é felicidade?

É não lembrar de ser triste.

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