O mundo dos apagados

Deitou-se na cama com a respiração dopada. A agulha entrou-lhe na veia e deixou correr seu veneno. Os olhos foram se fechando aos poucos, revirando, enquanto o cheiro do quarto ia ficando distante. O pensamento era de palavras que se agarravam umas às outras com algum esforço, mas seguiam se desgrudando com o passar dos segundos. As frases em sua cabeça se desfaziam como uma espuma que perde sua densidade, submergiam num limbo preto dos pensamentos vazios. A vista escureceu.

Passou por um tempo de nada: completo silêncio em uma sala escura, mas logo abriu os olhos no mundo dos apagados. Havia uma pequena luz vinda de um fósforo aceso a alguns metros. Seu brilho pouco revelava do lugar cheio de ecos. Andou até o pequeno palito flutuante, de chama baixa, e conseguiu ver novamente suas próprias mãos e pés. Conhecia aquele fósforo. Não que tivesse algo diferente na sua cor ou consistência, ou mesmo na sua chama. Estranho era o fato de que continuava a queimar e não se consumia, mas fora isso era um fósforo normal. Lembrou-se. Havia sido o primeiro fósforo aceso na infância. Queimara-se na ocasião. Por que não se consome? Lembrava de que havia quebrado a haste também na primeira tentativa, mas lá estava o fósforo inteiro. Lembrança mal lembrada essa.

Pegou-o com os dedos em pinça e olhou ao redor. O fogo virou fogo de tocha e pôde ver um pouco além no lugar escuro. Tinha uma penteadeira de mogno logo ali, passando a poça de água da chuva. Sim, chovia fraco numa área curta, quase do tamanho de um guarda-chuva. O móvel tinha alguns perfumes de frascos antigos e um espelho grande. Tinha uma escova de cabelos também. De repente estava no quarto da avó. A cama continuava a mesma com aquele espelho largo e retangular de madeira. O colchão duro como sempre. Fazia bem pra coluna, dizia.

Dois passos na direção da cama e algumas árvores apareceram lá na frente, sob um sol mágico daqueles que só existem na lembrança da infância. Tinha goiabeira e pé de jambo, tinha terra. Desceu até lá e se viu sujo de lama. Era ali que passava todas as manhãs de brincadeiras. Alguém tocou-lhe o ombro.

Virou-se e estava com a primeira namoradinha. Sorriram o mesmo sorriso tímido de quando os dentes eram faltosos. Por um momento ele percebeu que era bom estar no mundo dos apagados. Era um lugar de memórias doces, um recontar de sua própria história. Pensou se queria voltar para o outro lado, entretanto a resposta vagou pelo limbo de seus questionamentos quando ele avistou a turma do colégio. Todos juntos falando besteiras e acreditando que estavam descobrindo as maiores verdades da ciência. Tantos segredos viu passar pelos seus olhos, tantos e tantos! Hoje soam tolos e sem mérito nenhum para se guardar a sete chaves. Podia tê-los contado e sofreria menos. Podia ter feito tantas coisas e não fez. Era imaturo.

Andou pelos corredores da faculdade de novo, gozou seu primeiro gozo novamente, beijou pela primeira vez algumas vezes mais. Brincava de deus do seu passado e gostava. Foi ótimo rever as dores e sofrimentos e pensar que passariam. Aliviava saber do futuro, no entanto, soava frustrante. Foi quando começou a sentir falta do outro lado, do mundo onde tudo acontecia sem se saber o final.

Era ótimo viver tudo de novo e saber da conclusão das histórias. Era melhor ainda andar sem saber onde pisava, esperando o resultado de cada passo.

Olhou para o fósforo que carregava e pensou. Pensou por alguns minutos ou anos, alguns meses ou dias, e soprou-o. Tudo era escuridão novamente, mas empolgava correr no escuro esperando bater de frente com a parede ou cair num abismo sem fim. O que valia era o vento no rosto, a sensação de que o mundo dos apagados podia ser igual ao mundo dos que tinham toda a luz.

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