Rua dos Prazeres

Assoprou a poeira da velha agenda e até pensou em voltar a utiliza-la quando as coisas melhorassem. Se o fizesse agora teria no máximo dois ou três compromissos a serem marcados de lápis grafite em horários cambaleantes da semana que vem. Guardou-a junto de alguns livros e saiu apressado. Esqueceu de deixar a chave por trás do vaso alto e branco com entalhes de florais e, com certeza, amanhã a diarista voltaria para casa depois de bater algumas dezenas de vezes na porta. Desceu as escadas em espiral, claustrofóbicas, de degraus irregulares, e estava salpicado pela luz do sol que se punha e passava espremida pelas janelas miúdas. Aquele prédio tinha um cheiro parecido com o da casa de sua avó.

As calçadas ainda estavam molhadas da última chuva e o cheiro bom de inverno subia com delicadeza. Olhava o relógio constantemente por medo de perder a hora. Cada passo em direção à esquina continha um pensamento vago entre a faculdade e as notícias do jornal de meio-dia. Podia-se dizer que sua mente era sempre assim, meio caótica, e que quando tentava se expressar falando era como se as palavras demorassem um certo tempo para se organizar. Sabia muito bem o que dizer sempre, mas era mais rápido fazê-lo na escrita. Dobrou na Rua dos Prazeres e parou um pouco mais além do ponto de ônibus. Olhou a pista.

O primeiro carro passou com duas mulheres berrando alguma piada ou seu último caso frustrado de final cômico. Gesticulavam muito, como fazem todas as mulheres nesses assuntos. O segundo, o terceiro, o quarto… Carros com pessoas sozinhas, de mentes vazias, guiando sem pensar. Alguns o olhavam ali parado, curiosos. “Michê!”, podia ler em seus lábios mudos por trás dos vidros fechados. Sempre assim, mas não demorariam a parar. Ele tinha boas pernas e braços fortes, cabelo sempre arrumado. Paravam sempre antes das sete horas.

– Ei, você… Chega aqui. – Confessou-lhe um senhor num carro popular preto, estacionando devagar.

– Pois não.

– Quanto cobra para entrar no carro? – Vasculhou-o de cima a baixo.

– Eu não sou garoto de programa, senhor. Desculpe.

O homem pareceu surpreso. Corou em dois segundos e começou a subir o vidro do carro parecendo ter dito algo como “perdão”, embora o volume de sua voz não deixasse se identificar as palavras certas.

– Mas entro no seu carro. De graça. – O rapaz sorriu.

– Não estou entendendo…

– Posso?

– Não. Fica pra próxima. – E terminou de fechar o vidro. Partiu rápido e assustado deixando uma névoa de medo daquele moço bonito parado na calçada.

Ele lá continuou ao longo da noite. Mais três carros pararam. O primeiro com duas mulheres, de meia idade. O segundo com um menino recém-saído dos dezoito. O terceiro com uma outra mulher com rosto inchado e maquiagem borrada. Todos fugiram depois de diálogos semelhantes. Ainda surgiu, como que saído de uma das latas grandes de lixo, um mendigo que veio lhe procurar para uma noitada. Ofereceu-lhe pouco, mas ficou igualmente assustado quando sua nota velha foi negada. Ninguém no final das contas.

Quando o relógio marcou onze da noite, desistiu. Foi até seu prédio e entrou no seu carro na garagem. Saiu guiando madrugada adentro. O check in do hotel seria apenas às quatorze horas, mas ele poderia chegar mais cedo e ficar na praia por um bom tempo. Talvez visse o sol nascer já com os pés na areia. As malas já estavam no carro com suas roupas e sapatos, além de um livro de Eco para os momentos de lazer. Adorava viajar no silêncio da madrugada, pensando na vida e nas pessoas, no turbilhão de coisas em que sempre pensava. E quanto mais concluía seus pensamentos a respeito da humanidade, mais duvidava da sua lógica. Como eram estranhas as pessoas.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s